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A Revolução Federalista em Joinville.Parte 1.


A narrativa memorialística de Alexandre Döhler, da Revolução Federalista em Joinville.


Arthur Virmond de Lacerda Neto

Federalistas em Joinville. Imagem de Cortina do Passado.

Eis a cronologia da revolução federalista em Joinville:


21 de setembro de 1893: os navios maragatos República e Palas adentram o porto de S. Francisco.


22 de setembro de 1893: chega a Joinville notícia de que os navios revoltosos República e Palas haviam aportado em S. Francisco.


7 de outubro de 1893: desembarcam forças federalistas em Joinville.


12 de outubro de 1893: maragatos adentram Joinville.


16 de outubro de 1893: Frederico Guilherme de Lorena, presidente da república do governo maragato, baixa decreto em que ordena a mobilização da Guarda Nacional de Joinville, São Francisco do Sul e de São Bento do Sul, para a defesa da constituição e das leis da república, com dois batalhões em cada um destes municípios.


1º de novembro de 1893: o coronel Piragibe chega a Joinville com suas forças, originário de S. Francisco do Sul. Inicia-se o patrulhamento de Joinville por integrantes do Corpo de Bombeiros e da Sociedade Atiradores de Joinville.


2 de novembro de 1893: o coronel Piragibe abala de Joinville com suas forças. Chegam a Joinville o vapor Dona Francisca e uma pinaça que transportavam magote de marinheiros do navio República.


23 de novembro de 1893: o coronel José Serafim de Castilhos (Juca Tigre) chega a Joinville com seus homens.


2 de dezembro de 1893: o coronel Aparício Saraiva e sua hoste chegam a Joinville.


3 de dezembro de 1893: o coronel Gumercindo Saraiva e suas forças adentram Joinville.


8 de janeiro de 1894: o coronel Laurentino Pinto Filho e seu contingente chegam a Joinville.


10 de janeiro de 1894: o coronel Laurentino Pinto Filho e seu contingente achavam-se no quilômetro 61 da estrada Dona Francisca.


26 de janeiro de 1894: o coronel Gumercindo Saraiva e seu contingente partem de Joinville rumo de Tijucas. Finda o patrulhamento exercido pelos Bombeiros e pelos Atiradores.


Junho de 1894: o capitão governista Gouveia e seus homens adentram Joinville.


Eis narrativa memorialística de Alexandre Döhler, da Revolução Federalista em Joinville:


Aos 22 de setembro de 1893, os bombeiros e os atiradores de Joinville alarmaram-se: dois navios revoltosos haviam aportado em S. Francisco do Sul e ocupado o telégrafo local. Como em Joinville houvesse estação telegráfica, aventou-se de que os maragatos dela apoderar-se-iam para interromper comunicações com Florianópolis; porque se ignorasse como eles comportar-se-iam na cidade, o presidente da Câmara Municipal, Abdon Baptista, solicitou ao Corpo de Bombeiros afiançasse a segurança de Joinville, o que se lhe prometeu. De pronto, o comandante dos bombeiros, Félix Heinzelmann, dispôs acerca de guardas e de patrulhas que atuassem na cidade; asinha reuniram-se aproximadamente quarenta homens fardados, a postos para atuar; no mesmo dia, ao escurecer, dispuseram-se outros junto do rio Cachoeira (que banha Joinville).


Às onze horas da noite chegaram a Joinville o vaporzinho Dona Francisca e uma pinaça a vapor, do cruzador República, ambos a serviço da revolução, e de que desembarcou guarnição de quatro homens, a cujo oficial comandante Abdon Batista indagou a finalidade de sua presença na cidade, ao mesmo tempo em que lhe exprimiu a disposição dos moradores locais de defenderem suas vidas e haveres, caso se dessem excessos da parte dos revolucionários, ao que o oficial exprimiu seu intuito de granjear a simpatia dos habitantes e de respeitar-lhes umas e outros. A seguir, os aparelhos telegráficos (de Joinville) foram confiscados pelo destacamento.

