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BATISTA DE PILAR, UM POETA DAS RUAS E DOS BARES

Batista de Pilar, poeta curitibano de Santa Isabel do Oeste, viajante dos mares da vida.


O POETA DESESQUINADO

Marise Manoel


O malsofrido Batista de Pilar reaparece a exibir ulcerações. Inventa ângulos seus para embaralhar os leitores e os desafia a dar um passo em direção a suas “vitrines não contempladas”, à sua urbanidade abusada que aponta para a prolongada vida da pedra (da palavra?) a merecer lapidação. Tão embirrante é este poeta.


Reconhecemos nesta reedição o caminhante viageiro que recusa avisos de chegada, pontos de encontro ou de partida, paragens. E, repisando a nota da falência da política literária, escreve em seus próprios ossos versos de anunciada consumição. Batista e sua galeria de sentidos enlutados. Um deles, fantasmagórico, prova o gosto do capim, do barro e das calçadas. Mas foge da morte: “ela foi pro sul e eu fui pro norte”.


Nesta Cartada, divide com o leitor seu patrimônio de sonhos e de rua, para recuperá-lo, sem mercê ou rendição, nas suas populares “desesquinas”.

(Este texto de apresentação do livro a nona cartada, de Batista de Pilar, foi escrito por Marise Manoel, ela também uma poeta).

 

POEMAS DE BATISTA DE PILAR


Batista de Pilar, poeta curitibano de Santa Isabel do Oeste, viajante dos mares da vida.

CARRO-PAPEL-HOMEM

O carro do catador de papel

Desfila na rua colorida

Em um caminhar lento

Catando o papel da vida.


Itinerário sem direção

Em esquinas confusas,

Ruelas escuras

Passando pelos becos do coração

Retornando ao ponto de partida

No esplendor das favelas.


Pára o carro movido

Por combustível humano...

Logo vem o sono do catador

O eterno caminheiro

Da rua do abandono.

 

DE FOGO

O bêbado caminha

Pela Cruz Machado

Sem querer perdeu

A Carlos de Carvalho

 

Batista de Pilar, poeta curitibano de Santa Isabel do Oeste, viajante dos mares da vida.

POEMA A SÃO FRANCISCO

Guardai os passos dos andantes

Que sobre todos os trilhos terrenos andam

 

Protegei as almas serenas

Dos ataques

Das almas nefastas


Que o coração do homem

Seja país sem fronteira

No continente da harmonia

 

Que as ruas contentes de minha cidade

Passem sempre ao lado das praças

Onde pousam pássaros tranquilos

Vindos do céu do conhecimento

 

Cultivai o ensinamento do mestre

E a cartilha do aprendiz

Nos manuais da vida passageira

Com páginas escritas no vento

 

Batista de Pilar, poeta curitibano de Santa Isabel do Oeste, viajante dos mares da vida.

O MUNDO MUDO FALA

O mundo mudou muito

Desde ontem às seis horas da tarde.

 

Meu vizinho comprou um carro

Madalena foi para o convento

Pedro José morreu enforcado.

 

Aumentaram várias tarifas usuais diárias

O rádio transmite futebol

Ainda se fala de política.

 

Vamos Clarice!

Não me olhe com essa cara de ontem.

 

CALENDÁRIO SEM DATA

Este trabalho um dia

Há de ser reconhecido

Pena que talvez

Meus ossos já tenham apodrecido.

 

Marise Manoel é uma escritora e poeta, uma viajante pelos mares da vida. Em uma de suas caminhadas conheceu Batista de Pilar.

Marise Manoel é uma escritora e poeta, uma viajante pelos mares da vida. Em uma de suas caminhadas conheceu Batista de Pilar. Foto by Decio Romano.


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