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4 16 45, na Rua Caldas, 71

há 10 horas
5 min de leitura
Ilustração em estilo caricatura com Caio Brandão à mesa com telefone antigo e caderno, cercado por figuras públicas e políticas formando uma banda musical desafinada na Rua Caldas 71.

4 16 45, na Rua Caldas, 71


Entre nostálgicos da Rua Caldas e velhas raposas da política, a tentativa de reger uma banda sem partitura nem compostura.

Por Caio Brandão


Há números e desempenhos geográficos que não se apagam, por mais que o tempo passe e a vida nos leve para longe. Funcionam como o primeiro degrau de uma longa escadaria: o ponto exato de partida para a jornada de quem, um dia, precisou ganhar o mundo e seguir em busca do próprio destino.


Os números 4 16 45 diziam respeito ao telefone da casa de meus pais, na rua Caldas, 71, no bairro do Carmo, em Belo Horizonte. Não quero revirar memórias, mas o número de chamada desse telefone sempre foi para mim um desafio literário. Tentei transformar o número em refrão para um samba — daqueles que trazem, na cadência, o conforto e o acolhimento do nosso teto. E, entre várias tentativas, a estrofe que melhor se aproximou ficou longe do que gostaria de ter feito. Não tenho esse talento; se eu soubesse tocar violão e escrevesse a letra dedilhando as cordas e solfejando, seria melhor. Mas não é a minha praia e desisto.


A estrofe que escrevi não virou refrão, encontrou o seu fim em si mesma e morreu de nanismo e inanição. Tentei cantá-la, mas a respiração falhou e lhe faltou energia. Que pena! Eu gostaria de fazer nascer um samba, mas não sou sambista, como também passa longe de mim a pretensão de ser letrista. Um cronista, talvez — e ainda assim, daqueles que questionam o próprio talento.


A letra que escrevi caiu no colo do Paulo Pinto. Na realidade, Paulo Emílio Pinto, meu pai afetivo. Ele merecia coisa melhor. Trovador de escol e poeta de anzol — daqueles que jogavam a garrafa de uísque no mar da noite como quem lança uma isca, sabendo que ela retornaria cheia: transbordando de inspiração e daquela maldade sutil. A maldade própria das madrugadas e das companhias que inspiram não apenas a poesia, mas também a prosa.


Mas como esquecer a rua Caldas? Como apagar da memória o Rogério, o Luiz Cano Longo — apelido que aludia ao revólver calibre 38 pendurado na cinta —, o Marcos Caolho, o Mauro Deslandes, o Fomba — que mais tarde viraria o Camilinho nos Diários Associados —, o Adilson Dentinho, os filhos do Amarilio, o Franklin Trovão e a sua imensa irmandade, o Péu, que partiu precocemente, e outros tantos cujos nomes a memória hoje não contempla, mas que foram todos imensamente relevantes em meio à infância e à adolescência que ficaram para trás. Ah!, Leninha Pinto me cutuca e faz lembrar do Tarcísio Schettino, da Viação Util, também falecido precocemente e no auge do seu potencial pessoal e empresarial.


Mas, como bem disse Fábio Barletta, o meu tio preferido, eu troquei as letras pelos números — mas sem remorso. Não busquei a rima pela rima, a letra sem compromisso, o ritmo apenas pelo prazer do balanço. Fui à luta e os números floresceram, não como desejável, mas como suficientes.


Mas os números também poderiam, ainda que por mera diversão, abrigar um grupo musical, uma banda gentil e descompromissada, capaz de parir sons com partituras excitantes e numericamente relevantes. Fiquei com a batuta, coloquei Newton Cardoso no agogô, porque o instrumento, mais do que aparenta, é um mensageiro, um chamador. Quando o agogô se apresenta, ele organiza; é como o sino da igreja. E, quando ele chamou, chegou a zabumba, e o zabumbeiro foi Felício Brandi, o ideólogo e materializador do Cruzeiro Esporte Clube, sucessor do Palestra Itália, com quem trabalhei e de quem copiei os talentos e ritmos de perspectivas e negócios.


Mas Felício também jogava com a sorte, apostando naquele gol no último segundo da prorrogação — ele somava na banda, mas não resolvia sozinho. Busquei para o contrabaixo o Requião, para ajudar a marcar e a manter o ritmo e o tempo da música, dando a estabilidade necessária para a sincronia dos outros músicos.


