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A Revolução Federalista em Joinville. Parte 2.


Félix Heinzelmann era comandante do Corpo de Bombeiros de Joinville em 1894; remeteu missiva para Marta Jaehhe (sua germana, então em Stralsun, Alemanha), datada de Joinville, 13 de junho de 1894; acha-se traduzida integralmente, em Revolução Federalista 1893-1894 em Joinville, de Raquel S. Thiago. Aqui reproduzo-a quase integralmente.


Arthur Virmond de Lacerda Neto

Federalistas em Joinville. Imagem de Cortina do Passado.

A revolução interrompeu comunicações de Joinville com o exterior por meses; ocupada pelos revolucionários por alguns meses, ela serviu, enquanto isto, de base de suas operações.


Os bombeiros locais, militarmente organizados (que usavam capacete preto, blusa azul e cinto branco largo), constituíam-se de cerca de 60 pessoas; os integrantes da Sociedade Atiradores de Joinville (que usavam capelo e túnica cinzentos) compreendiam cerca de 25 pessoas; ambas agremiações e mais 20 voluntários formaram guarnição defensiva de Joinville, todos sob o comando do chefe dos bombeiros (Félix Heinzelmann). Organizadamente, cumpriram horários de guarda, de 1º de novembro de 1893 a 16 de janeiro de 1894.


Para além de inúmeras formaturas efetuadas quando da chegada dos corpos da tropa federalista a Joinville ou de sua partida, os bombeiros efetuaram patrulhas extraordinárias; a Sociedade Atiradores de Joinville efetuou 198 serviços de guarda e os voluntários, 120. Após 16 de janeiro de 1894 os bombeiros atuaram mais 2 vezes, uma por escassos dias e posteriormente por 14, a fim de obstar a entrada de maragatos na cidade.

Em setembro de 1893, de súbito, interromperam-se as comunicações com a capital federal (cidade do Rio de Janeiro); não se recebiam gazetas de procedência externa.

Circulavam boatos (aliás, veros) de que na cidade do Rio de Janeiro a Armada sublevara-se, sob a chefia do almirante Custódio de Mello, e que o encouraçado República forçara a barra da baía da Guanabara e patrulhava a costa. Não se auguravam transtornos de maior monta, quando aos 22 de setembro chegou a nova de que o dito navio abicara em S. Francisco, e de que sua guarnição ocupara a alfândega, apoderara-se do posto telegráfico e do vapor fluvial ali estante.


Dada a presença de destacamento maragato destinado a recrutar cidadãos para as hostes revolucionárias, instalou-se o pânico em Joinville, de onde diversos jovens fugiram; porém asinha se repôs a calma e decidiu-se aguardar novos sucessos e opor-se a qualquer conscrição. Convocados os bombeiros, várias sentinelas foram postadas ao longo do rio Cachoeira para alertar tão logo apontasse alguma embarcação. Às onze horas da noite soou o alarma e as sentinelas juntaram-se ao grosso dos defensores na praça do porto, aonde massa de gente acorrera. Pouco após, surgiu pequeno vapor com barcaça a reboque: traziam 2 oficiais e 50 marinheiros. Os navios acostaram na praça do porto fluvial de Joinville.


Quando os oficiais viram povo, bombeiros e atiradores alinhados, ordenaram a seus soldados que carregassem suas espingardas Mauser; desembarcaram; recebeu-os o presidente da câmara municipal, Abdon Batista. O chefe do contingente exigiu a incorporação à hoste revolucionária de 500 homens de Joinville, ao que se lhe respondeu:


— Então serão recebidos por 1.000 homens.


À vista de tal resposta, séria e energicamente expendida, limitaram-se a confiscar o aparelho telegráfico e a danificá-lo, que levaram a São Francisco, aonde todo o destacamento regressou; ao dia seguinte, dirigiram-se a Joinville um oficial e 12 praças, a fim de cortar os fios do telégrafo, já para o norte, já para o sul; pediram que o telegrafista Inácio Bastos entregasse-lhes cópias das derradeiras mensagens, ao que ele desatendeu, apesar de cominação de prisão; ocultou-se em sítio seguro.


Abdon Batista, federalista, passou a negociar em surdina com os oficiais maragatos, sem conhecimento disto, da Câmara Municipal (a que presidia), do que resultou que toda a malta revolucionária se instalasse em Joinville.


O República abalou de São Francisco, onde permaneceu o Palas, que depois zarpou rumo de Itajaí.


