O olhar clínico e o olhar eterno: uma reflexão sobre o envelhecer
- GERSON ZAFALON

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Nota do Editor: O blog Dialéticos tem a honra de publicar, em primeira mão, o ensaio "O olhar clínico e o olhar eterno: uma reflexão sobre o envelhecer", do médico e escritor Gerson Zafalon Martins, uma reflexão sensível que destila, em linguagem poética, uma vida inteira dedicada à medicina e às causas humanistas.
O texto integra a coletânea "A escolha é sua", escrito e organizado pelos oftalmologistas Hamilton Moreira (da clínica Médicos de Olhos S.A.) e André Romano (diretor do Neovista Eye Institute).O lançamento da obra, patrocinado pela clínica Médicos de Olhos S.A., acontecerá nesta sexta-feira, 24 de julho, às 19h, na Capela Santa Maria, em Curitiba. O evento contará com uma inovadora apresentação cênica, unindo teatro e poesia. Convidamos nossos leitores a prestigiarem o evento e a se deliciarem com a profunda sensibilidade desta leitura.
O olhar clínico e o olhar eterno: uma reflexão sobre o envelhecer
Gerson Zafalon Martins
Cronos e Kairós são conceitos gregos antigos para o tempo: Cronos é tempo cronológico, sequencial, medido, quantitativo. Kairós é o momento certo, a oportunidade, o tempo de qualidade, o instante oportuno.
O netinho de 5 anos fixou o olhar no avô - um foco direto, sem as opacidades que o tempo traz - e perguntou:
— Vovô, você tá ficando velhinho, né?
Com uma serenidade que só a presbiopia do tempo permite, o avô confirmou, sim. A resposta da criança foi uma verdadeira expressão de amor e carinho pelo avô, um colírio de realidade:
— Então me aproveite!
O avô abraçou o netinho, tentando conter a desordem do tempo naquele contato, como se quisesse abraçar o tempo e impedir que ele passasse. Naquele momento a pureza da criança corrigiu a miopia espiritual do adulto. O pequeno mestre lembrou ao avô o que o médico e místico Angelus Silesius descreveu como a nossa verdadeira capacidade refrativa:
— Temos dois olhos. Com um, vemos as coisas que no tempo existem e desaparecem. Com o outro, as coisas divinas, eternas, que para sempre permanecem.
Enquanto um olho do avô enxergava a própria finitude e as marcas do tempo em sua pele, o outro via a eternidade manifesta no amor e no frescor daquela criança. O envelhecimento, sob essa ótica, deixa de ser apenas uma contagem regressiva para tornar-se a oportunidade da presença plena.
Para o oftalmologista, o envelhecimento é frequentemente visto pela presbiopia, pela perda da transparência do cristalino ou pela degeneração macular. Mas, para o homem que envelhece, o desafio é manter a acuidade do segundo olho. Enquanto a biologia nos impõe a perda da visão das coisas que “no tempo existem e desaparecem” (Cronos) a maturidade deve nos treinar a ver o que “para sempre permanece” (Kairós).
O “então me aproveite” do neto é um convite para ajustar o foco: deixar de olhar para o declínio das funções orgânicas e passar a enxergar a eternidade no laço do afeto. Após esse ajuste de lente, o avô não viu mais a morte próxima; viu a vida imediata. Só restou ao avô soltar o tempo, guardar o eterno no coração e ir para o quintal jogar bola, exercitando o olhar que nenhuma lente artificial pode substituir: a presença afetiva, forma mais sublime de se viver o agora.
Assim o netinho corrigiu a presbiopia do avô.

Dr. Gerson Zafalon Martins é médico graduado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1971, com especialização em Pneumologia e reconhecida atuação como perito judicial e professor universitário. Sua trajetória é marcada por uma sólida liderança na defesa profissional e na bioética médica:
🛡️ Liderança Estudantil (1968): Presidiu o Diretório Acadêmico Nilo Cairo (DANC). Comandou a entidade no emblemático ano de 1968, enfrentando os rigores e as perseguições da Ditadura Militar. Na época, sua forte atuação em prol da classe estudantil custou-lhe a prisão política. Ainda assim, sua gestão marcou época ao ser pioneira na formalização dos direitos trabalhistas dos funcionários do diretório via CLT.
🩺 CRM-PR: Atuou como conselheiro por mais de duas décadas, exercendo a presidência do Conselho Regional de Medicina do Paraná entre 2007 e 2008.
📜 CFM: Representou o Paraná no Conselho Federal de Medicina por 15 anos (1999 a 2014). Lá, ocupou cargos na diretoria como 2º secretário e 3º vice-presidente, além de se destacar como editor da prestigiada Revista Bioética.
📚 Atuação Literária e Humanista: É autor e mentor de diversas obras no meio médico, como "O médico que não sabia fazer bilu-bilu" e "Jaculatórias, sugestões para o dia a dia do médico". No livro "A escolha é sua", assina o ato de encerramento focado nas reflexões sobre o envelhecimento.










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