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BUQUÊ DE FLORES


A vida pode ser leve, se você aceitar seu lugar no mundo…


Imagem de Free-Photos por Pixabay

Algumas pessoas são tão rigorosas, consigo mesmas e com os outros, que não se permitem a graça e alegria de colher flores. Acreditam firmemente que se trata de uma violência contra a planta. Esta crença, aparentemente, faz parte de uma postura quase estoica de vida que parte do seguinte princípio: interferir o menos possível na vida de qualquer ser vivo.


As pessoas que levam este pensamento longe demais são necessária e bem intencionadamente ecologistas, mais que vegetarianas são veganas e professam uma ética inflexível, quase monástica. Embora admiráveis em sua determinação e postura, sinto um misto de carinho e empatia por elas. Penso que na dureza com que encaram seu compromisso há erro, seja de entendimento, seja de intensidade. E que elas perdem a capacidade de apreciar as belas coisas da vida.


Primeiro, vamos desmistificar alguns conceitos. Colher flores não mata as plantas, assim como colher frutos não as mata. A função primordial da flor é reprodutiva, produzindo novas sementes para assegurar a perpetuação da espécie. São belas e coloridas justamente para atrair seres polinizadores. Se não colhidas, tal como os frutos, irão fenecer e cair por terra. E a vida da planta segue...

Claro, não sejamos cínicos. Há uma interferência. Colher a flor altera a maneira como a flor se reproduz. Mas este ideal de não interferência é impossível. Todo ser vivo interfere na natureza, do maior predador ao mais insignificante líquen que adere a uma pedra. A interferência do ser humano é muito mais poderosa, perigosa e possivelmente nociva, dada à racionalidade, que o empodera e distingue dos demais. Então sim, pregamos uma interferência respeitosa. Não endossamos, por exemplo, o comportamento de alguém que colha flores em uma reserva ambiental, pois - se todos se derem a este direito - haverá dano ao meio ambiente; mas não há nada de mal em comprar flores em um floricultura.


A ideia de respeito deve permear tudo, tanto quanto o bom senso. Você pode derrubar uma árvore, desde que plante outras; você pode comer carne, leite e seus derivados, desde que trate os animais com respeito e evite sofrimento desnecessário. Mas não derrube uma árvore sem um bom propósito. Não pesque um peixe se não for comê-lo ou entregá-lo a quem coma. A não interferência é impossível, tanto na civilização moderna quanto era no tempo das cavernas. Mas devemos entender o ser humano como parte da natureza, não como senhor absoluto dela.


Três leoas coordenam esforços, perseguem e abatem uma gazela; uma frondosa árvore cresce a partir dos nutrientes que retira da terra, sobretudo a partir da matéria orgânica, animais e vegetais decompostos. O poderoso e arrogante ser humano é invadido por um vírus inclemente que o leva à morte. Tudo é natural. É lícito à gazela tentar fugir das garras da leoa, o que muitas vezes ocorre, assim como nos é lícito lutar contra a pandemia que nos assola. Mas é insensato condenar o leão ou imprecar contra Deus por conta do vírus. É um processo natural do qual fazemos parte.


É curioso como muitas pessoas assumem estas posturas radicais sem maiores reflexões. A mesma pessoa que se diz vegetariana ou vegana não hesita em esmagar um mosquito que a pica no pescoço; a mesma pessoa que se recusa a colher flores, come alfaces diariamente. Na minha opinião não há hierarquia para vida. Toda vida tem valor. Apenas é preciso entender o papel de cada vida na natureza, do homem e do leão ao alface e ao vírus.


Alguém me disse que embora sabendo que a não interferência é impossível, buscaria sempre interferir o menos possível, porque, disse ela, podemos viver sem flores. Sim, podemos viver sem flores, tanto quanto podemos viver sem romance, música e poesia. Na minha simplista forma de ver o mundo, o criador não pensou meramente na reprodução das plantas quando criou as flores. Pensou em beleza.



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