Aos 14 de outubro de 1893 formou-se governo revolucionário em Desterro, sob a presidência do capitão de mar e guerra Frederico Guilherme de Lorena (comandante do República); enquanto isto, chegou à colônia Dona Francisca tropa de cavalaria governista, originária de Curitiba, por São Bento, o que de todo desagradou a Abdon Batista, que lhe foi ao encontro, quando se encontravam a cerca de três horas de marcha de Joinville: argumentou andar tudo calmo em Joinville e persuadiu-lhe o comandante a regressar, sem se deslocar até o centro dela. Mal a cavalaria afastara-se, apontaram 70 soldados federalistas, do 25º Batalhão de Infantaria, munidos de metralhadora; enviaram vanguarda a São Bento e aquartelaram-se no galpão destinado aos emigrantes, no centro de Joinville; restabeleceram o telégrafo.


O Governo Provisório (revolucionário) decretou mobilização geral, inutilmente, pois não se obtiveram listas de elementos masculinos em idade militar, nem ninguém se quis responsabilizar pela conscrição; arregimentaram-se apenas oito ociosos, sob a denominação de Guarda Cívica. Eis que chega da Estrada do Sul (região limítrofe com Blumenau) a nova de que 300 homens naturais daquela cidade, pica-paus, avançavam para Joinville, o que pôs a guarnição maragata em pânico e em fuga; aqueceram-se as caldeiras dos dois vapores surtos no rio Cachoeira, malgrado carência de maré suficiente para zarparem. Contudo, o anunciado contingente não se apresentou, motivo por que os maragatos quedaram-se em Joinville. A soldadesca passava horas a fio nos botequins, em que bebia quantidades impressionantes de cachaça. Não se deram agressões de gravidade.


Interromperam-se as comunicações com o exterior de Joinville, porque todos os vapores de transporte postal achavam-se ocupados pelos federalistas e haviam sido convertidos em belonaves; era inútil redigir missivas, por impossibilidade de remetê-las; ademais, eles abriam toda a correspondência e a expressão de opiniões, ainda que inocentes, implicava a destruição da carta e até a detenção de seu autor. Enquanto isto, quase dobraram os preços de artigos de primeira necessidade e dos transportes.


Em 1º de novembro, chegou o coronel Piragibe, pouco após o meio-dia, acolitado de outro coronel que escapara do Rio de Janeiro e de outros oficiais do exército, trânsfugas; trazia 230 soldados e 4 canhões; juntamente veio um coronel de engenharia, anteriormente exilado no Amazonas e diversos senhores de Desterro; todos portavam faixas brancas em seus capelos, com a divisa “Tudo pela Liberdade”.


A tropa constituía-se de soldados dos 7º e 26º batalhões, de soldados da polícia e de 40 marinheiros do vapor Palas, encalhado em Itajaí, todos bem apetrechados com espingardas Mauser e Manlicher. Foram solenemente recebidos no porto, onde formou a guarnição precedentemente chegada, com presença de populares: a discurso de Abdon Batista, Piragibe respondeu que viera “para a proteção de Joinville”; alguns escassos correligionários dos maragatos a berros vivaram a revolução, o coronel e o exército libertador, enquanto o povo quedava-se silente.


Piragibe ordenou ao comandante dos bombeiros que estes e os atiradores se lhe incorporassem à tropa; em caso de recusa, ele de pronto imporia recrutamento compulsório; ao comandante dos bombeiros ofereceu patente de major caso aderisse voluntariamente; este retrucou-lhe que teria de consultar os bombeiros e que a decisão ser-lhe-ia comunicada em uma hora.


Escasseavam armas para qualquer resistência séria dos de Joinville, apesar do que, reunidas 30 pessoas (no pátio da igreja luterana) unânime e terminantemente enjeitou-se a incorporação aos maragatos, o que o comandante dos Bombeiros Voluntários (Heinz Heinzelmann) e o presidente da Sociedade Atiradores de Joinville (Gustavo Adolfo Richlin) participaram a Piragibe, que proferiu diversas ameaças e despachou diversos lanceiros montados para arrecadar cavalos.

Contudo chegaram notícias de adesões de colonos à defesa de Joinville, já prontos para ação imediata, de todas as estradas e todos armados, em marcha para a cidade. Piragibe desistiu do recrutamento à força e confiou a segurança de Joinville aos bombeiros e aos atiradores, com a promessa de que pudessem dissuadir os colonos de se dirigirem à cidade. Seu número excedeu 1.500, de que a maioria adentrou a cidade inerme, no dia seguinte; no centro a população citadina recebeu-os com comes e bebes.