Após Desterro (capital de Santa Catarina) haver sido ocupada pelos maragatos, o governo revolucionário lá instalado enviou a Joinville cinqüenta elementos da força policial, que tentaram recrutar à força os da cidade e detiveram vinte brasileiros; tal governo aceitou as autoridades constituídas em Joinville.


Bombeiros, Atiradores e Ginásticos, congregados, deliberaram recusar tanto o recrutamento compulsório quanto a participação, na revolução, do povo de Joinville, cuja neutralidade também se adotou, dito o que os maragatos libertaram os vinte prisioneiros; convocados representantes da povoação e os inspetores de quarteirão, combinaram prestar auxílio mútuo.


Em 1º de novembro de 1893, adentrou Joinville o general Piragibe, com duzentos homens; receberam-nos Abdon Baptista, intendente, e demais autoridades locais.


Piragibe exigiu, do comandante dos bombeiros, Félix Heinzelmamm, adesão, à revolução, dos Bombeiros, dos Atiradores e dos Ginásticos; este declarou-lhe nada poder prometer-lhe, fardou-se, deu sinal de alarma, feito o que mandou cercar a praça com guardas, a fim de prevenir algum ataque de surpresa. Bombeiros e Atiradores deliberaram não acompanhar a força maragata; enviaram-se emissários no intuito de alarmar os moradores rurais e prover-se à segurança da cidade.

Abdon Baptista conscientizou Piragibe do risco a que se expunha caso insistisse; Heinzelmann participou a este a resolução dos Bombeiros e dos Atiradores e que, se preciso, estes disporiam de um milhar de homens para oporem-se aos maragatos, ao mesmo tempo em que assegurariam a segurança da cidade, caso Piragibe retirasse sua determinação.


Entrementes, parte dos federalistas difundiu-se pela cidade; cavaleiros, armados de lanças, percorriam as ruas e requisitaram cavalos dos residentes de Joinville.


Piragibe retratou-se, bem como determinou a suas tropas respeitarem vidas e propriedades, sob pena de morte; exigiu a promessa de não ser atacado pelas costas quando se retirasse.

As entradas de Joinville foram ocupadas pelos bombeiros, até às seis horas da matina.


Piragibe instalou seu quartel-general no hotel Ipiranga (de João Antonio Correia Maia, na rua da Água, hoje Abdon Batista), enquanto as tropas acamparam ao lado do moinho de mate de Abdon Batista.

Aprazou-se a partida das tropas, rumo de Curitiba, para as nove da manhã de 2 de novembro: seu primeiro batalhão compunha-se de marinheiros, todos pretos, muito desarranjados, em parte descalços; o segundo batalhão estava mais bem apresentado; a tropa de linha compunha-se de soldados dos 17º e 25º batalhões de linha, trânsfugas, (ex-pica-paus); seguiu-se-lhes magote constituído de brasileiros, polacos, mulatos e alemães capturados; por fim, o batalhão patriótico. Todos traziam em seus capelos largas fitas vermelhas, com a inscrição Tudo pela Liberdade!


Piragibe seguia no coice da fila; em certo instante, ordenou que esta se detivesse e despediu-se do comandante dos bombeiros, a quem declarou:


— Entrego-lhe agora a segurança da cidade.


Assim que as forças de Piragibe retiraram-se, ingressaram na cidade mais de mil colonos das imediações (dirigidos por Eduardo Krisch), armados, para protegerem a cidade, caso necessário; regressaram ao dia seguinte.


Heinzelmann organizou guarda de segurança permanente, constituída de 57 bombeiros, 28 atiradores e 20 voluntários.


Aos 23 de novembro de 1894 chegaram a Joinville cerca de 300 gaúchos comandados pelo coronel José Serafim de Castilhos (vulgo Juca Tigre), vanguarda do contingente de Gumercindo Saraiva. O corpo de segurança de Joinville preparou-se para prover à defensão da cidade: os bombeiros foram repartidos em cinco quartéis e os Atiradores congregaram-se junto de seu presidente, Gustavo Adolfo Richlin.


