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QUANTO DUROU O CERCO DA LAPA?

Atualizado: 28 de jan. de 2023


O dia 17 de janeiro foi o primeiro em que a Lapa esteve cercada na totalidade de seu circuito e o primeiro em que se interromperam todos os contactos com seu exterior: foi o começo do sítio total.


Arthur Virmond de Lacerda Neto

Imagem de Wikipedia


Minúcia da história do cerco da Lapa consiste na determinação de sua duração: comumente atribuem-se-lhe 26 dias; contudo, diferentes fontes assinalam lapsos maiores.


No dia da rendição da Lapa, a saber, 11 de fevereiro de 1894, o general Antônio Carlos da Silva Piragibe, chefe maragato, lançou ordem do dia em que referiu: “Há 26 dias que tomastes posição em torno dos canhões inimigos [...]” (Milton Miró Vernalha, Maragatos x pica-paus, p. 295).


O então major Felipe Schmidt, na parte oficial que deu ao Ministro da Guerra, aos 5 de julho de 1894, mencionou “aqueles tremendos vinte e seis dias de luta” (Felipe Schmidt, O sítio da Lapa, Boletim do Instituto Histórico Paranaense, v. III, p. 106).


Comunicação oficial do Ministério da Guerra participava o traspasse de Carneiro, Amintas de Barros e de Dulcídio Pereira exprimiu: “[...] oferecendo durante 26 dias, na cidade da Lapa, [...] heróica resistência [...]” (David Carneiro, O Paraná e a Revolução Federalista, p. 281).


O general Mário Alves Monteiro Tourinho, partícipe como sitiado, anotou: “[...] ia a Lapa sofrer o embate final, numa resistência heroica, durante 26 dias de sítio efetivo.” (Mário Alves Monteiro Tourinho, Memória do cerco da Lapa, in Anais do primeiro congresso de história da revolução de 1894, p.159).


Os historiadores aderem ao intervalo de 26 dias:


a) David Carneiro: “O sítio de 26 dias [...]” (David Carneiro, Floriano. Memórias e documentos, vol. VI, p. 103, nota 2).

“O cerco, porém, vai de 17 de Janeiro a 11 de Fevereiro” (idem, p. 115, nota 15).


b) Fábio Luz: “[...] estabelecendo o cerco, que durou 26 dias [...]” (idem, p. 103).


c) Milton Miró Vernalha: “Devido os (sic) 26 dias de resistência [...]” (Milton Miró Vernalha, Maragatos x pica-paus, p. 296).


Se o dia 11 de fevereiro de 1894 correspondeu ao 26º dia do sítio, então, o 1º (entenda-se: o dia de início) correspondeu a 17 de janeiro do mesmo ano.


O general maragato Alfredo Ernesto Jaques Ourique adota o dia 17 como o de princípio do cerco: “O cerco da cidade da Lapa começou a 17 de Janeiro e terminou a 11 de Fevereiro pela capitulação das forças que a defendiam.” (Alfredo Ernesto Jaques Ourique, O drama do Paraná, p. 48). Destarte, o sítio manteve-se por 26 dias.


David Carneiro indica, todavia, a véspera: “A 16 de janeiro começara o cerco, terminado a 11 do mês seguinte” (David Carneiro, O Paraná e a Revolução Federalista, 2ª ed., 1992, p. 293; também consta 16 na edição princeps). Todavia, também aponta o dia 13 ou 14: “O cerco da Lapa iniciado a 13 ou 14, foi completado a 17 [...]” (David Carneiro, Os dois máximos heróis da resistência da Lapa, in Anais do primeiro congresso de história da revolução de 1894, p. 422).


Valério Hoerner Júnior refere o dia 16: “O cerco fechou-se em 16 de janeiro e encerrou-se com a capitulação em 11 de fevereiro de 1894. 26 dias de resistência [...]” (Valério Hoerner Júnior, Maragatos, p. 63, nota 45. Repetiu a data do livro de David Carneiro, apontada no parágrafo acima).

Octávio Secundino Júnior recua o início do cerco em dois dias, a saber, 15 de janeiro: “A Lapa começou a ser sitiada em 15/1/94 [...]” (Octávio Secundino Júnior, Um Episódio Maragato, p. 125): o cerco ter-se-á mantido por mais dois dias, a saber, 28.