Piragibe abalou da cidade com seus cerca de 300 homens, pela estrada da serra, rumo do Paraná; acolitou-o a Guarda Cívica, reduzida a cinco membros. A caminho requisitou dos colonos carros e cavalos ou deles se apoderou sem mais satisfações a seus donos.


De começo, os chefes revolucionários pagavam aos proprietários dos bens confiscados com bônus do Tesouro Nacional, pagáveis após a vitória da revolução; posteriormente, sequer lhes entregavam bônus: apropriavam-se do de que necessitavam, sem mais.


Porque São Bento estivesse ocupada por tropas governistas comandadas pelo general Argollo, que dominava também a zona de Tijucas, Piragibe entrincheirou-se na serra, cerca de 50 quilômetros de Joinville; quando aquele retrocedeu para Rio Negro, ele ocupou São Bento do Sul.


Durante a entrada dos maragatos em São Bento do Sul, deu-se conflito de magote de colonos com um colono neutro, que foi assassinado; na altura, os principais governistas debandaram com suas famílias. Da residência de um deles, o dr. Felipe Wolff, Piragibe saqueou o quanto havia de valioso, bem como medicamentos da farmácia; depredaram mobília e prelo de pequena tipografia. Com um relógio de mesa furtado na casa do posto da estrada da serra, Piragibe pagou despesas de restaurante; uma conta de sapataria imputou a um comerciante de Joinville para que ele a quitasse.


De São Bento, Piragibe, com sua força aumentada de 150 homens da Guarda Nacional, formada localmente pelo presidente federalista da câmara e composta de nativos e de polacos, dirigiu-se a Rio Negro, onde foi recebido a projéteis de canhão; contudo as tropas governistas debandaram e ele ocupou Rio Negro, de onde tomou rumo da Lapa.


O intervalo de 4 a 23 de novembro transcorreu com inquietações relativamente ao futuro. No dia 23 apareceram as primeiras tropas federalistas irregulares: cerca de três centenas de homens comandados por José Serafim de Castilhos (vulgo Juca Tigre), que haviam sido transportados em botes até Joinville e dos quais 40 pouco mais ou menos não podiam desembarcar: achavam-se em nudez total e desprovidos de indumentos; os mais usavam pedaço de pano que lhes envolvia o tronco. Vinham armados de lanças, fisgas de três pontas, facas, facões, espadas, raríssimas espingardas; a maioria falava espanhol; intitulavam-se “salvadores da pátria” e em seus capelos liam-se divisas: Pela Liberdade, Pela Liberdade e por Deus.


O aspecto de tal turba intimidava: causou impressão até ao federalista Abdon Batista, que propôs à câmara fosse ela transportada para o Paraná o quanto antes, efeito para o qual se organizou serviço de transporte regular por meio de carroças de colonos, de que cada um deveria prestar transporte quando lhe chegasse a vez.


Acamparam para pernoite no terreiro do porto do rio Cachoeira, em Joinville, onde acenderam várias fogueiras para assar a carne de gado que se lhes forneceu e que comeram sem tempero nem sal, semi-crua.

Ao dia seguinte cerca de 40 carroças estavam prestes e foram conduzidas até o quilômetro 51 da estrada para Curitiba, onde Piragibe se entrincheirara. A caminho, um dos guerrilheiros apeou e deteve-se em uma venda para tomar cachaça; irritado, um capitão espadeirou-o e deixou-o moribundo.


Seguiram-se alguns dias de tensão, por haver sido anunciada a chegada de todo o exército maragato, sob a chefia de Gumercindo Saraiva. De facto, aos 2 de dezembro surgiram 600 homens, comandados por Aparício Saraiva e que se acamparam no quilômetro 1 da Estrada da Serra; no dia 3 de dezembro chegaram mais oito centenas (que acamparam no quilômetro 6 daquela estrada) e, de noite, chegaram o próprio Gumercindo com o general Paulino Chagas e alguns sub-chefes. Gumercindo foi recebido no porto fluvial de Joinville pelos próceres federalistas, dentre eles Abdon Batista, que deixara Joinville de todo em poder dos federalistas, graças ao que almejava cargos no futuro governo, para o que contava com amigos seus, patrícios, com alguns alemães, notadamente os redatores e colaboradores do der Volksstaat, que propagava denúncias soezes e intimidações a governistas, e enunciava todos os encômios à revolução; publicava telegramas em geral fraudulentos sobre alegadas vitórias revolucionárias. A folha Kolonie Zeitung achava-se emudecida.

