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STALINGRADO


Motherland Calls, a colossal estátua em Stalingrado, hoje Volgogrado, comemora o maior feito da Segunda Guerra Mundial.



Imagem de Reddit



Às margens do rio Volga, na Rússia, estende-se uma cidade, Volgogrado, que ao tempo da Segunda Guerra chamava-se Stalingrado. Dominando a cidade, uma montanha – mais um morro elevado do que uma montanha – chamada Mamayev Kurgan (“Túmulo de Mamayev”), e, no seu topo, uma colossal estátua, de 85 metros de altura, que foi, ao seu tempo, a maior estátua do mundo (para comparar: a Estátua da Liberdade tem 46m, o Cristo Redentor, 30m). Mãe Pátria Chama, a estátua, foi construída para homenagear os combatentes de Stalingrado, onde se travou a maior batalha da Segunda Guerra Mundial, e onde, pela primeira vez, os exércitos alemães foram derrotados. A batalha foi o turning point da guerra. Depois dela, só restou aos alemães o peso de sucessivas derrotas, culminando com a tomada de Berlim, pelos exércitos soviéticos.


Duzentos degraus, simbolizando o número de dias que durou a batalha, levam ao topo do morro. No cume, vê-se uma mulher empunhando com a mão direita uma espada colossal (esta palavra pode ser usada para tudo, neste acontecimento, e também ao monumento), e, olhando para trás, com a mão esquerda estendida chama todo o povo à batalha. De lá, a vista alcança toda a cidade e o Rio Volga.


O general que comandava o Exército Vermelho, Vasily Chuikov, quando chegou para assumir o comando de Stalingrado, reuniu-se com o comissário político, Nikita Krushev (depois sucessor de Stalin). Krushev perguntou a Chuikov: “Camarada, como você interpreta sua tarefa?” Chuikov respondeu: “Nós defenderemos a cidade, ou morreremos nela.” Krushev concordou.


No filme Enemy at the Gates (Círculo de Fogo), de Jean-Jacques Annaud, é mostrada uma visão dantesca de tropas chegando em Stalingrado, atravessando o Rio Volga sob fogo inimigo. Chegando na cidade, os soldados recebiam um rifle a cada dois homens, e eram instruídos: “Quando um morrer, o outro pega o rifle.” A tropa da NKVD (segurança do Estado), posicionava-se para metralhar os soldados que tentassem recuar. Um soldado durava, em média, um dia no front, antes de ser morto ou ferido.

A moral da tropa estava baixa, com os sucessivos ataques alemães. As tropas russas já estavam encurraladas na cidade, reduzida a escombros, lixo e cadáveres insepultos. Chuikov, pessoalmente, quando chegou, atirou em um comandante de regimento (e o comissário político), além de dois comandantes de brigada e os comissários, por covardia. A disciplina foi restaurada.


Imagem de História Ilustrada



Mas é um engano pensar que a disciplina era baseada apenas no terror. Os soldados já sabiam, nesta altura da guerra, o que acontecia nos territórios ocupados pelos alemães. Massacres de populações civis (a pretexto de serem judeus e comunistas), estupros e saques eram a regra. Os soldados alemães tinham sido formados na concepção hitlerista que os povos soviéticos, eslavos, eram uma sub-raça. Não havia respeito às populações civis e aos soldados aprisionados (morreram milhões por fome, frio e falta de tratamentos médicos). A propaganda do Partido Comunista também era eficaz, instilando nos soldados o ódio aos invasores. Um cartaz comum, na época, retratava uma jovem russa ameaçada por soldados alemães e perguntava: “Você quer este destino para sua irmã?” Todos sabiam que as mulheres sob território ocupado sofreriam estupros em massa pelos soldados. E quem fosse aprisionado morreria de fome. Não havia alternativa senão lutar até a morte.

Chuikov, um comandante experiente, sabia que os alemães não gostavam do combate corpo a corpo. Assim, aproveitando as ruínas da destruição da cidade, criou a tática que chamou de “abraçar o inimigo”. Pequenos destacamentos se espalhavam pela cidade, combatendo pequenos grupos alemães. O combate se travou casa a casa. Não era incomum que alemães e soviéticos se posicionassem em pavimentos diferentes da mesma casa, atirando granadas uns nos outros. Com isso, a força aérea germânica e artilharia não podiam dar suporte aos seus combatentes. Além disso, o uso de snipers tornou-se regra, levando o terror aos soldados alemães. Os soldados soviéticos (uma boa parte não eram russos) aprenderam a combater os alemães, e perderam o medo.

Chuikov cumpriu o prometido, a um custo imenso. Fala-se em dois milhões de soviéticos mortos, e oitocentos mil alemães.


Chuikov, na verdade, foi uma isca para Hitler. Enquanto ele distraía os alemães em Stalingrado, o Alto Comando Soviético preparava (desde outubro), a contraofensiva, que viria em final de novembro, culminando com a rendição alemã em 2 de fevereiro de 1943. Justiça divina: o mesmo Chuikov recebeu a rendição incondicional do general alemão Helmuth Weidling, o último comandante das tropas em Berlim, em 2 de maio de 1945, o que na prática determinou o fim da guerra na Europa.


Hoje, Chuikov está enterrado em Mamayev Kurgan, junto com um dos heróis da batalha, o famoso Vasily Zaitsev, o sniper que é o herói do filme de Jean-Jacques Annaud (interpretado por Jude Law).


A Batalha de Stalingrado deu origem milhares de livros, e um bom número de filmes. No Youtube você encontrará também vídeos, filmes e discussões. Recomendo, entre os filmes, o de Jean-Jacques Annaud, com Jude Law, Rachel Weisz, Bob Hoskins (no papel de Krushev). Sob o quotidiano na União Soviética naqueles anos – e também um testemunho da força moral do povo -, há um magistral romance, de Vasily Grossman: Stalingrado (1.º livro) e Life and Fate (2.º volume da dilogia). Os literatos discutem se Grossman se equipara a Tolstoi (de Guerra e Paz). A temática é a mesma: a Pátria Mãe invadida. Grossman foi correspondente do jornal do Exército Vermelho durante a guerra, e percorreu todo o front. O resultado ele destilou neste livro fenomenal. É um Guerra e Paz soviético. Outra discussão é se Grossman é o maior escritor do século XX. Também passo.


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