top of page

"Ninguém fala comigo no clube": O preço da polarização política

Duas quadras de tênis de piso duro azul com linhas brancas, separadas por redes, iluminadas por fortes refletores de postes altos sob um céu de fim de tarde azul-escuro.
O isolamento nas quadras: a polarização política afasta até parceiros de esporte. (Foto: Reprodução)

"Ninguém fala comigo no clube": O preço da polarização política

Em comentário ao artigo do economista, Hatsuo Fukuda analisa o impacto das redes sociais na política e defende o verdadeiro temperamento do povo catarinense.

Por Hatsuo Fukuda


O artigo de Paulo Nogueira Batista Jr., Ninguém Fala Comigo no Clube, publicado na revista CartaCapital, traz à tona um acontecimento recorrente no Brasil hoje. Batista Júnior, que está residindo em Santa Catarina, deu-se conta de sua solidão. Tenista amador, tem aulas de tênis duas vezes por semana e percebeu que não encontrava parceiros para jogar, tampouco os frequentadores do clube com ele falavam. Homem vivido, viajado e experimentado, Paulo deu de ombros e seguiu sua vida.


Algum tempo depois, ele soube as razões de seu isolamento: era visto, pelos membros do clube, como um petista roxo. Paulo, um gentleman, escreveu em seu artigo que nunca foi petista, muito menos roxo. Para os que não o conhecem, Paulo Nogueira Batista Júnior é economista da PUC-Rio e fez Mestrado na London School of Economics, tendo ocupado cargos nos governos petistas, embora nunca tenha se filiado ao PT (ele explica as razões no artigo). Por fim, vale destacar que ele também foi diretor do FMI e diretor do banco do BRICS.


Recebi o artigo recentemente, via WhatsApp, seguido por um comentário de um dos membros do grupo: “Muito longo para ler. Vou esperar para virar filme”.


O fenômeno dos "deputados-influencers" e as redes sociais


O comentário sucinto reflete com precisão o que anda acontecendo no mundo hoje. Umberto Eco, em 2015, em um discurso na Universidade de Turim ao receber um título de doutor honoris causa, havia dito que a internet deu voz aos imbecis. O idiota da aldeia – ou o bêbado de botequim – seria tratado por seus pares, antes da rede mundial, como realmente é: um tolo. Seria silenciado ou, quase sempre, ignorado.

As redes sociais e seus algoritmos transformaram o tolo (ou o imbecil) em fenômeno comunicativo. Da noite para o dia, viralizam, transformam-se em estrelas. Alguns, não satisfeitos com a monetização decorrente, lançam-se à arena política, e o resultado é este Congresso que temos, com alguns deputados-influencers transformando em circo midiático o que deveria ser um local de sérios debates.


Uma velha dicotomia com novas ferramentas


Esta polarização não é novidade na política brasileira. Hoje lulistas e bolsonaristas, ontem petistas contra tucanos, antes getulistas versus lacerdistas e, lá no final do século XIX, maragatos se digladiavam com pica-paus. Ou seja, nada de novo sob o sol, como na Bíblia se advertia há milhares de anos. A internet e as redes sociais apenas permitiram a entrada de novos participantes a estas antigas dicotomias.


Onde antes a polarização exigiria homens dedicados às causas, armados com ideias e dispostos a arriscar suas vidas por seus ideais – nós ainda reverenciamos a memória do Barão do Cerro Azul e do Coronel Lacerda, o herói da Lapa – aquele maragato, este pica-pau –, hoje dos fiéis exige-se apenas um celular e a leviandade do clique. Estes são os heróis das redes sociais.


A verdadeira natureza do povo catarinense


Batista Júnior destaca no final do artigo a preponderância bolsonarista no Estado vizinho: “Quem mandou morar em Santa Catarina?”. Devemos perdoá-lo. Ele, pela sua história pessoal, desconhece o povo catarinense. Nós, paranaenses, que os temos como vizinhos e com eles convivemos durante todos estes anos – algumas cidades nossas, como Rio Negro e Mafra, União da Vitória e Porto União, Barracão e Dionísio Cerqueira, são conurbadas –, e nós, curitibanos, convivemos intensamente e conhecemos muito bem o temperamento catarinense. E devemos muito à inteligência e vivacidade deles.


Aqui no Dialéticos, o historiador Arthur Virmond de Lacerda Neto destacou o papel de uma joinvilense, de origem alemã, Margarida Langer, no desenvolvimento do Paraná, primeiro com sua loja de bordados, depois com a criação do Spa Lapinha. Eu lembraria a Dra. Zilda Arns e Dom Paulo Evaristo Arns, vindos de Forquilhinha. Os exemplos são inúmeros. No dia a dia, curitibanos e catarinenses de todas as regiões convivem aqui.


E sua principal característica, além da inteligência e capacidade empreendedora, é a jovialidade e a civilidade. O fenômeno da radicalização política é uma onda superficial que não atinge a profundidade inerente da natureza diversa – bota diversidade nisso – e amável do povo catarinense.


Essa incivilidade não é catarinense, caríssimo Paulo Nogueira Batista Júnior. Nós, seus vizinhos, melhor do que ninguém podemos avalizar. Continue jogando tênis, continue apreciando as belezas naturais de Santa Catarina, continue vivendo intensamente a sua vida. Logo você descobrirá o que nós, paranaenses, já sabemos: eles são ótimos vizinhos, amigáveis vizinhos. Alguns enlouqueceram um pouco, mas isso passa, como tudo na vida.


Foto de rosto do economista Paulo Nogueira Batista Jr., um homem maduro, sorrindo levemente, usando paletó escuro e camisa social.

NOTA DO EDITOR: QUEM É PAULO NOGUEIRA BATISTA JÚNIOR


Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. É autor dos livros Mito e realidade na dívida externa brasileira (1983, Paz e Terra), Da crise internacional à moratória brasileira (1988, Paz e Terra), A economia como ela é… (3. ed. 2002, Boitempo) e O Brasil e a economia internacional: recuperação e defesa da autonomia nacional (2005, Elsevier).


Lançou em setembro de 2019, pela editora Casa da Palavra/LeYa, O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, revista e ampliada, foi publicada em 2021.


Leia também no Dialéticos:

  • Se nada mais for confiável, então acabou o diálogo (Por Caio Brandão)

    • Uma crônica precisa sobre o racha ideológico atual. O autor narra como o esvaziamento do debate faz com que alguém seja rotulado simultaneamente de "petista" e "bolsonarista", inviabilizando qualquer conversa civilizada.

  • Os perigos da polarização (Por Inês Lacerda Araújo)

    • A fundamentação filosófica para o isolamento vivido nas quadras de tênis. Neste ensaio, a autora disseca os mecanismos da intolerância política e os riscos reais que ela traz para a sobrevivência da democracia.

  • Comemorando o Brasil (Por Hatsuo Fukuda)

    • Para contrapor a amargura da rejeição partidária, uma crônica que resgata o otimismo. O autor nos convida a celebrar a nossa identidade cultural e a convivência diária que resiste às ondas de radicalismo.


Comentários


bottom of page