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O PROTOCOLO E O CORAÇÃO


Um conto de Manuel Rosa de Almeida sobre crises e decisões...

A enfermeira tocou levemente no seu ombro. Quando se virou, recebeu na cara a má notícia:


-- Há mais uma paciente para a UTI, doutor.


-- Estamos sem vagas.


-- Eu sei doutor, mas a paciente está na maca em frente à porta.


Duas gotas de suor escorriam da têmpora do médico. Pensou rapidamente:


-- Quem encaminhou?


-- Doutor Ramalho.


Ele correu ao telefone e discou o ramal da pneumologia. Com alguma demora uma voz feminina atendeu:


-- Pneumo.


-- Aqui é o Doutor Sanada, UTI. Preciso falar com Dr. Ramalho.


-- Ele não está…


-- É urgente. Vá chamar.


Buscou um timbre próximo à grosseria, porque sabia que seria eficiente. Ainda assim, esperou dois minutos até o Ramalho atender o telefone.


-- Ramalho.


-- Ramalho, é o Sanada. Há uma paciente sua em frente à UTI.


-- Eu sei, fui eu que enviei.


-- Estamos lotados, Ramalho.


-- Bem… não sabia. Achei que ainda houvesse um leito.


-- Então…


-- Então o quê? A ordem permanece a mesma.


-- Será que ela não pode esperar um dia?


-- Se pudesse eu não teria enviado, Sanada. Não sou irresponsável.


-- Bem… mas não há vaga.


-- Aplique o protocolo.


-- Mas o Moreira e o Hilmann não estão aqui.


-- Então a decisão é sua. Você é o terceiro na hierarquia.


-- Mas…


-- Não tem mas, Sanada. Sou pneumologista e digo que a paciente irá a óbito no máximo em oito horas se não entrar num respirador. A gestão da UTI é responsabilidade sua.


E desligou. Assim, sem mais nem menos. Sanada sabia que rotina hospitalar não oferece tempo para meias palavras, mas ainda assim perdeu alguns segundos divagando em torno do tema cortesia. A enfermeira trouxe-o de volta à realidade:


-- Então, doutor?


Ele sabia que Moreira estava viajando, tratando de problemas relacionados a equipamentos para a UTI, alguma confusão qualquer em torno da compra de equipamentos.


-- Ligue pro Doutor Hilmann.


-- Ele saiu do plantão faz só duas horas.

-- Ligue.


Pouco depois estava com Hilmann no telefone.


-- Diga, Sanada.


-- Dr. Hilmann, desculpe se acordei o senhor…


-- Pois acordou mesmo.


-- Desculpe, doutor, mas o problema é sério. A UTI está lotada.


-- Bem, com esta pandemia do jeito que está, ia acontecer cedo ou tarde. Mas… -- tentou concentrar-se, afastar a sonolência. -- Lotada não é problema. Vai tocando…


-- Mas tem uma paciente na fila, doutor. Está na nossa porta.


-- Oh, Deus…


-- O que eu faço, doutor?


-- Aplique o protocolo. Não há outra coisa a fazer.


-- Eu?


-- Claro. Não é você que está respondendo pela UTI agora?


-- Mas…


-- Sanada, calma… calma. Eu sei que você é jovem, mas é um médico competente. Tem que tomar as decisões que a situação exige.


-- O senhor não pode vir?


-- Rapaz… se não dormir, desmaio. Depois, demoraria mais de uma hora para voltar ao hospital. Com alguém na porta da UTI, não me parece que possa perder este tempo. Mas escute… eu me adiantei à situação. Já dei nota para onze leitos dos doze da UTI. Pode usar minha avaliação, o protocolo permite. Então você precisa dar nota pro leito 12 e para quem está na fila. E decidir.


-- Dar nota pro 12 e pra fila -- repetiu Sanada mecanicamente.


-- E decidir.


-- Certo, obrigado Doutor.


“Obrigado, Doutor”, pensou Sanada depois de desligar. Obrigado por quê, afinal? Por lhe dizer que tinha se tornado uma espécie de semideus que iria decidir quem vive e quem morre? Por fazer dele algum imperador romano, prestes a apontar o polegar para baixo e condenar o gladiador à morte? Obrigado… obrigado… vá à merda, Hilmann!


Sanada conhecia o protocolo. Sabia o que tinha que fazer. Embora jovem, 36 anos, era um médico competente e, com dez anos de plantão nas costas, experiente o suficiente. Apenas não queria tomar a decisão. Contudo, havia perdido quase vinte minutos e o tempo era precioso. “Só aplique o protocolo”, disse para si mesmo. Chamou a enfermeira-chefe da UTI e perguntou:


-- Tem as notas que Dr. Hilmann deu, conforme o protocolo?


