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A REPÚBLICA DAS MILÍCIAS - Dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro

Recomendação de leitura

Entenda o que são as milícias e como elas chegaram ao poder.

Imagem de StockSnap por Pixabay

Hollywood eternizou uma certa visão romântica em torno da máfia, personificada por homens duros e determinados, que prezam valores como família e lealdade, mas que estão dispostos a derramar sangue quando alguém desrespeita seus objetivos particulares. Bons exemplos são a trilogia “O Poderoso Chefão” e o filme “Os Bons Companheiros”. Marlon Brando é Dom Corleone, o estereótipo do chefe da família mafiosa, que cuida de todos e mantém a “ordem”.


As milícias são as máfias brasileiras, também valorizando termos como “ordem” e “lealdade”. Apenas que por aqui a estruturação não é tanto familiar, mas parte de estruturas públicas, como polícia e exército. Elementos expurgados destas instituições e alguns mesmo dentro delas estruturam-se em milícias para dominar determinado território e explorar sua população.


O livro de Bruno Paes Manso é uma extraordinária reportagem que investiga as origens das milícias, seus conflitos com o tráfico, seu crescimento, seu transbordamento para a política, até culminar com a ascensão de um miliciano ao Palácio do Planalto. Trata-se de uma obra de leitura obrigatória, criteriosamente elaborada, que desnuda o problema e alerta para todos perigos envolvidos.


As milícias existem porque o Estado fracassou. Essencialmente é isso. Populações cansadas da insegurança da vida na cidade grande, da violência praticada por bandidos que controlam o tráfico de drogas e da incapacidade dos governos em assegurar um mínimo de estabilidade e confiança, abraçaram grupos paramilitares que surgiram, a princípio, como justiceiros. Tais grupos eram majoritariamente compostos por elementos vindos das instituições policiais ou militares e, uma vez dominados os elementos criminosos, passaram a dominar as comunidades impondo a sua “ordem”. E as pessoas trocaram a insegurança por uma espécie de servidão.


Como o Rio de Janeiro é seguramente o exemplo maior do fracasso do Estado em enfrentar a criminalidade ( há explicações históricas, geográficas e políticas para isso ), é também o campo mais fecundo para a proliferação de traficantes e milicianos. Desde a comunidade de Rio das Pedras - origem histórica das milícias - a fórmula se repete: cobrar segurança dos moradores e comerciantes, explorar o comércio ilegal de gás e de sinal de internet, explorar o jogo, atuar na área imobiliária pela invasão de terras em áreas de proteção ambiental e mediante a construção de prédios irregulares. Com o tempo, milicianos também ganham dinheiro prestando segurança, atuando como matadores de aluguel e, até mesmo, explorando o tráfico de armas e drogas.


A grande diferença entre milícias e tráfico reside nas relações com as estruturas de poder. Milicianos estão ancorados em autoridades, tanto na política quanto na administração pública, gozando de proteção oficial e informações privilegiadas da segurança pública. São, portanto, muito mais perigosos e mais danosos que o próprio tráfico.


Se a obra de Bruno Paes Manso tem um defeito é tornar-se um pouco cansativa ao narrar o extenso rosário de crimes e execuções, na medida em que historicamente as milícias se desenvolvem, enfrentam os traficantes e entram em inúmeras disputas internas pelo poder. A leitura, neste ponto, cansa e se torna nauseante. Contudo é, ainda assim, necessária, porque narra detalhes de uma realidade que não podemos fingir desconhecer. É como se, por meio do relato de tantos horrores, devêssemos purgar nossa própria omissão.


A República das Milícias é um libelo corajoso e autêntico que busca entender o problema, não apenas denunciá-lo. Se você é um brasileiro comprometido com o futuro de seu país, não pode desconhecer a realidade do porão. Você terá a visão panorâmica e entenderá como a máfia brasileira está relacionada a Bolsonaro e à morte de Marielle. Uma visão dolorosa. Mas necessária.


A República das Milícias - dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro - Bruno Paes Manso - Ed. Todavia - 2020 - 302 páginas.


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