Os Desencontros — Uma crônica de Gerardo Mello Mourão

Nota do Editor: Quem se lembra de Gerardo Mello Mourão? Ninguém, provavelmente. O editor do blog, revirando papéis velhos, resgata uma crônica amarelada, provavelmente publicada na Folha de São Paulo, em data imprecisa. Foi um doce reencontro, daqueles que nos resgatam do naufrágio de existências perdidas no nada. Boa leitura.
Os Desencontros
Por Gerardo Mello Mourão
Otávio de Faria costumava dizer que uma das tragédias da vida é que a gente vive sempre se desencontrando daquelas pessoas com que mais precisava e desejava encontrar-se. A recíproca também é verdadeira. A gente vive debaixo do atropelo dos chatos e dos inconvenientes, que parecem de sentinela em cada esquina para nos deterem com sua indesejável atenção.
O telefone toca. Bem podia ser a doce menina de quem a gente espera uma notícia, um destes momentos de afeto, de pura e limpa ternura, capazes de encher um dia, um ano, uma vida. Como aqueles instantes privilegiados de Keats, que são uma coisa de beleza, uma alegria para sempre.
Mas a doce amiga está longe, como uma náufraga distante no país do Sul, e o que a secretária anuncia no telefone é o compromisso de um jantar de aniversário de um senador qualquer. A noite e a vida estarão perdidas na enfadonha tertúlia de uma burrice competitiva entre os presentes, deputados mais ou menos ignorantes, jornalistas cortesãos, mulheres mais ou menos feias ou mais ou menos bonitas, que nem chegam a ser cocotes de luxo, nem grandes damas, nem simples companhia amena, nem parceiras picantes, nem nada. São simples bonecas articuladas, que falam como se tivessem recebido corda mecânica, e não sabem dizer nada, além das palavras programadas, e cuja conta bancária, muitas vezes duvidosa, garante suas presenças na noite vã.
Em matéria de homens, era preciso encontrar todas as noites Tomás e Tito, Agostinho e Raul, para o balanço do cotidiano e a perspectiva do eterno. Em vez deles, chegam fulano, sicrano e beltrano, que arriscam uma vaga palavra sobre a política do dia, sobre a futilidade das candidaturas, sobre a cotação da Bolsa e o preço dos imóveis. Sua conversa não influi na Bolsa nem no preço dos imóveis e, pois, é inteiramente vazia de sentido. Eles mesmos estão vazios. Se lhes fizéssemos um corte vertical no crânio, encontraríamos apenas uma caixa óssea completamente oca, talvez com algumas teias de aranha que tomaram o lugar do cérebro no espaço desocupado.
A gente se lembra de Shakespeare e de Lichtenberg. A passagem do velho Bill é hoje um lugar-comum: há muita coisa entre o céu e a terra que escapa à nossa vã filosofia. A de Lichtenberg é menos conhecida, mas diz que, em compensação, os homens tratam geralmente de coisas que não existem entre o céu e a terra. As conversas de salão, as vãs politicagens, a impostura das relações sociais devoram todos os dias a nossa vida, e são coisas que no fundo, no fundo, não existem realmente sobre a terra dos homens.
Elas não são o inútil. São a impostura. O inútil é a transfiguração da vida. Por isso o poeta Schmidt cantava: “Bendito seja o inútil, oh! bendito seja o inútil.” Inútil seria um brinco longo pendurado na orelha de Giovanna, e que vai fazendo uma carícia ali onde todos nós desejávamos fazê-la. Inútil é o largo cinturão de pelica na cintura de Rosa Maria Bandeira. Inútil é o canto do galo na madrugada. Inútil é a graça do bêbado no botequim de São Januário numa noite de verão. Inútil é a dança da mendiga ao tom do assobio de um vagabundo, na esquina de Leopoldo Miguez.
Mas estes são momentos rápidos que não temos o privilégio de ver e ouvir todas as horas e todos os dias. Quem de nós não sentiu, alguma vez, no fundo do coração a pontada do desejo de um encontro com a pessoa amiga e clara, de cuja presença temos sede, e que seria para nós pura e boa como um copo d’água no meio do caminho.
Parece que a perda do Paraíso, no fundo foi apenas isto: a perda do direito de viver sempre ao lado das pessoas escolhidas. Todo encontro errado é um perigo e uma desgraça. Eva, por exemplo, não tinha nada que se encontrar com a serpente, cuja envenenada conversa nos tirou o sossego dos dias e das noites, para sempre.
Antigamente, os homens enfrentavam os mares e as tormentas, o deserto e a montanha, para encontrar a coisa ou a pessoa desejada. Foi assim que Jasão cruzou os mares da Grécia, como Colombo atravessou os mares do mundo. A história da humanidade está construída sobre o ímpeto do ser humano no rumo dos encontros certos.
Talvez a nossa tragédia de hoje, desse permanente desencontro com as coisas e as pessoas que mais precisávamos encontrar, se deva à falta de heroísmo do homem moderno. Segundo o poeta, o herói é aquele que tem a coragem do amor. Sem a coragem e sem o amor, estaremos irremediavelmente condenados aos desencontros com o essencial da vida. E aos encontros com o vazio das coisas e das pessoas.
Proust cultivou o encontro intenso com as chamadas pessoas da sociedade. No fundo era um misantropo, pois o que recolheu desses encontros, mais ou menos sujos e inconsequentes, foi a necessidade de descrever a pequenez de seus convivas nos dezessete volumes de seu romance labiríntico. Não é sem razão que Huxley diz que não se lembra de Proust senão como de uma pessoa asmática metida numa banheira de água suja.
Os encontros indesejáveis são isto: a borra da água suja boiando na banheira de corpos inlaváveis. Talvez no fundo só os anacoretas e os monges não sejam misantropos. Eles se recolhem aos seus retiros e aos seus mosteiros tocados pelo amor, o desejo de amor de encontrar apenas aquilo que lhes é importante para a eternidade da vida.
Para mim, chega de desencontros e de encontros indesejáveis. O telefone está tocando. Pode tocar. Não vou atender. No fundo do ser não tenho nada com a vazia palavra de um interlocutor que não solicitei. Parou de tocar. E agora o remorso de não ter atendido. Talvez fosse uma pessoa que estivesse naufragando, e eu fosse a única que poderia salvar. Talvez seja a única pessoa que me possa salvar de meu próprio naufrágio. Talvez tenha sido ela, com sua doce voz matinal, falando de longe, dos países fluviais do meridiano aonde a levaram os desencontros da vida...