-- Sim, doutor.


-- E quem tem a pior nota?


-- Vou ver…


Pouco depois a enfermeira retorna:


-- Leito 5, doutor. Está com nota 11.


-- Preciso dar nota ao leito 12 e à fila. Depois devolvemos alguém pra enfermaria.


-- O 12 não precisa, doutor. É um paciente jovem…


-- Não é a idade que decide, você sabe. Preciso confirmar isso, de qualquer modo.


Foi até o leito 12 e não demorou muito tempo para confirmar o que a enfermeira tinha dito. Era um rapaz jovem, 23 anos, alguém fora da curva do coronavírus. A doença às vezes caminhava mal para jovens também, ainda que raramente. Ele claramente não estava bem e precisava desesperadamente do respirador. Sanada olhou brevemente o prontuário e percebeu que sua nota seria muito abaixo dos 11 do leito 5.


-- Este fica. Dou nota pra ele depois. Vamos ver a fila.


Caminhou rapidamente até a maca que estava em frente à porta. Sequer olhou para a paciente, pois queria evitar qualquer impressão subjetiva. Tinha que ser neutro, era o que o protocolo exigia. A neutralidade, a objetividade eram a salvação do médico. Garantiriam seu sono e uma consciência tranquila. Levou o protocolo e alguns exames até seu consultório e começou a analisar os dados. O protocolo dispunha que o médico deveria dar três notas - que podiam ir de 0 a 4 - de acordo com comorbidades, capacidade de reação e funcionamento de órgão vitais. A somatória destas notas diria quem tem preferência, apontando para aquele com maior chance de sobreviver. A nota máxima era 12. Quanto maior a nota, pior para o paciente. O leito 5 tinha nota 11. Era bem ruim, pensou Sanada.


Volveu sua atenção para a paciente da fila, prometendo a si mesmo pura objetividade. A paciente tinha 62 anos, era hipertensa e tinha colesterol alto. Além disso, era safenada. A mulher tinha histórico de fumante e as chapas dos pulmões não eram nada boas. Mau… resmungou Sanada. Analisou exames dos demais órgãos, rins, fígado… Em seguida analisou detidamente seu tratamento desde que dera entrada, quatro dias antes. Como a paciente tinha respondido ao tratamento? Sanada concluiu que a resposta tinha sido muito aquém do desejado. Conferiu nota aos três itens e ao somá-los um calafrio correu por sua espinha: 11!

-- Onze! -- praguejou. -- Que merda!


O protocolo servia para amparar o médico, evitar que tivesse que tomar uma decisão subjetiva. Os números decidiriam por ele, não precisaria virar o polegar para ninguém. Mas ali estava: 11. Números aplicados e havia um empate. Reviu as notas e friamente percebeu que sua avaliação estava correta: Comorbidades 4, capacidade de reação 4, funcionamento dos órgãos 3 - total 11! Empate.


Sabia que o leito 05 -- seu Ricardo - era um idoso de 78 anos, mas também sabia que a idade não devia ser critério de desempate. Angustiado dirigiu-se até a fila, para ver se algo na paciente indicaria para a necessidade de alguma revisão das notas. Somente então, a fila ganhou rosto. Teruo Sanada soltou um suspiro de dor. A mulher que estava na maca, assistida por uma enfermeira e com clara dificuldade para respirar, era muito parecida com sua mãe. Os olhos puxados e o cabelo preto Sanada devia ao pai, que era nissei. Mas a mãe tinha ascendência italiana. E a mulher que estava na maca, sofrendo e buscando ar desesperadamente, fazia lembrar muito sua mãe.


Por alguns instantes alguns flashes do passado visitaram sua mente: aniversários, almoços, carinhos, a mãe em sua cabeceira durante uma febre infantil, colo, canções de ninar, sorrisos…


-- Temos que decidir, doutor! -- cobrou a enfermeira-chefe.


Sanada voltou ao consultório, sentindo o coração acelerado. No final é sempre o coração, pensou. Pegou sua avaliação e mudou a nota relativa à capacidade de reação da paciente da fila: de 4 para 3. A soma agora era 10. Chamou a enfermeira chefe:


-- Retire o leito 05 do respirador e devolva-o para a enfermaria. Avise o Dr. Ramalho desta decisão. Faça a desinfecção urgente do respirador e coloque a fila no leito 05. Rápido!


A enfermeira saiu ágil e profissional a cumprir ordens. Sanada jogou-se exausto na cadeira e murmurou:


-- Perdão, seu Ricardo.


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