BATISTA DE PILAR, UM POETA DAS RUAS E DOS BARES
- BATISTA DE PILAR
- há 2 dias
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O POETA DESESQUINADO
Marise Manoel
O malsofrido Batista de Pilar reaparece a exibir ulcerações. Inventa ângulos seus para embaralhar os leitores e os desafia a dar um passo em direção a suas “vitrines não contempladas”, à sua urbanidade abusada que aponta para a prolongada vida da pedra (da palavra?) a merecer lapidação. Tão embirrante é este poeta.
Reconhecemos nesta reedição o caminhante viageiro que recusa avisos de chegada, pontos de encontro ou de partida, paragens. E, repisando a nota da falência da política literária, escreve em seus próprios ossos versos de anunciada consumição. Batista e sua galeria de sentidos enlutados. Um deles, fantasmagórico, prova o gosto do capim, do barro e das calçadas. Mas foge da morte: “ela foi pro sul e eu fui pro norte”.
Nesta Cartada, divide com o leitor seu patrimônio de sonhos e de rua, para recuperá-lo, sem mercê ou rendição, nas suas populares “desesquinas”.
(Este texto de apresentação do livro a nona cartada, de Batista de Pilar, foi escrito por Marise Manoel, ela também uma poeta).
POEMAS DE BATISTA DE PILAR

CARRO-PAPEL-HOMEM
O carro do catador de papel
Desfila na rua colorida
Em um caminhar lento
Catando o papel da vida.
Itinerário sem direção
Em esquinas confusas,
Ruelas escuras
Passando pelos becos do coração
Retornando ao ponto de partida
No esplendor das favelas.
Pára o carro movido
Por combustível humano...
Logo vem o sono do catador
O eterno caminheiro
Da rua do abandono.
DE FOGO
O bêbado caminha
Pela Cruz Machado
Sem querer perdeu
A Carlos de Carvalho

POEMA A SÃO FRANCISCO
Guardai os passos dos andantes
Que sobre todos os trilhos terrenos andam
Protegei as almas serenas
Dos ataques
Das almas nefastas
Que o coração do homem
Seja país sem fronteira
No continente da harmonia
Que as ruas contentes de minha cidade
Passem sempre ao lado das praças
Onde pousam pássaros tranquilos
Vindos do céu do conhecimento
Cultivai o ensinamento do mestre
E a cartilha do aprendiz
Nos manuais da vida passageira
Com páginas escritas no vento

O MUNDO MUDO FALA
O mundo mudou muito
Desde ontem às seis horas da tarde.
Meu vizinho comprou um carro
Madalena foi para o convento
Pedro José morreu enforcado.
Aumentaram várias tarifas usuais diárias
O rádio transmite futebol
Ainda se fala de política.
Vamos Clarice!
Não me olhe com essa cara de ontem.
CALENDÁRIO SEM DATA
Este trabalho um dia
Há de ser reconhecido
Pena que talvez
Meus ossos já tenham apodrecido.

Marise Manoel é uma escritora e poeta, uma viajante pelos mares da vida. Em uma de suas caminhadas conheceu Batista de Pilar. Foto by Decio Romano.










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