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CURITIBANICES: CARRINHO DE ROLEMÃ

Uma das curitibanices que atingiu poucos, mas é sempre relembrada.

Imagem dechitsu sanporPixabay

Se você tem mais de cinquenta anos, talvez tenha lembranças da infância como as minhas. Futebol de campinho, bicicleta pelo bairro, roubar ameixas do vizinho, fugir da gangue rival. E talvez você tenha experimentado muitas emoções pilotando um carrinho de rolemã - uma curitibanice que avançou pela minha adolescência.


Lembro perfeitamente do processo de montagem dos bólidos. Primeiro a romaria mendigando rolamentos usados em oficinas - imagina se tínhamos grana para comprar rolamentos novos! Demorava um pouquinho, mas sempre acabávamos conseguindo alguns pares. Em seguida, a garagem se transformava em box da fórmula 1: serrar a tábua para deixá-la aerodinâmica, confortável e bonita, lixar e pintar. Quase sempre usávamos latas velhas de tinta, sobras de alguma pintura na casa. Mas em dias iluminados, um vizinho mais rico trazia um ou dois tubos de spray ( prateado, dourado, preto ) e aquilo virava uma festa.

Depois havia o processo de tornear os eixos. Tornear, modo de dizer, pois a coisa era feita a canivete, moldando a madeira para o encaixe dos rolamentos e finalizando com pregos entortados para que a roda não caísse. Freios eram opcionais. Alguns fixavam solas velhas de tênis nos eixos dianteiros. Outros, mais elaborados, tinham alavancas que travavam os rolamentos traseiros. A maioria descia sem freio, confiando mesmo na sola do seu kichute.


Muitas vezes descíamos as ladeiras do Capanema, perto da garagem da Garcia ou nas ruas que brotavam da margem direita da Avenida Lothário Meissner. Era um processo complicado, porque o asfalto abrasivo não favorecia a velocidade. Além disso, aquilo provocava um barulhão infernal e a vizinhança praguejava protestos:


-- Fora daqui, gurizada!


-- Tem bebê dormindo aqui!


O grande evento estava reservado para os sábados: descer na pista do Parque São Lourenço. Ali a boa inclinação e o asfalto liso permitiam máxima velocidade. Acidentes na ferradura eram inevitáveis. Cada moleque se sentia Emerson Fittipaldi ou Carlos Reutemann. Mais tarde, os moleques se imaginavam Ayrton Senna, Alain Prost ou Nigel Mansell. Bem... não havia muitos que queriam ser Mansell, na verdade…


Já na adolescência, organizávamos campeonatos. Dominávamos o alto do morro ao nascer do dia, para evitar concorrência na pista com skates e pilotos estranhos. E disputávamos campeonatos com até oito carrinhos. Dedos torados, joelho sangrando, calças rasgadas, escoriações, tudo estava na conta. Afinal, vencer aquela ferradura do São Lourenço sem frear, com diversos carrinhos ao redor, era manobra para poucos…


Hoje a gurizada disputa corridas em jogos de computador. O futebol de campinho virou Winnig Eleven. Se ainda há ameixeiras no vizinho, não há mais moleques dispostos a se arriscar para um bom furto. São os tempos… Mas a Curitibanice ainda permanece. Quando caminho no São Lourenço a pista permanece lá, embora com menos carrinhos e ocasionais skates. Ali, parado silencioso em meio à ferradura, ainda evoco o estrondoso barulho de oito carrinhos descendo velozes pela pista, em meio à algazarra da piazada…


A pista do São Lourenço permanece lá, recebendo todos que queiram experimentar a emoção do rolemã sem pagar nada. Consta que foi recentemente reformada, mas não conferi. Há também uma pista no Guabirotuba, muito boa, mas mais estreita e com asfalto algo abrasivo. Faz tempo que não confiro o estado de sua conservação. Para aqueles que queiram experimentar, recomendo capacete e luvas… embora não usássemos nada disso.



dialeticos.com está aberto a registrar as curitibanices de cada um. Sinta-se à vontade para escrever à redação e partilhar concosco seu modo de ver esta cidade.


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