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A ALMA DE SÓCRATES

Atualizado: 21 de jul. de 2022

René Frabaco



Uma reflexão sobre o dualismo.

A morte de Sócrates - Imagem de Gordon Johnson por Pixabay



Acreditar na existência da alma é algo que não pega muito bem nos dias atuais, especialmente nos ambientes mais intelectualizados. É provável que aquele que exponha tal crença numa rodinha sofisticada seja acolhido com algum grau de desprezo ou de condescendência, como alguém que ainda não descobriu a iluminação da Física e das Neurociências. E veja que tal iluminação não está tão distante do pobre coitado que crê na alma, bastaria ele ler meia dúzia de best-sellers da literatura de divulgação científica – aqueles recheados de analogias didáticas e experimentos inusitados, ótimos para impressionar nas tais rodinhas – e nosso Cândido já poderia participar da conversa em “alto nível”.

Nos ambientes filosóficos acadêmicos, onde se esperaria maior amplitude do pensamento humano, tampouco se recebe melhor a tese do dualismo, ou a concepção de existirem dois âmbitos da realidade: um material e sensível, outro espiritual e suprassensível. Talvez o último filósofo ocidental de destaque a defender o dualismo tenha sido o francês Henri Bergson (1859-1941), o qual atingiu enorme prestígio em suas últimas décadas de vida para, logo após sua morte, ter sido severamente criticado por seus compatriotas estruturalistas e existencialistas, a ponto de ter se tornado autor marginal, quase desconhecido do público hoje.

Contudo, nem sempre a alma esteve tão em baixa. Entre budistas da Índia e da China, o atman, ou verdadeiro eu, uma essência que está além do mundo dos fenômenos aparentes, é tema de profundas reflexões há milhares de anos. No Antigo Egito, a sobrevivência do ba (personalidade) juntamente com o ka (duplo) era levada tão a sério que se tomavam diversas providências para uma jornada exitosa no além, haja vista o Livro Egípcio dos Mortos e suas detalhadas instruções. E na Grécia Clássica temos as tradições iniciáticas – o orfismo e os Mistérios de Elêusis – bem como a filosofia de Pitágoras, Platão e Plotino abordando a psyché, a alma imortal. Vamos nos concentrar brevemente na visão de Platão sobre o tema, a partir da obra Fédon, ou Sobre a Alma.

A leitura de Fédon nos transporta para a cena dos derradeiros momentos de Sócrates, em 399 a.C., quando o filósofo fez sua última discussão rodeado dos mais próximos discípulos, logo antes de ingerir a cicuta e, como descreveria Homero, ter seus olhos cobertos pelas trevas. Ao menos os olhos do corpo… Nas primeiras páginas do diálogo já somos confrontados com a ideia radical de que o verdadeiro filósofo não teme a morte, mas a deseja. Segundo um antigo princípio pitagórico, um homem não pode tirar sua própria vida, mas caso tenha feito o exercício para a morte que constitui a verdadeira filosofia, nada há a temer, pois aguarda um destino bem melhor em outro mundo. E o que seria tal exercício? Essencialmente, não confundir a própria individualidade com o corpo e, portanto, não amar os prazeres físicos e não votar demasiada importância às coisas materiais.

Ascetismo exagerado? Misticismo ingênuo? Nossos sofisticados coetâneos talvez assim classifiquem tal proposta. Mas não nos esqueçamos de que, ingênuos ou sofisticados, todos passaremos pelo evento descrito eufemisticamente pela medicina como “êxito letal”. Para alguns pode até soar paradoxal a expressão, pois que êxito pode haver na morte? Bem, Sócrates talvez julgasse muito apropriada tal expressão, pois o fim de uma vida bem vivida, segundo o filósofo que nada conhecia a não ser sua própria ignorância, levaria a um tipo de êxito póstumo: encontrar a verdade, estar na companhia de pessoas boas, estar mais próximo dos deuses. As provas da sobrevivência da alma, colocadas por Platão na boca de Sócrates, podem não ser das mais convincentes, como a tese de que cada coisa se origina de seu contrário, resultando que assim como os mortos se originam dos vivos, os vivos também se originariam dos mortos; ou a teoria da reminiscência, segundo a qual temos conhecimentos que não poderíamos ter aprendido no mundo sensível, em consequência pressupondo uma alma pensante anterior ao nascimento; ou, finalmente, a Teoria da Formas (ou Ideias), segundo a qual a alma participa de modo necessário da Forma da vida, não admitindo, portanto, a aproximação da morte.