Quem foi Gerardo Mello Mourão (1917–2007)
Poeta épico, romancista, ensaísta, jornalista e parlamentar cearense, Gerardo Mello Mourão é uma das figuras mais monumentais — e singulares — da literatura em língua portuguesa no século XX. Dono de uma erudição vertiginosa e de um domínio rigoroso da forma poética, construiu uma trilogia épica central: O País dos Mourões (1963), Peripécia de Gerardo (1972) e Invenção do Mar (1997), obra esta que culminou em elogios de nomes como Ezra Pound, que o considerou um dos raros cultores contemporâneos da verdadeira epopeia.
Sua biografia foi tão dramática quanto as suas narrativas: militante integralista na juventude, foi preso político tanto sob o Estado Novo de Getúlio Vargas (quando chegou a ser condenado à prisão perpétua por suposta espionagem, acusação depois desfeita e anistiada) quanto após o AI-5 em 1968, na ditadura militar. Mais tarde deputado federal e membro da Academia Brasileira de Letras, Mourão transitou pelas cúpulas políticas e pelas redações da imprensa nacional, sem nunca abandonar a postura do lírico exilado no mundo burguês.
Onde encontrar os livros do autor
Por ser um autor praticamente esquecido pelas grandes editoras comerciais nas últimas décadas, grande parte do catálogo de Gerardo Mello Mourão encontra-se fora de catálogo no mercado convencional.
Sebos e Acervos: A quase totalidade de sua produção — incluindo volumes como Invenção do Mar, Rastro de Apolo, O Valete de Espadas, Cânon & Fuga e suas memórias críticas — é encontrada facilmente em sebos especializados por meio da Estante Virtual.
Marketplaces: Exemplares avulsos e edições raras circulam periodicamente em vendedores parceiros na Amazon Brasil e no Mercado Livre.











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