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MARIA LATA D’ÁGUA SOBE O MORRO

Maria Lata d’Água continua levando água aos sedentos


Foto de Hatsuo Fukuda


Recebo em um dos meus grupos de WhatsApp um vídeo em que Renata Sorrah, numa novela, enaltece Curitiba, dizendo que aqui só tem gente loura e não há mendigos e ladrões. Em seguida, aparece um vídeo feito na Praça José Borges de Macedo, ao lado das bancas de flores, em que um sanfoneiro toca e canta, enquanto vários sem-teto e transeuntes dançam animados. Um aleijado dança, agitando suas muletas. Mendigos? Alguns, mas nem todos. Várias pessoas gravaram a cena. Deu na Tribuna. Infelizmente não sei quem foram os artistas, cantor e sanfoneiro. Mereciam um Emmy de animadores de festa.


No local que o sanfoneiro alegrou, encontro Maria Lata d’Água em sua labuta. Em frente, vendedores de flores ainda continuam no seu ofício. Quer coisa mais inútil que expor a beleza para os apressados transeuntes? Mas eles persistem, graças a Deus. Ou à Deusa Artemis, sempre misericordiosa para a natureza. Cobiço um maço de flores do campo. Ao lado, um buquê de rosas tão belas que parecem artificiais. Devo comprar e enviar para uma das belas que já me esqueceram? Dividido entre as flores, deixo passar. Melhor a lembrança.

Cercada por um lago mesquinho, Maria carrega seu fardo, de costas para o símbolo e centro de poder antigo, pomposamente chamado Paço da Liberdade. Nenhuma placa a identifica, nem ao escultor. Seu anonimato diz tudo. Deveria ser chamado de Paço da Escravidão, digo mentalmente para minha amiga silenciosa, em um rompante de mau humor. Más lembranças de uma história ruim.


Minha atenção é desviada pelos recicladores que empilham fardos em uma kombi velha. Ainda há os que preservam a natureza sem outro petisco que não a comida diária. Aqui não há o glamour de influencers defensores da natureza; apenas o velho e antigo hábito de fazer um trabalho bem-feito. Silenciosamente, sem tik toks, sem instagrams, sem likes, sem patrocínios de grandes empresas. Maria Lata d’Água também não tinha patrocínio, ao contrário da Fearless Girl. Ela se limitava a matar a nossa sede. Hoje, seus descendentes limpam nossas cidades.



A escultura Água pro Morro, nome oficial da Maria Lata d’Água, de Erbo Stenzel, teve como modelo e inspiradora Anita Cardoso Neves, também escultora, e foi feita ao tempo em que ele frequentava a Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, nos anos 40. Melhor vê-la na Praça José Borges de Macedo, junto às flores e ao povo de rua a qual pertence. O autor, ao que dizem, era apaixonado por ela, retratando-a não como uma escrava, mas uma força da natureza. Isto é evidente na postura ativa em que ela foi retratada, com os pés nus enfiados na lama, o olhar firme e altivo. Sua saia é curta, um pouco acima do joelho, mas do lado esquerdo ela a levanta, talvez para evitar respingos da lama. Pernas musculosas, de quem sobe o morro todos os dias. Fearless Girl, em sua postura desafiadora, foi colocada inicialmente em frente ao touro de Wall Street, em Nova Iorque. Agora está em frente à Bolsa de Valores, uma lembrança aos donos do poder da existência de pobres, negros e latinos na sociedade. Com toda a sua beleza e simbolismo, foi uma jogada de marketing patrocinada por uma grande empresa. Stenzel é também o co-autor (junto com Humberto Cozzo) da estátua do homem nu e do painel de granito, na Praça 19 de Dezembro. Vale uma caminhada, de praça a praça.

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