Ao fim do diálogo, sendo ou não persuasivos os argumentos, chega a hora de ingerir a cicuta e encarar o destino, o que Sócrates faz de modo resoluto, exortando os discípulos a pararem de chorar e se portarem corajosamente, enquanto suas pernas começavam a ficar dormentes sob ação do veneno. Após um último frêmito que abalou seu corpo e extinguiu sua respiração, os discípulos inconsoláveis constataram que não estava mais entre eles o homem que, entre todos os que haviam conhecido, julgavam ser “o melhor e também o mais sábio e o mais justo.” E que fim levou a alma de Sócrates, se é que realmente existe uma alma, após a morte de seu corpo? Por incrível que pareça, uma questão dessas, a princípio só formulada no âmbito religioso, tem sido objeto de estudo de alguns cientistas pouco ortodoxos dos séculos XX e XXI, que não costumam figurar nas rodinhas de gente sofisticada.

O psiquiatra canadense Ian Stevenson (1918 - 2007) inscreveu seu nome na história de tais pesquisas. Em 1961, Stevenson publicou uma pesquisa com o título The Evidence for Survival from Claimed Memories of Former Incarnations, contendo estudo de 44 casos de crianças que relataram memórias sugestivas de vidas passadas, em sua maioria com 2 a 5 anos de idade. Essa pesquisa chamou a atenção do milionário Chester F. Carlson, inventor da máquina Xérox, que passou a financiar novas investigações desse teor, além de deixar uma herança de 2 milhões de dólares para a Universidade da Virgínia criar um departamento dedicado a tais estudos. Dessa maneira surpreendente surgiu a Divisão de Estudos da Personalidade, chefiada por Stevenson por mais de 40 anos, resultando no estudo de mais de 3.000 casos de crianças com memórias sugestivas de vidas passadas, provenientes de diversos países do mundo (incluindo o Brasil!). O livro mais completo de Stevenson é um verdadeiro tratado sobre o tema, com dois tomos de mais de 1.000 páginas cada, contendo uma seleção de 225 casos ricamente ilustrados, sob o título Reincarnation and Biology: A Contribution to the Etiology of Birthmarks and Birth Defects, lançado em 1997.


As pesquisas sobre reencarnação, bem como aquelas sobre a experiência da quase-morte (EQM) seguem firmes, a despeito da pouca atenção que a comunidade acadêmica convencional e o público em geral lhes confere. Eventualmente um cético do porte de Carl Sagan (1934 - 1996) admite que a pesquisa de tais temas mereceria maior atenção da comunidade científica (V. O mundo assombrado pelos demônios). Mas, o fato é que não temos nenhuma notícia da alma de Sócrates. Se ele reencarnou ou não diversas vezes nos últimos 2.400 anos, se pisou nas estepes da Sibéria, no outback australiano, nas montanhas do Líbano ou no sertão do nordeste brasileiro, não sabemos. Contudo, se a volumosa pesquisa de Stevenson apontar para algo verdadeiro, a personalidade prossegue com suas características essenciais ao longo das vidas sucessivas, assim como tais vidas exercem alguma influência sobre o futuro corpo físico no qual a alma vai renascer. Nesse caso, seria uma grata surpresa topar com um homem ou mulher de porte atarracado e aparência física não muito atraente, porém com o hábito incorrigível de instar aqueles ao seu redor a reverem suas crenças até o âmago das ideias, e irem mais além, aceitando que o reconhecimento da ignorância abre as portas para o saber. É provável que essa alma reencarnada de Sócrates fosse um desmancha-rodas de gente sofisticada…

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