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BOATE AZUL REVISITADA


O amor e o desconsolo nunca saem de moda.


Imagem de Facebook.


Um amigo me manda um vídeo por WhatsApp feito em um funeral. Um bando canta Boate Azul, entusiasmado, na última despedida ao defunto. A maioria homens, sorridentes, e à vontade, alguns dançando. Dou risada, me dando conta que naquela irmandade não se vê a viúva. Alguém comenta que a viúva há muitos anos se divorciou, desgostosa da vida boêmia do marido.


Uma pesquisa rápida entre conhecidas e amigas me mostra o óbvio: a maioria delas conhece a canção de ouvir falar, e nenhuma sabe a letra. A canção está no imaginário masculino, majoritariamente. Afinal, é uma canção feita sobre frequentadores de prostíbulos e para frequentadores de prostíbulos, em um tempo em que o sexo pago era relegado a guetos afastados da cidade, onde o pudor oficial não seria perturbado. Hoje, prostitutas passaram a ser chamadas de trabalhadoras do sexo, e vendem seus serviços pela internet, a Boate Azul exala um doce anacronismo. Saudade menos da zona, que a maioria das pessoas não frequentou, do que de um tempo onde a vida era mais simples.


Lupicínio Rodrigues é um dos que retratou a mentalidade da época. Algumas de suas canções sobre o mundo de cabarés tornaram-se clássicas. Em “Quem há de dizer”, Lupicínio, com a fleuma dos que sabem como é a vida, constata:



Ela nasceu com o destino da Lua/Pra todos que andam na rua/Não vai viver só para mim



Prostituta é prostituta, não é para casar.


A vida era mais simples, não quer dizer que era melhor.


Quem retratou o tema com sucesso foi Waldick Soriano. Ele diz, sobre a Dama de Vermelho:



Garçom amigo/Apague a luz da minha mesa/Eu não quero que ela note/Em mim tanta tristeza/Traga mais uma garrafa/Hoje eu vou me embriagar/Quero dormir para não ver/Outro homem em meu lugar



A dupla Leonardo e Eduardo Costa, no show Cabaré, em vez de outro homem, canta “Oito homens em meu lugar”. São homens vividos (corações empedernidos?) e fazem troça do mal de amor. A vida continua, afinal.


Outro que gravou um disco com canções de cabaré foi Reginaldo Rossi (óbvio). Em seu cabaré, além de Boate Azul, que abre o espetáculo, estão a Dama de Vermelho e Na Hora do Adeus, este, outro clássico do gênero.


No Brasil do preconceito social e cultural, Rossi e Soriano foram relegados ao gueto dos cantores denominados “bregas”. Vendiam milhões de discos, faziam um sucesso extraordinário, mas não entravam nas casas e ouvidos dos bem pensantes. Capa da revista Veja ou dos Cadernos de Cultura da Folha e do Estadão, nem pensar. Cantar canções que atingiam o coração dos ouvintes, em linguagem acessível e sobre temas que os ouvintes gostavam, era um pecado contra o bom gosto. A dor de amor é brega. Ficar bêbado de paixão é ridículo.


Um roqueiro que aderiu à grande corrente popular e nunca se arrependeu foi Odair José. Pudera, vendeu milhões de discos com canções que apelavam à vida das pessoas, como Pare de tomar a pílula, e Vou tirar você deste lugar. Nesta, mostrando como o Brasil estava mudando, desde os anos de boemia de Lupicínio Rodrigues, Odair José dizia:



Eu vou tirar você deste lugar/Eu vou levar você comigo/E não me interessa/O que os outros vão pensar



A canção de Lupicínio foi gravada em 1948. Vinte e quatro anos depois, um novo mundo surgia, na voz de um ex-roqueiro transformado em lenda do show business. O bom gosto das elites, que desprezava o cantar grosseiro do povo, começava a enfrentar um dilúvio. A MPB dos bem pensantes se transformaria em folclore. Seus deuses envelheceriam e seriam esquecidos pelas novas gerações.




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