1968: OS ESTUDANTES INVADEM A REITORIA E DERRUBAM O BUSTO DE FLÁVIO SUPLICY DE LACERDA
- VITORIO SOROTIUK
- 25 de mai.
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1968: OS ESTUDANTES INVADEM A REITORIA E DERRUBAM O BUSTO DE FLÁVIO SUPLICY DE LACERDA
Vitorio Sorotiuk
No ano de 1968 eu tinha 23 anos de idade. Eu estava estudando no quarto ano de Direito na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná. Em outubro de 1967 os estudantes de minha faculdade me haviam eleito Presidente do Centro Acadêmico Hugo Simas.

O Reitor da Universidade era Flavio Suplicy de Lacerda, que havia sido nos anos anteriores Ministro da Educação e instituído leis que perseguiram as entidades estudantis e os estudantes. Quando ele foi Ministro da Educação fez os acordos denominados MEC-USAID e que previam a instalação do ensino pago nas universidades federais do Brasil. E a primeira universidade no Brasil para a instalação do ensino pago no país foi escolhida a Universidade Federal do Paraná e o ensino começaria a ser cobrado no ano de 1968.
No mês de abril de maio de 1968, fiz um discurso atacando a existência do busto do Reitor Flávio Suplicy no pátio da Reitoria. Disse na manifestação: “Nós, estudantes, somos mamíferos e não somos contra bustos. Mas no lugar no busto de Suplicy deveria estar o busto de Jayne Mansfield. Esse busto de Suplicy deve ser derrubado.”

Em maio de 1968 os estudantes ocuparam a Reitoria, derrubaram o busto, arrastaram-no pela Rua XV e a tentativa de introdução do ensino pago no país nas Universidades Federais foi abortada.
Isso teve consequências em minha vida. Em novembro de 1968 fui eleito Presidente do Diretório Central da Universidade Federal do Paraná. O Reitor Flavio Suplicy de Lacerda disse que eu não poderia assumir o posto, porque estava com prisão preventiva decretada por ter participado do XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes e que a posse deveria ser dentro do prédio da Reitoria, conforme os estatutos. E ele cercou a Reitoria de policiais para que eu não entrasse e não tomasse posse.
Nós organizamos a encenação da peça O Santo Inquérito, de Bertold Brecht, e solicitamos o espaço do Auditório da Reitoria para a apresentação. Eu entrei disfarçado no Auditório da Reitoria junto com os atores. Entre os atores estavam Emilio Pita, que veio a tornar-se um dos grandes atores nacionais do teatro, da televisão e do cinema; Rogério Dias, que é hoje um dos grandes pintores do Paraná; e Ione Prado, grande artista de teatro em São Paulo. No meio da encenação da peça, fizemos um intervalo, e eu tomei posse como previsto nos Estatutos, dentro da Reitoria, e nas barbas do Reitor, sob os aplausos de centenas de estudantes e seus líderes.
Novamente isso marcou minha vida. A perseguição se acentuou. Fui preso, tive que partir para o exílio. Só fui terminar o curso de Direito em 1983, depois de passar pelo Chile, França e Suíça. Mas hoje, além do português, falo o ucraniano, minha primeira língua, o espanhol e o francês. E agora estou estudando inglês para melhorar ao lado da Reitoria da Universidade Federal do Paraná.

O busto de Flávio Suplicy de Lacerda foi novamente erguido no pátio da Reitoria. E poucos anos atrás os estudantes o derrubaram mais uma vez. Mas, mais uma vez, o busto do Reitor Flávio Suplicy de Lacerda foi erguido e está atualmente localizado no pátio da Reitoria.
Muitos estudantes me perguntam se não seria necessário derrubá-lo novamente. Acredito que a decisão cabe aos estudantes de hoje. Mas o importante é que os eventos de 1968 permaneçam na memória dos estudantes. No entanto, no interior de mim, penso que seria bom criar um "Dia da Cuspida". Escolher um dia do ano para os estudantes cuspirem no busto de Flávio Suplicy de Lacerda, pelos danos e perseguições que ele infligiu aos estudantes durante a Ditadura Militar.

Vitorio Sorotiuk, advogado formado a duras penas, foi presidente do Instituto Ambiental do Paraná, secretário do Meio Ambiente e Presidente da Representação Central Ucraniana no Brasil. Graças ao regime militar, é também poliglota e globetotter. Para ele, o ano de 1968 só terminou em 1983.










... na atualidade da " Democracia Relativa " dita às duras pelo inquérito do fim-do-mundo, data venia, qual busto Vossa Senhoria arrastaria pelas ruas de Curitiba ou o ensoparia de saliva, por liberdade de expressão pública e não, ainda, sob a pulsão de rebeldia ? ...