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APRENDER A MORRER VIVENDO

há 7 horas
3 min de leitura


Mesa rústica de madeira ao ar livre com restos de refeição, pão partido e louças sob a luz dourada do entardecer.


Nota do Editor:O Dialéticos tem a honra de receber, pela primeira vez em suas páginas, o médico e ensaísta Sebastião Nataniel Silva Gusmão. Amplamente reconhecido em Minas Gerais e no meio acadêmico internacional como uma das grandes referências da neurocirurgia brasileira e do pensamento humanista em saúde, Gusmão alia o rigor científico de quem lidou cotidianamente com a biologia e a complexidade do cérebro a uma sensibilidade filosófica serena e desprovida de ilusões. Nesta crônica, originalmente veiculada em seu blog pessoal, ele nos convida a refletir sobre a finitude e o valor insubstituível do presente, ensinando-nos a saborear e a nos despedir do banquete da existência com lucidez e gratidão.

APRENDER A MORRER VIVENDO


Sebastião Nataniel Silva Gusmão

   

Epicuro nos adverte que é tolice afligir-se com a espera da morte, pois trata-se de algo que, uma vez vindo, não causa mal e não significa nada. Enquanto vivemos, ela não existe e, quando chega, não existimos mais. E o não mais existir não causa qualquer mal. É como um sono sem sonhos.  


Se o ontem não mais existe e o amanhã é apenas uma possibilidade, a sabedoria é dar à vida o sentido do trabalho do dia de hoje. Este pensamento está na Mensagem da Aurora, velho poema sânscrito:   



Cuida deste dia. Este é a vida, a própria essência da vida. Eis que o ontem é apenas um sonho, e o amanhã é somente uma visão.   


O objetivo fundamental na vida é alcançar a felicidade. Dois caminhos nos levariam a tal objetivo: o prazer e o sentido da vida.   



A felicidade geralmente traduz-se em experimentar agradáveis sensações corporais. Como nossa fisiologia limita a intensidade e a duração destas sensações, a busca por prazeres cada vez maiores termina no vazio ou no sofrimento.   



A procura de sentido para a vida é também caminho incerto, pois, do ponto de vista da natureza, tudo ocorre por acaso ou necessidade, e a vida de um ser humano é tão significativa quanto a de uma gramínea. Como afirma Shakespeare: "O homem, sem os artifícios da civilização, é só um pobre animal". Somos o resultado de processos evolutivos cegos e sem propósitos, determinados pelo acaso das mutações e pelas necessidades da adaptação ao meio ambiente.   



Temos que aceitar a insolúvel contradição entre nossa mente racional em uma natureza irracional.   



A busca da felicidade em um sentimento subjetivo de prazer ou em uma sensação subjetiva de que a vida tem um significado acima da natureza real determina o sofrimento. A solução seria eliminar o desejo para bloquear o sofrimento, e a felicidade seria igual a realidade menos a expectativa. Ou como aconselha Aristóteles: não perseguir o que é agradável, mas a ausência de dor, pois esta é a grande inimiga da felicidade.   



Não existe qualquer sentido estabelecido para a vida. Entretanto, como afirma Nietzsche, se temos uma razão para viver, conseguimos suportar quase tudo. Por outro lado, a vida sem significado é fardo difícil, mesmo se repleta de conforto. Portanto, cada um deve criar sentido para sua vida. E neste processo é aconselhável confiar na razão e nas evidências. Isso nos permite abrir mão de ilusões reconfortantes e enfrentar o significado da existência temporária, ao mesmo tempo fantástica (pela alta complexidade evoluída do nada) e trágica (pelo inevitável retorno ao nada).


A vida, esta curta ponte entre o nada (antes do nascimento) e o nada (após a morte), deve ser realizada em seus próprios termos, valendo por si mesma. Somos afortunados por poder morrer. A maioria das incontáveis possíveis pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. Somos os ganhadores na loteria do nascimento e não justifica lamentar o inevitável retorno ao estado anterior, do qual a enorme possível maioria jamais nem saiu.   



São os prazeres simples das relações com as pessoas e o meio no qual vivemos que dão algum sentido à existência e tornam a vida um bem precioso. Com o trabalho constante de cada dia poderemos tornar a vida grande, pois ela é muito curta para ser pequena.



E, quando chegar nosso último dia, sairemos da vida como o convidado que deixa o banquete saciado e agradecido. O fim do banquete da vida não causará nenhum mal, pois nenhuma saudade poderemos ter da existência. Aprender a morrer é aprender a viver bem cada dia. O dia de hoje é o presente, sem manual de utilização, que a natureza nos oferece.  



Retrato do médico neurocirurgião e ensaísta Sebastião Nataniel Silva Gusmão, de terno cinza claro e braços cruzados.

Sebastião Nataniel Silva Gusmão é médico neurocirurgião, professor titular aposentado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN). Detentor do título de Doctor Honoris Causa pela Universidade de Amiens (França), é autor de diversas obras sobre neuroanatomia, história da medicina e ensaios humanísticos.

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