Os 800 homens desfilaram na cidade ao som de banda de música e estacionaram em terceiro acampamento (no quilômetros 3 da Estrada da Serra) e nas imediações do porto; apresentavam aspecto igual ao da tropa de Juca Tigre, porém com alguns elementos melhores; era gente que tudo perdera e que fora jungida a acompanhar os revolucionários. Seu armamento era relativamente bom, alguns com armas recentes; todas as vestimentas eram desiguais entre si.


Nos acampamentos havia mulheres e crianças desleixadas e sujas; assava-se carne de gado vacum em fogueiras, o chimarrão circulava incessantemente; os soldados jogavam jogos de azar dos quais o preferido disputava-se com vértebra de pescoço de boi, por pelo menos dez mil réis.


Gumercindo e os sub-chefes aplicavam disciplina severa e sangrenta, imposta também aos oficiais menos graduados: os infratores e os malfeitores eram amarrados em cruzes ou em duas vigas e ali deixados ao sol por horas a fio ou o dia inteiro; em casos mais graves (como revolta), degolavam-nos cruelmente, para escarmento dos mais. Houve diversos degolamentos.


A população abstinha-se de qualquer manifestação de antipatia para com os maragatos, a fim de premunirem represálias, como conscrição forçada e saques. Por sua vez, eles queixavam-se de que em Joinville não podiam saquear nem roubar: fora-lhes ela prometida para pilhagem, o que agora se lhes negava. O policiamento a cargo dos bombeiros e dos atiradores foi exercido com toda a severidade; somente inermes aos soldados consentia-se em que transitassem pela cidade; proibiu-se vender-se-lhes cachaça e era de mister as tascas encerrarem às 8 horas da noute.


Aos 8 de dezembro remeteram-se 300 soldados, sob o comando de Aparício, para a Estrada do Sul, até a divisa da região de Blumenau, a fim de conterem-se tropas governistas; lá os maragatos perpetraram crimes horrendos.


Na quadra natalina remanesciam cerca de duas centenas de soldados nos acampamentos em Joinville, o que lhe propiciou relativo sossego aos moradores; celebrou-se culto de Natal na igreja protestante, graças ao policiamento exercido por patrulhas reforçadas dos bombeiros e a que o comandante do acampamento, major Ribas, designara um guarda para prevenir eventuais perturbações. Muitos soldados espantaram-se com os pinheirinhos enfeitados e com velas acesas, costume que desconheciam.


Ocorreu, porém, incidente em 27 de dezembro: alguns soldados que se opuseram ao fechamento de um boteco dispararam contra a patrulha dos bombeiros, contudo a pronta intervenção do major Ribas evitou novos incidentes; o autor dos tiros, um capitão, foi amarrado e deixado sob o sol, no dia seguinte, por doze horas.


Poucos dias volvidos, outra patrulha foi alvejada, na rua Cachoeira; seus componentes salvaram-se por haverem todos se atirado em valeta profunda ali existente.

Em 30 de dezembro apresentou-se o dr. João de Meneses Dória, senador pelo Paraná, que discursou, empolgadamente, para o povo, a quem anunciou, otimistamente, que em dois dias estariam em Curitiba; em São Paulo em oito e no Rio de Janeiro em quatorze. Porque houvesse foguetório, apareceu o comandante dos bombeiros com seis de seus elementos e proibiu os foguetes, pois poderiam ser interpretados como pedido de socorro da cidade aos colonos, o que motivou grande revolta e inconformismo entre a oficialidade e no próprio Piragibe, que vociferou e imprecou; no entanto cessou o foguetório.


Em princípios de janeiro, o Volksstaat prosseguiu a veicular falsidades sobre supostas vitórias federalistas e acerca do pretendido desmantelamento das tropas governistas. Nos dias 5 a 7 de janeiro, as tropas de Gumercindo foram evacuadas, sob o comando do general Laurentino Pinto Filho, rumo de Curitiba, com o que lhes findou a presença em Joinville.

As carroças que transportaram as tropas deveriam levá-las até o quilômetro 61 da estrada para Curitiba, onde seriam substituídas por outras, de São Bento, para que as de Joinville regressassem imediatamente, o que se não confirmou: colonos, carros e cavalos ficaram retidos por mais de duas semanas; cerca de uma centena dos melhores animais foram-lhes furtados, dos quais aproximadamente 40 restituíram-se a seus proprietários, alguns em estado deplorável; a maioria foi vendida pelos soldados.


Após a rendição de Tijucas passaram por Joinville cerca de 60 carros de colonos, com 129 feridos e doentes, de lá originários, assistidos por um médico e um enfermeiro. A seguir a isto, não se viram mais maragatos em Joinville, salvo mensageiros e ordenanças.




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