No violino coloquei Álvaro Dias, com o seu tom suave e penetrante, sem contradições e capaz de se amoldar a qualquer ritmo, mesmo nos mais conflitantes. Iwan Sabatella encrespou o bigode que não possuía. Acho que ele não concorda com os talentos do Álvaro. Como saber? Ele é enrustido. E o José Felinto não gostou, era guardião do Álvaro.


Para o piston de vara chamei Eden Razuk — não sei bem o porquê, mas o seu bar, o Brag's Scotch Bar, tinha algo a ver com isso, um som melancólico na noite. Mais tarde ele se tornou leiloeiro e foi tocar outras partituras. Acho que ficou rico.


Vilson Kleinübing, de Santa Catarina, me pediu espaço, mas não teve eco. Complicado, ele, com a sua ascendência germânica. Preferi acolher o Alceu Colares, até porque era negro e se daria bem na cuíca ou no tamborim. Alceu era um fenômeno, bem-humorado e governava o Rio Grande do Sul com entusiasmo, ao lado da esposa, uma loira louríssima, que queria tocar harpa na banda, mas não teve espaço.


Romero Niquini me telefonou para dar palpites. Disse que era entendido de bandas, que havia patrocinado várias em campanhas políticas no interior da Bahia, e que tinha Jorge Prado na folha de pagamento. Não acreditei, porque Romero entendia, mesmo, era de transporte urbano e de vinícola; acabei descartando-o.


Procurei pelo José Maria, o delegado cinéfilo e erudito, mas não o encontrei. Soube que ele agora reside na Nigéria, onde abriu fábrica de preservativos, com a obra financiada pelo Joel Malucelli, que, segundo consta, se afastou do banco para produzir fraldas geriátricas em Santo Antônio do Pinhal.


A banda em formação era um sucesso, mesmo no nascituro. Roberto Gutierrez ficou em êxtase e disse que abriria o cofre. Sérgio Andrade entortou a sobrancelha e Ricardo Sena deu parecer contrário, sempre cauteloso e empunhando pareceres do Luiz Otávio Mourão. Mas a banda foi em frente, mesmo sem dinheiro para manter o ritmo.


Deusa Prado deu chilique, disse que não daria um tostão, mas que tocaria flauta, se tivesse espaço: descartei de plano. Ela segurava a flauta de maneira insinuante, uma preocupação. Telefonei para Fernando Fraga, que buscava espaço com Ricardo Saud, na JBS, e disse estar aberto a bancar qualquer instrumento. Ricardo pulou fora, não sabia tocar o triângulo e disse que agora era consultor de mísseis na Avibras, e que nada mais tinha a ver com bandas — mas não fez falta. Preferiu ir desafinar em outros enfrentamentos, assessorado pelo Ângelo Barletta, pós-graduado em batalha de confete nos memoráveis carnavais ubaenses.


Então, para fortalecer a banda, o melhor seria mirar as campanhas políticas, mas o Bolsa Família quebrou o país, o filme do Bolsonaro deu B.O., o STF está de olho e atirando ao léu, e as igrejas estão recolhidas para evitar confronto com a Receita Federal.


Pedi socorro ao Fukuda, meu editor, mas ele ponderou que, primeiro, teria que consultar o Rafael Greca, entendido em telefonia musical com ritmos calientes, cujo compasso media estalando o polegar contra o indicador, e que não haveria tempo para ensaiar, porque ele machucou os dedos abrindo uma lata de goiabada cascão.


Afinal, o telefone não deu samba, a rua Caldas ficou na saudade, a banda desafinou, os circunstantes fizeram o seu papel e tudo se esmaeceu levado pela névoa que dissolve o tempo de forma serena e quase imperceptível.


O telefone continua tocando? Como saber? Mas se tocar, que seja atendido com o sussurro carinhoso do tempo que, mesmo implacável, faz as coisas e as gentes passarem, e apenas isto, simples assim.



Fotografia de retrato de Caio Brandão, jornalista e colaborador do Dialéticos.
Caio Brandão é jornalista, cronista, e sambista de Minas Gerais.

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