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DIREÇÃO DE CINEMA

Como detalhes podem estragar tudo.

Imagem de Jan Alexander por Pixabay


Cinema muito me agrada. Porém, sou pouco tolerante quanto a alguns truques de direção que, em minha opinião, empobrecem demais a obra. Quando isso acontece, perco instantaneamente aquela magia da sétima arte. Sinto-me cético e chato à medida que essas situações me tiram do mundo encantado da ficção e me puxam de volta à realidade. A fluência é quebrada com uma percepção de clara “interferência externa”. Isso me lembra que há um diretor tomando decisões, e atores interpretando papéis. Pessoas simplesmente trabalhando, cumprindo sua rotina, fantasiadas e maquiadas. Toma-me um desgosto momentâneo, como quem esquece de adoçar um café ou uma limonada e dá um vigoroso gole. A retomada da ilusão se dá pouco tempo depois, ou jamais acontece, a depender da obra e do momento psicossomático em que me encontro naquele dia.


Um personagem que está secretamente usando um colete à prova de balas não precisa olhar (mostrando pra câmera) os projéteis encravados, ele sabe que está usando o colete e sabe, principalmente, que não morreu. Essa necessidade de mostrar ao público o que aconteceu deixa a cena tosca, e o diretor, indiretamente, chama a plateia de imbecil. Quase todos os personagens que possuem telecinese ficam fazendo gestos com os dedos ou com as mãos para o público “entender” a relação entre os efeitos e sua origem, como se o efeito desejado dependesse da mímica. Um personagem em videoconferência que fica olhando pros lados ou pra cima, como se fosse enxergar algo além do limite de sua própria tela. Todo imigrante precisa falar pelo menos uma palavra, termo, ou jargão em sua língua natal durante uma conversa apenas para “lembrar” o público que ele tem outra nacionalidade, independentemente do tempo de permanência no novo país. Interpretações exageradas, para passar um ar de poder ou superioridade de alguns personagens, fugindo totalmente de contexto, é um recurso teatral, onde se torna necessário pela distância do espectador com relação ao palco. No cinema, isso é completamente desnecessário, tirando a sensação de veracidade dentro do contexto apresentado. Não é um toque dramático à cena, é teatralidade exagerada.


Esse último truque, em particular, é explorado em demasia nos filmes de super-heróis. Nunca fui fã desses filmes, sejam da Marvel, da DC, ou de quem for, e nunca compreendi muito bem o porquê disso. Acredito que, entre outros fatores, como não ter tido muito contato com heróis na infância, esses exageros e truques de direção sejam o motivo. Já me acusaram de não saber aceitar a fantasia como contexto, e não é verdade. Gosto de muitos filmes baseados em mundos fictícios, mas dentro deles deve haver coerência. Há uma cena, em “O Senhor dos Anéis”, em que o personagem Legolas, no meio da guerra, desce uma escadaria usando um escudo como skate enquanto atira várias flechas fatais. Eu aceito que o personagem é um elfo superpoderoso e de pontaria quase perfeita, mas essa cena é “hollywoodiana” demais, claramente fora de contexto. Parece que o diretor deixou, por alguns instantes, seu “adolescente interior” assumir o controle da obra, para depois voltar a dirigir com seriedade. E também não é uma questão de não apreciar certos toques de humor dentro de uma peça séria. Na mesma trilogia, há uma cena em que um ent corre para apagar o fogo em sua copa nas águas da barragem que acabara de desabar. Lembro-me que essa cena tirou risos da plateia no cinema, incluindo o meu.

Enfim, nem sei ao certo quantas pessoas concordam comigo, parcial ou integralmente, mas acredito que a experiência do cinema seria muito mais prazerosa sem essas bobagens de direção. Afinal, você quer mergulhar na história e em seu universo, e não ficar constantemente sendo lembrado que aquilo não é real, que é “só de mentirinha”.

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