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A Razão de Maggots: um conto de Marinho Bastos

há 12 horas
4 min de leitura
Cientista de jaleco branco e óculos debruçado sobre um microscópio óptico em um laboratório com frascos de vidro, lâminas e ilustrações científicas na parede.

A Razão de Maggots

Marinho Bastos


Um conto de Marinho Bastos para alegrar os almoços de familia.

Ele chegou cedo ao laboratório. Acendeu as luzes e foi direto ao biotério. Na gaiola de Rose, quatro novos ratinhos haviam nascido. Parabenizou a mãe com uma porção extra de ração e retornou à sala principal.


O microscópio dominava a bancada. Ao lado, frascos de reagentes, lâminas, pipetas de vidro e um caderno de anotações aguardavam mais um dia de trabalho. Preparou a lâmina com extremo cuidado; aquela pesquisa sustentaria sua tese de doutorado.


Saiu para fumar. No corredor, encontrou o zelador.


— Bom dia, senhor Algusto. Posso limpar o laboratório?


— Obrigado, hoje não será necessário.


— Feriado... e o senhor vai ficar trabalhando?


A pergunta causou um desconforto imediato. Lembrou-se do passeio adiado com a família. Deu uma última tragada, apagou o cigarro e forçou-se a voltar ao trabalho.


Colocou o material na lâmina. Ajustou a iluminação e aproximou os olhos das oculares. Girou lentamente o parafuso de foco até distinguir a larva de Lucilia sericata. Corou-a com azul de metileno e iniciou as anotações técnicas:


“Corpo alongado, esbranquiçado, aproximadamente 12 mm. Segmentação evidente. Ápoda. Ganchos bucais bem desenvolvidos.”


Horas se passaram naquele ritual mecânico de olhar e transcrever. O pescoço já doía pela repetição do movimento, até que uma voz rompeu o silêncio:


— Olá!


Assustado, o cientista deslizou a cadeira para trás. Olhou ao redor. Nada. Voltou às notas.

— Olá!


Levantou-se e verificou o corredor. Vazio. Sentou-se novamente, massageando as têmporas.


— Porra, Algusto, sou eu!


— Eu quem? — respondeu, ríspido.


— Você está vendo mais alguém aqui? Tá procurando o quê? Sou eu... o Maggots.


Algusto recuou. Foi ao banheiro, jogou água fria no rosto e respirou fundo antes de voltar. Ao olhar novamente pelo microscópio, a larva exibia o que parecia ser um sorriso.


— Parece que nunca falou com um invertebrado. Você tem família?


Atônito, apenas meneou a cabeça.


— Use o aparelho fonador, meu caro. Ele serve para falar.

Um murmúrio escapou de sua garganta:


— Eu não consigo...


— Acabou de conseguir.


Algusto afastou os olhos das oculares.


— Como você pode falar? Você é só uma larva.


— E você é apenas um simples Homo sapiens.


— Simples? E como sabe o meu nome?


— Elementar. Está no seu crachá: Algusto Rubiola. Aliás... Algusto com “L”?


— Foi erro do cartório! Meu Deus, eu estou conversando com um verme...

Maggots prosseguiu:


— Vocês, humanos, precisam ver para acreditar. Quando veem, escolhem duvidar. Complicado.


— Inteligência?! Desde quando uma larva pensa?


— Desde antes de você começar a fazer perguntas ruins. Ajuste o foco e sente-se.


Algusto obedeceu.


— Quero propor um acordo.


— Que acordo?


— Nada de cavalheiros. Cavalheiros complicam tudo. Um acordo de respeito.


Algusto franziu a testa.


— Respeito?


— Entre aquilo que você julga superior e tudo aquilo que considera inferior.


— E por que eu aceitaria?


— Porque você é o animal racional. Pelo menos é o que dizem.

Algusto hesitou.


— Está bem. Temos um acordo.


— Ótimo. Agora podemos conversar.


A larva permaneceu imóvel por alguns segundos.


— Algusto com L...


— Pare com isso.


— Está bem, Algusto com L.


O cientista conteve a irritação.


— Você queria conversar. Converse.


— Vocês se chamam de animais racionais, não é?


— Somos.


— Curioso.


— O quê?


— Passaram a história inteira aperfeiçoando maneiras de matar uns aos outros.


Algusto permaneceu em silêncio.


— Guerras, massacres, cadáveres... — continuou Maggots. — Não quero ser ácido, mas devo lembrá-lo de que não sou vegetariano.

Algusto soltou uma breve risada.


— Engraçado.


— Para mim, bastante.


O sorriso desapareceu do rosto do cientista.


— E qual seria sua grande contribuição para a existência?


— Nenhuma.


A resposta o surpreendeu.


— Nenhuma?


— Cumpro meu ciclo. Nasço, faço o que me cabe e morro. Vocês é que precisam encontrar uma explicação para tudo.


— Isso é a sua razão?


— Talvez. Pelo menos não inventei uma tese sobre ela.


Algusto afastou-se ligeiramente do microscópio.


— Minha pesquisa é importante.


— Eu sei.


— Finalmente concordamos em alguma coisa.


— Não se anime. Eu disse que a pesquisa é importante. Não disse que você é.


Algusto respirou fundo.


— Você é insolente.


— E você prometeu respeito.


Silêncio.


Os movimentos de Maggots tornavam-se cada vez mais lentos.


— Está morrendo? — perguntou Algusto.


— Desde que nasci. Você também.


Algusto não respondeu.


— Sua pesquisa é importante — continuou Maggots. — Faça-a com ética. O resto você terá de descobrir sozinho.


A larva quase não se movia.


— Só não esqueça nosso acordo.


— Não esquecerei.


— Respeito, Algusto. Nada além disso.


Houve uma pausa.


— Foi uma honra conhecer tão ilustre biólogo. Transmita meus cumprimentos à sua família.


— Maggots...


A larva não respondeu.


Maggots estava morto.


O microscópio foi desligado. Algusto permaneceu longos minutos imóvel diante da bancada. O laboratório voltou ao silêncio.


Em um ímpeto súbito, levantou-se e caminhou até o biotério. Abriu a gaiola de Rose, retirou os quatro filhotes recém-nascidos e os depositou no chão frio.


Contemplou a fragilidade rosada por um segundo.


Então, ergueu o pé e esmagou-os de uma só vez.


O sangue grudento manchou a sola de seu sapato.


Sem esboçar reação, retirou o jaleco, apagou as luzes, trancou a porta e caminhou pelo corredor que o zelador havia deixado limpo, marcando o piso com uma sequência de pegadas vermelhas.


Vista de costas de um homem de jaleco caminhando por um corredor longo de laboratório, deixando um rastro de pegadas de sangue no chão brilhante.

Perto da saída, parou.


Olhou por sobre o ombro.


Franziu a testa e seguiu para o estacionamento.


No carro, deu a partida. Assim que ligou o rádio, a voz de Raul Seixas ecoou:


“Eu sou a mosca que pousou em sua sopa...”


Um sorriso irônico surgiu no canto de sua boca.


Era manhã de sábado.


Algusto, com L, finalmente sentiu saudades da família.



Retrato de Marinho Bastos, autor do texto.

Marinho Bastos é psicólogo e escritor.



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