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ÉTICA DO CORPO LIVRE

Uma reflexão sobre o pudor e costumes pouco naturais impostos pela sociedade.


Arthur Virmond de Lacerda Neto

Imagem de Publicdomainpictures por Pixabay



Concebido por Augusto Comte (1798 – 1857), dois eram os fitos precípuos do Positivismo: incorporar o proletariado à sociedade moderna e laicizar a ética e a moral. O primeiro significava elevar a massa humana, a humanidade em geral, às riquezas culturais, intelectuais, artísticas, materiais, que o estado da civilização contemporânea alcançara: era e é anelo dos positivistas o que em jargão moderno chama-se justiça social e sociedade includente. Vem daí a simpatia dos positivistas para com os trabalhadores e, no Brasil, o surto da legislação laboral nos anos 1930.


A laicização da ética e da moral implica afastar, como critérios de reflexão dos valores, e dos comportamentos humanos, ditames bíblicos, oriundos da teologia em geral: essencialmente humanista e antropocêntrico, o Positivismo bate-se porque nossos valores, costumes, instituições, pautem-se pelo quanto contribua para com a felicidade das pessoas e para com mais harmonia entre elas, sem temor de nenhuma deidade nem obediência a supostas revelações.


A laicização dos valores e dos comportamentos abarca também reconhecer a naturalidade e a inocência das partes do corpo que o cristianismo demonizou: mentula, escroto, mamas, genitália feminina, nádegas.


Sobretudo a contar da obra de Agostinho de Hipona (345 – 430), o cristianismo desenvolveu teorética antissexual e gimnofóbica (de horror da nudez). Assaz influente na formação do etos das sociedades cristianizadas, deve-se-lhe a associação de nudez com vergonha e pecado, que subverteu e inverteu a mentalidade e os costumes da antigüidade grega e romana, que não reconheciam no corpo humano partes indecorosas nem tinham na nudez motivo de pejo.


Sirva de exemplo a lei de Esparta segundo a qual nenhum espartano devia ter mais gordura do que a remanescente dos exercícios habituais no ginásio; a mesma lei dispunha que os rapazes se apresentassem nus, em público, decendialmente, perante os éforos: cumulavam-se de encômios os em boa forma, robustos e de corpos trabalhados pelos exercícios, semelhantemente às obras feitas no torno e com cinzel (Histórias diversas de Eliano, Cláudio Eliano, editora Martins Fontes, p. 291/292). O substantivo ginástica provém do grego gimnadezein, isto é, exercitar-se nu.


Outro: os atletas disputavam as olimpíadas em nudez e assim foi até a extinção delas, em 382, por determinação de Teodósio, imperador já cristão.


Mais um: deuses gregos e romanos, e imperadores romanos, eram habitualmente representados despidos, em estátuas e pinturas.


Ainda este: Priapo, deus romano da fertilidade e protetor dos mareantes, era representado com falo avultado em estátuas que se punham nos jardins das casas das famílias romanas, à vista também das mulheres e das crianças; priapéia era gênero poético desenvolvido na antigüidade romana e cujo tema era Priapo. Não casualmente, ele é dos poucos deuses de que o cristianismo não se apoderou e não transformou em santo: não há santo do pênis, das nalgas, da vagina, das mamas.

A mentalidade cristã gimnofóbica permeia o etos dos brasileiros e influencia até ateus, livres-pensadores, sem-religião, evangélicos desigrejados, marxistas, que aderem ao conceito (de matriz cristã) de que mentula e mamas são inapresentáveis, em lugar de tê-los como inocentes.

A herança cristã ainda modela assaz a mentalidade no Brasil, em diversos temas (para além da gimnofobia e do pudor como vergonha da nudez): aborto, eutanásia, conceituação de obscenidade; presença de igrejas, moralidade sexual, austeridade de costumes, machismo, nas classes baixas; imposição de vestuário (relativamente) austero em dados ambientes laborais e estudantis.

Há ateus-cristãos, laicos-cristãos, sem-religião-cristãos: conquanto emancipados da teologia, aderem a valores e costumes parcialmente dela oriundos, difusos no ambiente mental em que vivemos.


