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MEU AMIGO SOCÓ

Domingo no Passeio Público

Imagem por Hatsuo Fukuda


Caminho em direção ao Passeio, a pretexto de arrumar um lugar para fumar. É um belo final de tarde de domingo, depois de um dia quente de julho. Estou vestido quase como se fosse um dia normal de trabalho, com uma camisa branca, uma calça de lã cinza clara, um paletó xadrez cinza. Faltava a gravata para estar a caráter. Porque não saí com minha camiseta regata do Metallica, bermuda e chinelão? Sei lá. Não gosto de humilhar os fraquinhos com meus músculos de aço.


A prefeitura, depois da longa pandemia, abriu também os portões da Presidente Carlos Cavalcanti e da Praça 19 de Dezembro, facilitando a vida dos usuários. Depois da reforma que derrubou o Lá no Pasquale, há uma ampla visão do parque. Pode-se ver da Carlos Cavalcanti quase toda a extensão do parque até o novo coreto eletrônico, que substituiu o antigo serpentário.


Uma multidão de crianças, jovens e adultos passeia por lá. Os habituais atletas se esfalfam na pista. Uma mãe empurra sem pressa um carrinho de bebê. Com um certo espanto, percebo que há muitos adolescentes em grupos. Pensei que eles só se divertissem virtualmente, com games e celulares. Os velhinhos jogam baralho em vez de xadrez; quando Curitiba se mudar para Moscou, talvez mudem. Onde estão os caçadores de Pokemon? Não trabalham aos domingos. Passo pelo novo deque, que dá vista para a llha da Ilusão e vejo um grupo sentado na grama fazendo um piquenique. Iludidos, mas sorridentes, esquecido o poeta Pernetta. Crianças lotam o parquinho. Seus gritos competem com as araras em frente.


Ali, junto ao carrinho de pipoca, aparentando indiferença, eu o vejo, aguardando como quem não quer nada, o socó. A pipoqueira já me reclamou que não tem como alimentar o vício infame do animal, mas ele insiste, como um craqueiro sem dinheiro, e, de vez em quando, sua paciência é recompensada com uma fatia de bacon. Piedosa, a pipoqueira.


Fico animado, mas ele é soturno e pouco amigável, e não responde às minhas toscas manifestações de gentileza. Ou talvez estivesse repugnado pela visão de um homem de veste quase formal, destoando da tarde de domingo? Da próxima vez irei de camiseta regata e bermudas, pronto para rolar na areia, espontaneamente, como devem ser os amantes. Afasta-se, como sempre, silencioso e indiferente. Distraído, converso com a pipoqueira, e, num segundo, ele desaparece. Procuro, e o vejo empoleirado na gaiola da seriema. Um garotinho o assustou, com suas tentativas de aproximação. Em seguida, ele foge, e se refugia no alto de um poste de luz, distante.


Imagem por Hatsuo Fukuda



Sigo em frente. Eu o vi, estou feliz, apesar da sua indiferença. O amor paciente talvez seja recompensado, um dia. Talvez.


Contei três socós no Passeio, e suponho que sejam da mesma família. E como toda família moderna, eles não se falam entre si, zanzando, solitários, entre a multidão. A Prefeitura, em matéria antiga, de 2017, anunciava que o Passeio Público contava com 680 animais de pequeno e médio portes de 110 espécies diferentes, incluindo primatas, aves, répteis e peixes. Um deles, talvez, possa vir a ser seu amigo. Algo precioso nestes tempos solitários.

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