O tenente pica-pau Clemente Argolo Mendes, em seu diário de guerra: “Foi com estas forças, quase todos civis, que resistimos por espaço de 28 dias e 28 noites [...]” (apud David Carneiro, O Paraná e a Revolução Federalista, p. 168). Ora, dado haver a Lapa capitulado em 11 de fevereiro, a resistência de 28 dias iniciou-se aos 15 de janeiro.


Francisco Grabowski, integrante das hostes maragatas e partícipe do cerco da Lapa, redigiu: “O cerco da Lapa durou 28 dias.”; logo, iniciou-se no dia 15 (Francisco Grabowski, Memórias da Revolução Brasileira dos Anos de 1893-1894, in Anais da Comunidade Brasileira-Polonesa, v. V, 1971, p. 46).


O médico Filipe Maria Wolff, em seu diário do sítio da Lapa, anotou aos 14 de janeiro: “Começa o cerco, o bombardeio e a tomada da desditosa cidade da Lapa [...] Barricadas estão sendo construídas nos fins das ruas. [...] Os acampamentos dos arredores da cidade são levantados. [...] Já estão matando vacas e bezerros novos. [...] As vendas estão fechadas. [...] Todas as comunicações com o exterior estão cortadas.” (Francisco Brito de Lacerda, O cerco da Lapa. Diário do Dr. Fillipe Maria Wolff, p. 26).

Em seus apontamentos de 3 de fevereiro, Filipe Wolff enunciou: “Hoje é o vigésimo dia de cerco.” (Francisco Brito de Lacerda, O cerco da Lapa. Diário do Dr. Fillipe Maria Wolff, p. 40): neste caso, o cerco haver-se-á iniciado em 15 de janeiro.

Com isto, há cinco datas atribuídas ao começo do sítio:

- 13 (David Carneiro).

- 14 de janeiro (Filipe Wolff, David Carneiro).

- 15 de janeiro (Filipe Wolff, Clemente Argolo Mendes, Francisco Grabowski, Octávio Secundino Júnior).

- 16 de janeiro (David Carneiro, Valério Hoerner Júnior).

- 17 de janeiro (Piragibe, Alfredo Ernesto Jaques Ourique, David Carneiro, Fábio Luz, Mário Tourinho, Milton Miró Vernalha).


Diante de tal variedade, hemos de estabelecer critério que permita fixar data.


Dia 13.

David Carneiro não aduz nenhum facto concernente a tal dia.

Dia 14.

David Carneiro adota o dia 14 pois nele os maragatos começam a ser vistos em derredor da Lapa, em todos os sentidos: “A 14 de janeiro as forças federalistas começaram a aparecer por todos os lados [...]”: se começaram a aparecer, é porque antes não estavam visíveis ou expostas; aparecer por todos os lados significa tornarem-se visíveis em todas as direções, porém não em todo o circuito da cidade (David Carneiro, Os dois máximos heróis da resistência da Lapa, in Anais do primeiro congresso de história da revolução de 1894, p. 419).


A sentença de Filipe Wolff “Começa o cerco, o bombardeio e a tomada da desditosa cidade da Lapa” não quis significar que o cerco de facto já fora estabelecido, que a Lapa já se encontrava rodeada pelas hostes maragatas, bombardeada e tomada, senão que naquele dia principiava o estado de cousas que previsivelmente resultaria em cerco, bombardeios, na tomada dela; tal estado de cousas caracterizava-se pela construção de barricadas, pelo levantamento de acampamentos nos arrabaldes da cidade, pelo abate de gado vacum novo, pelo encerramento do comércio.


“Começa o cerco [...]” não deve ser interpretado literalmente.


A sentença “Todas as comunicações com o exterior estão cortadas” exprime que naquele dia, certamente por ordem de Carneiro, todo trânsito para fora da Lapa e de seu exterior para ela achava-se interrompido; tanto é assim que ao dia seguinte (15) partiu trem da Lapa a Curitiba, em que seguia o tenente Mário Tourinho, que regressou: “No dia 15, saíra um trem para Curitiba. Nele o Tenente Mário Tourinho levara alguns prisioneiros, voltando ainda a tempo de tomar parte no cerco.” (David Carneiro, O cerco da Lapa e seus heróis, 1991, p. 88; David Carneiro, O Paraná e a Revolução Federalista, 1982, p. 159).

