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NORMA CECI ENCONTRA JOÃO GILBERTO: A ONDA QUE SE ERGUEU NO MAR

Norma Ceci conta como conheceu João Gilberto.
Norma Ceci conta como conheceu João Gilberto.

A ONDA QUE SE ERGUEU NO MAR


Norma Ceci


Todos os finais de semana eu ia para Barra Velha com o Gilberto Camargo, que era meu namorado na época. Num desses finais de semana eu chamei o Waltel Branco para ir à praia conosco. Ele concordou, mas pediu o número do telefone fixo da casa. Ele passaria o número para um amigo, caso ele quisesse falar com ele. Achei natural, porque lá no Morro Grande o celular não pegava. E lá fomos nós para Barra Velha.


Chegamos, nos instalamos. Instalei o Waltel, fomos jantar, amanheceu, o Waltel pegou a viola, o Gilberto pegou a viola, e eu na cozinha. Daqui a pouco toca o telefone fixo da casa. Os dois estavam tocando e eu fui atender.


- Alô. Por favor, gostaria de falar com o Waltel Branco. É um minutinho, por favor.


- Quem gostaria de falar, eu perguntei.


- João.


-Senhor João, um instante por favor. Ele está fazendo um som ali.


A pessoa do outro lado riu e disse:


- Ah! Este Waltel... sempre fazendo um som... Mas eu preciso falar com ele, senhorita.


- Sim senhor, um momento.


Waltel Branco, maestro e músico curitibano, percorreu o mundo fazendo música, era amigo de Norma Ceci e João Gilberto.
Waltel Branco, maestro e músico curitibano, percorreu o mundo fazendo música, era amigo de Norma Ceci e João Gilberto.

Falei para o Waltel:


- O João quer falar com você urgente. Larga um pouco esse violão e venha atender o telefone. Não dá para levar o aparelho até aí.


Waltel sentou no sofazinho, pegou o telefone e começou a falar.


- Oi tudo bem? Pois é, eu estou aqui na praia. O que é que você precisa, João?

...

 -  É fácil, fácil, fácil. Daqui a pouquinho eu ligo para você no teu fixo aí no Rio.


Waltel desligou o telefone e começou a escrever uma partitura. Depois de algum tempinho, uma hora, uma hora e meia, falei:


- Waltel?...


Ele respondeu, distraído.


- Tenho que escrever esse negócio aqui pro João.


Eu falei:


- Waltel, eu escutei a voz do João Gilberto.


- Mas era o João Gilberto.


- Palhaço! Vá tomar banho, Waltel.  


- Mas era o João Gilberto. Ele tem que ter sempre meu número fixo, onde eu esteja porque ele sempre precisa falar comigo quando precisa de alguma coisa. Ele se sente totalmente seguro se souber onde estou.


Mais tarde, Waltel pega no telefone e liga para João. Combina enviar a partitura por e-mail. Eu, ao lado, digo a Waltel.


- Eu preciso falar com ele. Deixa eu falar com o João Gilberto.


No telefone, Waltel diz:


- Tem uma mulher aqui, enlouquecida, linda, maravilhosa, com umas pernas bonitas, uma loiraça que é apaixonada por você desde os cinco anos de idade, quando ouviu você cantar Wave, e ela quer falar com você.


Peguei no telefone e disse:


- Alô.


Na minha mente vieram lembranças de João Gilberto. O músico revolucionário de Chega de Saudade. Pensei no João Gilberto que adorava música popular, como eu, e que gravara um disco no México, com boleros como Besame Mucho, de Consuelo Velazquez, e Farolito, de Agustin Lara. Ele, como eu, não tinha medo de ser chamado de brega. Amor é brega, é um bolero desenfreado. Mas para ele, tudo era música. Pensei em cantar para ele:


Farolito que alumbras apenas mi calle desierta

Cuantas noches me has visto llorando llamar a su puerta


Ou Besame Mucho, na versão intimista e bossa nova que ele imortalizou, aquela que eu cantaria quase murmurando na penumbra da noite para alguém que eu amasse muito.


Lembrei de Disse Alguém:


Disse alguém, que há bem no coração

Um salão, um salão dourado, onde o amor sempre dança

Ai de mim que vivo tão sozinho

Vivo assim, vivo sem ter um terno carinho.


Pensei que ele, como eu, também tinha que pagar o aluguel, e por isso gravara um comercial da Brahma:


Pensou cerveja pediu Brahma Chopp

Cerveja é Brahma Chopp


E com isso, ele transformou em arte a prosaica vida dos bebedores de cerveja e dos botequineiros de todo o mundo.


Do outro lado, veio a resposta:


- Alô? Alô?


O tempo foi passando, eu paralisada com a idéia de João Gilberto, meu grande ídolo, ao telefone. Comecei a chorar, incapaz de articular uma palavra sequer.


Eu, a super Norma Ceci, a mulher independente e autoconfiante, a mulher que enfrentava multidões nas noites dançantes curitibanas, e gostava de atormentar homens com minha beleza e minha voz, e onde quer que estivesse, seria o alvo das atenções – seria a estrela da festa – ao telefone com João Gilberto me transformei na menininha de cinco anos que havia escutado Wave e me apaixonara por ele. Eu era uma garotinha apaixonada, incapaz de articular uma palavra, paralisada por uma onda que se ergueu no mar (Wave).


Passei o telefone para Waltel. Depois, Gilberto conversou com ele um tempão. Eu fiquei com a lembrança.  


Norma Ceci, cantora e produtora cultural, atua como mestre de cerimônias e apresentadora de eventos.

Norma Ceci, cantora e produtora cultural, atua como mestre de cerimônias e apresentadora de eventos.  

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