A Razão de Maggots: um conto de Marinho Bastos

A Razão de Maggots
Marinho Bastos
Um conto de Marinho Bastos para alegrar os almoços de familia.
Ele chegou cedo ao laboratório. Acendeu as luzes e foi direto ao biotério. Na gaiola de Rose, quatro novos ratinhos haviam nascido. Parabenizou a mãe com uma porção extra de ração e retornou à sala principal.
O microscópio dominava a bancada. Ao lado, frascos de reagentes, lâminas, pipetas de vidro e um caderno de anotações aguardavam mais um dia de trabalho. Preparou a lâmina com extremo cuidado; aquela pesquisa sustentaria sua tese de doutorado.
Saiu para fumar. No corredor, encontrou o zelador.
— Bom dia, senhor Algusto. Posso limpar o laboratório?
— Obrigado, hoje não será necessário.
— Feriado... e o senhor vai ficar trabalhando?
A pergunta causou um desconforto imediato. Lembrou-se do passeio adiado com a família. Deu uma última tragada, apagou o cigarro e forçou-se a voltar ao trabalho.
Colocou o material na lâmina. Ajustou a iluminação e aproximou os olhos das oculares. Girou lentamente o parafuso de foco até distinguir a larva de Lucilia sericata. Corou-a com azul de metileno e iniciou as anotações técnicas:
“Corpo alongado, esbranquiçado, aproximadamente 12 mm. Segmentação evidente. Ápoda. Ganchos bucais bem desenvolvidos.”
Horas se passaram naquele ritual mecânico de olhar e transcrever. O pescoço já doía pela repetição do movimento, até que uma voz rompeu o silêncio:
— Olá!
Assustado, o cientista deslizou a cadeira para trás. Olhou ao redor. Nada. Voltou às notas.
— Olá!
Levantou-se e verificou o corredor. Vazio. Sentou-se novamente, massageando as têmporas.
— Porra, Algusto, sou eu!
— Eu quem? — respondeu, ríspido.
— Você está vendo mais alguém aqui? Tá procurando o quê? Sou eu... o Maggots.
Algusto recuou. Foi ao banheiro, jogou água fria no rosto e respirou fundo antes de voltar. Ao olhar novamente pelo microscópio, a larva exibia o que parecia ser um sorriso.
— Parece que nunca falou com um invertebrado. Você tem família?
Atônito, apenas meneou a cabeça.
— Use o aparelho fonador, meu caro. Ele serve para falar.
Um murmúrio escapou de sua garganta:
— Eu não consigo...
— Acabou de conseguir.
Algusto afastou os olhos das oculares.
— Como você pode falar? Você é só uma larva.
— E você é apenas um simples Homo sapiens.
— Simples? E como sabe o meu nome?
— Elementar. Está no seu crachá: Algusto Rubiola. Aliás... Algusto com “L”?
— Foi erro do cartório! Meu Deus, eu estou conversando com um verme...
Maggots prosseguiu:
— Vocês, humanos, precisam ver para acreditar. Quando veem, escolhem duvidar. Complicado.
— Inteligência?! Desde quando uma larva pensa?
— Desde antes de você começar a fazer perguntas ruins. Ajuste o foco e sente-se.
Algusto obedeceu.
— Quero propor um acordo.
— Que acordo?
— Nada de cavalheiros. Cavalheiros complicam tudo. Um acordo de respeito.
Algusto franziu a testa.
— Respeito?
— Entre aquilo que você julga superior e tudo aquilo que considera inferior.
— E por que eu aceitaria?
— Porque você é o animal racional. Pelo menos é o que dizem.
Algusto hesitou.
— Está bem. Temos um acordo.
— Ótimo. Agora podemos conversar.
A larva permaneceu imóvel por alguns segundos.
— Algusto com L...
— Pare com isso.
— Está bem, Algusto com L.
O cientista conteve a irritação.
— Você queria conversar. Converse.
— Vocês se chamam de animais racionais, não é?
— Somos.
— Curioso.
— O quê?
— Passaram a história inteira aperfeiçoando maneiras de matar uns aos outros.
Algusto permaneceu em silêncio.
— Guerras, massacres, cadáveres... — continuou Maggots. — Não quero ser ácido, mas devo lembrá-lo de que não sou vegetariano.
Algusto soltou uma breve risada.
— Engraçado.
— Para mim, bastante.
O sorriso desapareceu do rosto do cientista.
— E qual seria sua grande contribuição para a existência?
— Nenhuma.
A resposta o surpreendeu.
— Nenhuma?
— Cumpro meu ciclo. Nasço, faço o que me cabe e morro. Vocês é que precisam encontrar uma explicação para tudo.
— Isso é a sua razão?
— Talvez. Pelo menos não inventei uma tese sobre ela.
Algusto afastou-se ligeiramente do microscópio.
— Minha pesquisa é importante.
— Eu sei.
— Finalmente concordamos em alguma coisa.
— Não se anime. Eu disse que a pesquisa é importante. Não disse que você é.
Algusto respirou fundo.
— Você é insolente.
— E você prometeu respeito.
Silêncio.
Os movimentos de Maggots tornavam-se cada vez mais lentos.
— Está morrendo? — perguntou Algusto.
— Desde que nasci. Você também.
Algusto não respondeu.
— Sua pesquisa é importante — continuou Maggots. — Faça-a com ética. O resto você terá de descobrir sozinho.
A larva quase não se movia.
— Só não esqueça nosso acordo.
— Não esquecerei.
— Respeito, Algusto. Nada além disso.
Houve uma pausa.
— Foi uma honra conhecer tão ilustre biólogo. Transmita meus cumprimentos à sua família.
— Maggots...
A larva não respondeu.
Maggots estava morto.
O microscópio foi desligado. Algusto permaneceu longos minutos imóvel diante da bancada. O laboratório voltou ao silêncio.
Em um ímpeto súbito, levantou-se e caminhou até o biotério. Abriu a gaiola de Rose, retirou os quatro filhotes recém-nascidos e os depositou no chão frio.
Contemplou a fragilidade rosada por um segundo.
Então, ergueu o pé e esmagou-os de uma só vez.
O sangue grudento manchou a sola de seu sapato.
Sem esboçar reação, retirou o jaleco, apagou as luzes, trancou a porta e caminhou pelo corredor que o zelador havia deixado limpo, marcando o piso com uma sequência de pegadas vermelhas.

Perto da saída, parou.
Olhou por sobre o ombro.
Franziu a testa e seguiu para o estacionamento.
No carro, deu a partida. Assim que ligou o rádio, a voz de Raul Seixas ecoou:
“Eu sou a mosca que pousou em sua sopa...”
Um sorriso irônico surgiu no canto de sua boca.
Era manhã de sábado.
Algusto, com L, finalmente sentiu saudades da família.

Marinho Bastos é psicólogo e escritor.











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