Durante o desembarque da hoste maragata, por iniciativa de um federalista local, estouraram-se algumas centenas de rojões, ao que Heinzelmann, confiscou-lhe os restantes, o que suscitou alarido de Abdon Baptista, a quem ele explicou que o espoucar dos fogos poderia ser interpretado pelos colonos em jeito de tiros, caso em que Heinzelmann não poderia afiançar a segurança da cidade, consideração que se lhe aceitou e à luz da qual Abdon Baptista encomiou-o.


Em princípios de dezembro chegaram a Joinville Gumercindo Saraiva e seu irmão Aparício Saraiva, com o grosso do exército revolucionário (cerca de 500 guerreiros). Recusaram os mantimentos que lhes ofereceram (feijão preto, carne, farinha e lingüiça) e que haviam sido encomendados a Gustavo Schossland: exigiam apenas carne para churrasco. Seus dois chefes e os oficiais superiores trajavam bombachas, botas com esporas, espadas de arrastar, capelos adornados com a divisa Exército Libertador inscrita em faixa branca ou com a inscrição Tudo pela Pátria em faixa vermelha. Raros envergavam fardas militares; todos andavam munidos de facão, faca, pistola, lança ou espingarda.


Na fase posterior à chegada de Gumercindo comunicações para o exterior e mercatura achavam-se paralisados; quase diariamente chegavam maragatos e difundiam-se boatos.


Quase metade do contingente maragato dividiu-se em dois acampamentos, um deles no quilômetro um da estrada da serra.

Blumenau e Joinville haviam sido prometidas para pilhagem às forças maragatas, mas Gumercindo publicou bando em que proibia atentados à vida e à propriedade; também proibiu o ingresso de soldados maragatos na cidade, sem salvo-conduto. Ao adentrarem-na, eram desarmados e escoltados por um bombeiro.


Certa feita Gumercindo ia espingardear homem seu, que molestara severamente uma mulher, pena que comutou (a pedido das autoridades municipais) em mantê-lo amarrado, ao sol, por um dia.


Heinzelmann elogiou seus camaradas Max Rüge e Augusto Spitzner.


Reforçaram-se as patrulhas e o serviço de guarda (que existiu ininterrompidamente de 1º de novembro de 1893 a 26 de janeiro de 1894) era exercido com rigor, com patrulhamento diurno, noturno, rondas pela cidade.


No dia 25 de dezembro de 1893, muitos soldados, na cidade, admiraram árvores natalinas, que desconheciam.


Aos 26 de janeiro de 1894, Gumercindo partiu com sua gente, rumo do Paraná, com o que findou a participação de Joinville na Revolução Federalista, sem mais incidentes.

Para o transporte de pessoal, munição, material bélico e bagagens, requisitaram-se, dos colonos, todos seus carros e cavalos, compelidos a puxar as cargas serra acima até, alegadamente, o quilômetro 24 da estrada da Serra, a contar de onde a tropa marcharia; todavia, os cavalos dos campônios foram jungidos a puxar toda a carga até o quilômetro 61 (Campo de São Miguel), onde sucederam combates com a Guarda Nacional e onde os maragatos desatrelaram-nos, montaram-nos e abalaram rumo do Paraná. Nesta cavalgada e nos combates, perderam-se todos, porquanto os escassos que regressaram a seus donos a breve trecho pereceram, pelo que nos dois anos subsequentes houve grande escassez de cavalos na zona.

Por outro lado, Joinville serviu como hospital de sangue de enfermos e de feridos originários dos combates em Tijucas do Sul; o prédio da escola pública foi transformada em hospital.


Em junho chegou a Joinville parte do 23º batalhão de linha do exército federal, comandada pelo capitão Gouveia; foi festivamente recebida pelos bombeiros, pelos ginásticos, pelos atiradores e pela povoação.




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