O Positivismo colima haja ateus-humanistas, laicos-humanistas, humanistas, libertos de resquícios teológicos em seus valores e hábitos, e plenamente adeptos de outros, antropocêntricos. É reflexão que, aplicada às partes do corpo, importa na inocência da mentula, da mamas, da genitália, das nalgas, na dissociação entre elas e vergonha, entre nudez e vergonha, nudez e indecoro, na associação da nudez com naturalidade e inocência.


Não se cuida de marxismo cultural, gramscismo nem de esquerdismo; notai vós que marxistas culturais e esquerdistas não se batem pela naturalidade da nudez, tampouco se opõem à gimnofobia (salvo, acaso, uma que outra exceção), nem ser naturista (adepto da nudez social com respeito para consigo, com o próximo e com o ambiente) vincula-se a opiniões políticas de princípio nem de circunstância: casa-se com dada cosmovisão que as transcendem.


A naturalidade da nudez e a ausência de vergonha do corpo e de ser visto nu, típicas de gregos e de romanos, constituiu-se como movimento intelectual e de costumes na Alemanha, Áustria, Croácia, França, Espanha, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Portugal, parcialmente nos E. U. A., na cultura do corpo livre: livre de preconceitos, tabus e vergonha (também conhecida por seu nome em alemão: freikörperkultur, por abreviação F. K. K.). Na Europa, há décadas e gerações é trivial a nudez doméstica (em família) e nas suas inúmeras praias de nudismo, de que as de França e da Croácia recebem, anualmente, milhão e meio de turistas nudistas; na Alemanha havia (há ?) várias escolas nudistas, com aprovação oficial. Benjamin Franklin, João (Johann) Goethe, Walt Withman eram nudistas; se não estou em erro, também Bertrando (Bertrand) Russell.

A exposição à luz solar com nudez integral foi recomendada por médicos franceses e alemães na segunda metade do século XIX, o que facilitou a despornificação da nudez na Alemanha, na Áustria, na França, especialmente em suas zonas protestantes.


No Rio Grande do Sul, a Colina do Sol é a única "colônia" nudista do Brasil; na praia do Rio Grande (RS), vinte anos atrás eram comuns mamas ao vento (já agora, menos, aparentemente porque curiosos fotografavam-nas com seus telemóveis e inibiam as mulheres).


As associações entre nudez e erotismo, nudez e vergonha, nudez e pecado, são artificiais, são-nos incutidas: se não no-las ensinam, elas não nos surgem espontaneamente. Podemos substituí-las pelas associações entre nudez e naturalidade, nudez e liberdade, nudez e inocência: elas são naturais, posto que as concebemos espontaneamente, quando não são contrariadas por aquelas.

Nudez é apenas o corpo destituído de revestimentos; ela não é inerentemente erótica e nem de longe é vergonhosa; tampouco a nudez da cultura do corpo livre é estética: ela não exalta o formoso e belo, não dispõe padrões de beleza determinados, como fá-lo a sociedade “vestidista”.

Toda praia deve ser de nudismo facultativo; as mulheres devem poder expor suas mamas onde o homem pode expor seus mamilos, sentido, aliás, de decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, de 2015, escassamente divulgado e de que, por isso, parcas mulheres usufruem. Não há crime na exposição das mamas em público: há o ciúme dos maridos, o primarismo dos intolerantes (como se lhes pertencesse intolerar como as mulheres governam suas mamas), a falta de ousadia das mulheres.


A ética da gimnofobia (horror da nudez), de sua sexualização, do pudor (vergonha do corpo, de ser visto nu), da nudez como pecado e indecoro, tem matriz teológica (cristã); a ética da nudez como naturalidade, inocência, liberdade, comodidade, tem matriz laica (humanista, antropocêntrica). Já não há heteronormatividade (obrigação moral e social de ser-se ou parecer-se heterossexual), porém ainda há gimnofobia e pudor: no movimento de evolução do etos e do patos, em que substituímos cosmovisões e costumes, podemos manter o bom e retificar o necessário: conservar a liberdade individual no limite em que ela não prejudique a ninguém, e retificar as ideias de senso comum no que entende com a nudez.


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