Dia 15.

Invoca-se o dia 15 por haver sido o primeiro em que as forças sitiantes abriram fogo, ao que lhes responderam as sitiadas:


“Era esta a disposição da tropa que guarnecia a cidade quando, no dia 15, Piragibe tomou a iniciativa do ataque [...]” (Mário Alves Monteiro Tourinho, Memória do cerco da Lapa, in Anais do primeiro congresso de história da revolução de 1894, p. 156).


“Esta era a disposição de espírito em que se acham oficiais e soldados que guarneciam a pequena cidade da Lapa no dia 15 de Janeiro, ao rompermos o fogo da nossa artilharia contra o inimigo [...].


Ao nosso cartel de desafio respondeu o inimigo fazendo-nos fogo com um ou dois canhões Krupp e estendendo em linha de atiradores a sua infantaria [...]” (Filipe Schmidt, O sítio da Lapa, Boletim do Instituto Histórico Paranaense, v. III, p. 85).

Não há menção nas fontes a fogo aberto pelos pica-paus da Lapa precedentemente ao dia 15.


“É nesse dia [15] que as forças revolucionárias aproveitando a mata existente a Leste e o cabeço de Oeste, procedem à marcha destinada ao fechamento completo do cerco.” (David Carneiro, O cerco da Lapa e seus heróis, 1991, p. 88; David Carneiro, O Paraná e a Revolução Federalista, 1982, p. 159). Note-se: as forças maragatas procederam à marcha destinada ao fechamento integral do sítio, o que é diferente de asserir que elas o fecharam integralmente (o que ocorreu aos 17, como explicitamente afirma, alhures, o mesmo autor): curou-se de manobra praticada aos 15, dicada a fito que se alcançou aos 17.


São situações distintas:

I)Abrir-se fogo, combater-se, bombardear-se de um lado e responder-se ao bombardeio do lado inimigo; é ação de combate que não implica, forçosamente, cercar-se o inimigo.

II) Proceder-se à manobras destinadas a circunscrever-se inteiramente o inimigo equivale a: 1. preparar-se o cerco, a criarem-se condições de submeter-se a praça a cerco; ou a: 2. iniciar-se o sítio com o estacionamento do inimigo ao longo de trecho ou de trechos do âmbito da praça. O excerto acima (de obras de David Carneiro) não permite discernir se a marcha destinada ao fechamento completo do cerco deputou-se à primeira ou à segunda destas hipóteses.


III) Manter-se sítio, isto é, achar-se praça de guerra cercada, sujeita a forças inimigas por todos os lados ou quase todos. Sítio incompleto, cerco incompleto é o em que a praça não se encontra rodeada completamente pelo inimigo, em que há trechos de seu circuito a salvo do inimigo, sob domínio das forças da praça (sitiada alhures); sítio completo, cerco completo, cerco efetivo é o em que ela está rodeada pelo inimigo inteiramente, em que este a circunda na inteireza de seu perímetro, em que não remanescem trechos de seu âmbito sob a alçada do comando da praça.

No dia 15 irrompeu fogo maragato contra a Lapa, a que esta respondeu; no mesmo dia, deslocamentos das forças maragatas aprestaram o cerco (II, número 1) ou iniciaram-no (II, número 2). Apenas na hipótese do item II, número 2 é que o cerco haver-se-á iniciado aos 15 (sem haver se completado neste dia) e terá durado 28 dias (2 de cerco incompleto, mais 26 de completo).


Dia 16.

Nenhum facto caracteriza o dia 16 que justifique dele datar o início do cerco: Filipe Wolff, Argolo Mendes, Líbero Guimarães, autores de diários; Felipe Schmidt, autor de parte oficial; David Carneiro, historiador; Mário Tourinho, Francisco Grabowski, cronistas, não o distinguem como o primeiro do cerco (David Carneiro, O Paraná e a Revolução Federalista, 2ª ed., p. 160 e 161; Felipe Schmidt, O cerco da Lapa, p. 87 e 88). Terá havido gralha no livro de David Carneiro, aliás reproduzida inadvertidamente por Valério Hoerner Júnior.


Dia 17.

