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LAVANDO LOUÇA

O cronista lava louça e pensa no pobre destino humano

Imagem de wikipedia


Uma das coisas que tenho em comum com Bill Gates (além de ser branco, loiro e ter olhos azuis), é a lavagem de louça doméstica. Como sabem todos os meus 7 leitores, Bill costuma lavar a louça de casa, e enquanto isso bola projetos como aquele em que batuco estas bem traçadas linhas, o Windows (não fosse por ele, meus traços seriam trêmulos e inseguros). Eu, como Bill, também desenho ideias geniais enquanto lavo a louça. Para garantir que a genialidade não se perca por falta de oportunidades, lavo-a de manhã, à tarde e à noite. Infelizmente até agora não consegui nada comparável à Microsoft, mas vai que dá?


Outra mania que tenho em comum com Bill: ambos somos leitores vorazes, desde a infância. Mas estou certo que ele leu livros melhores do que os meus. Eu passei a infância e parte da adolescência lendo a Coleção Terramarear, Conan Doyle, Júlio Verne, e besteirol assemelhado. Com certeza, Bill leu melhor e mais proveitosamente do que eu. A prova: ele é um dos homens mais ricos do mundo, e eu a cada dia tenho que roer o pão seco que Deus me dá.

Uma época, passei meses entretido nos livros de Charles Dickens, com direito a um susto a cada final de capítulo. Mas não vem daí a minha paixão por novelas rocambolescas (e séries coreanas). Esta tem origem nos antigos filmes seriados (ainda não sabia ler) e em seguida, alfabetizado, nas fabulosas aventuras sem fim das mil e uma noites, nas versões infantis. A paixão brasileira por novelas intermináveis antes e depois do Jornal Nacional, como se vê, está no DNA da humanidade.


Adulto, descobri que Mil e Uma Noites é coisa séria, muito séria. Para a criança que fui, era um alimento para a imaginação com seu universo de tapetes voadores, lâmpadas mágicas, gênios superpoderosos, cavernas lotadas de tesouros ou palácios que surgiam da noite para o dia. Adulto, li as versões de Rafael Cansinos Asséns – um tesouro que encontrei, com o coração quase parando, no antigo sebo da Emiliano Perneta – e de Richard Burton. Rafael Cansinos Asséns, a propósito, mestre de Jorge Luis Borges, assina, segundo ele, a melhor de todas as versões. Uma deferência diplomática ao antigo mestre? Em todo caso, uma versão deslumbrante. Surpreendente, também, é a versão picaresca (pornográfica?) de Burton. Divertidíssima, se você pensar na puritana e ascética imagem muçulmana que abriga o Ocidente.


Borges, em uma conferência sobre as mil e uma noites, conta que uma origem possível do livro foram os confabulatores nocturni, homens da noite que ganhavam a vida contando histórias. Alexandre da Macedônia os ouvia em suas noites de insônia. No Cairo do século XIX eram comuns os contadores de histórias, narrando também histórias das mil e uma noites. Mas esta é uma longa tradição. Eu, pouco literário, prefiro imaginar feiras populares por todo o Oriente, onde contadores de histórias entreteriam o populacho. Se boa a história, a multidão interromperia o passeio ou a compra e recompensaria o narrador; naquele dia o pão estaria garantido. Caso contrário, a fome era certa. O destino anunciado de Scherazade é – sempre foi - o destino de todo artista. Ou agrada a plateia ou morre.


Assim como os antigos contadores de histórias na feira, que modulariam as narrativas conforme a plateia, assim procederam os tradutores das mil e uma noites; há versões para todos os gostos, e gostar de uma não significa desgostar de outra.


O sábio Borges contava que em casa ele tinha os dezessete volumes da versão de Burton. Ele não os tinha lido todos, mas sabia que eles estavam à sua espera. Ele poderia ser infeliz, mas os livros estariam lá, em uma espécie de eternidade, e neles ele poderia esquecer nosso pobre destino humano. Trata-se de outra versão do labirinto humano, no qual nos perdemos e nos encontramos, no qual sequer podemos esperar o consolo da besta fera.

Na Amazon Books você encontra ambas as versões das Mil e Uma Noites, a de Burton e de Cansinos Asséns. A versão Kindle de Burton (há mais de uma) é muito barata (em torno de um dólar). Compre a que tenha um índice digital, caso contrário você se perderá no labirinto. Há disponível também em papel, naturalmente mais cara. Vale a pena. A versão de Cansinos Asséns está disponível em papel, vários preços. A erudita conferência de Borges sobre o tema encontra-se no livro 7 Noites. Suponho que você a encontre na Estante Digital.


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