O dia 17 assinala-se porque a) nele a Lapa estava de todo cercada, envolvida em todo seu perímetro, completamente rodeada pelos inimigos, já não apenas parcialmente, motivo por que b) neste dia, interromperam-se todas as comunicações dela com o exterior, isto é, a Lapa esteve de todo circunscrita pelo inimigo em seu circuito, bem como insulada do exterior. Neste dia o cerco tornou-se completo ou (para empregar vocábulo aí equipolente) efetivo.


“A 17 de Janeiro o cerco da Lapa se completou [...]” (David Carneiro, O Paraná e a Revolução Federalista, p. 106. Sublinhei.).


“O cerco da praça só ficou completo a 17 de Janeiro, depois da saída do trem que levava Lauro Müller [...]” (David Carneiro, Floriano. Memórias e documentos, VI, p. 103. Sublinhei.).


“A 17, portanto, cortadas todas as comunicações da Lapa com o resto do país, começava a epopeia cujo epílogo seria a morte de Carneiro e a rendição dos heróis [...]” (David Carneiro, Os dois máximos heróis da resistência da Lapa, in Anais do primeiro congresso de história da revolução de 1894, p. 423).


“Assim se passou o dia 17.

O Coronel Carneiro mandou que se procedesse com intensidade à construção das trincheiras, pois ia ser iniciado um sítio em regra, estando desde esse dia, pela manhã, todas as comunicações cortadas com o resto do país.” (David Carneiro, O cerco da Lapa e seus heróis, 1991, p. 99).


“Efetivamente o combate de 17 de janeiro teve pouca significação como choque de forças. O inimigo realizou o cerco [...]”; entenda-se: completou o cerco. (David Carneiro, O Paraná e a Revolução Federalista, p. 169).


“A 17, estando já sitiados [...]” (Argolo Mendes, apud Carneiro, O Paraná e a Revolução Federalista, p. 167).


“Estávamos, porém, cercados.” (Felipe Schmidt, a propósito do dia 17. O sítio da Lapa, p. 89).


“O que falam os diários sobre o dia 17 de janeiro, o primeiro de cerco efetivo [...]” (David Carneiro, O Paraná e a Revolução Federalista, 1982, p. 167). Por efetivo entenda-se: completo.


Alfredo Ernesto Jaques Ourique limita-se a datar o início do cerco aos 17, sem especificações quanto ao estado de coisas nos dias anteriores (Alfredo Ernesto Jaques Ourique, O drama do Paraná, p. 48).


Mário Alves Monteiro Tourinho menciona “26 dias de sítio efetivo”, em que o adjetivo caracteriza o estado completo do sítio, estabelecido (completamente) no dia 17 (Mário Alves Monteiro Tourinho, Memória do cerco da Lapa, in Anais do primeiro congresso de história da revolução de 1894, p. 159).



Conclusões.


I. A observação do dr. Wolff deve ser entendida não à letra, senão no contexto em que ele a redigiu.

No dia 14 os federalistas postaram-se por todos os lados à volta da Lapa e visivelmente; neste sentido, lato, o cerco principiou no dia 14 e durou 29 de sítio total.


II. Os primeiros assaltos à Lapa e respectiva resposta de fogo verificaram-se aos 15, de quando se contam 28 dias de combate.

III. Em 17 a Lapa estava inteiramente circundada pelas forças maragatas e deste dia contam-se 26 de sítio completo.


A Lapa principiou a ser sitiada aos 14 de janeiro; passou a ser atacada aos 15 de janeiro; começou a responder ao fogo inimigo no mesmo dia; o sítio completou-se em 17 de janeiro. Ela esteve cercada por 29 dias, de que durante três (14, 15, 16 de janeiro) parcialmente, e de que durante 26 (de 17 de janeiro a 11 de fevereiro), completamente.


O dia 14 de janeiro foi o primeiro em que as forças maragatas acharam-se dispostas em todos os quadrantes do perímetro da Lapa, e visíveis de seu interior: foi o início do sítio.


O dia 15 de janeiro de 1894 foi o primo de ataques maragatos e o primeiro de contra-ataques da Lapa: foi o princípio dos combates.


O dia 17 de janeiro foi o primeiro em que a Lapa esteve cercada na totalidade de seu circuito e o primeiro em que se interromperam todos os contactos com seu exterior: foi o começo do sítio total.


O dia 11 de fevereiro foi o último do cerco, mercê de capitulação.



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