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CACHORRÕES


Depois da reforma tributária, começa o jogo político de verdade. Os cachorrões estão na mesa, famintos. O deputado Arthur Lira põe as cartas na mesa.

Imagem de twitter.

O Rei Arthur deu uma tacada de mestre. Mostrou quem manda no pedaço. A Câmara dos Deputados é dele, e a prova está em todos os jornais, que proclamam a aprovação da reforma tributária, aguardada há mais de cinquenta anos (desde que foi implantado o manicômio tributário brasileiro ele pede por retificações). O trator Arthur passou sobre os descontentes, e o PIB nacional soltou foguetes. Alguns recalcitrantes ainda reclamam, mas logo se calarão, pois todos sabem como funciona o jogo político nacional: quem não chora não mama, e os descontentes logo acomodarão seus pleitos aqui e ali. Como dizem os populares, em sua sabedoria, no andar da carroça as abóboras se ajeitam.


Os jornais especulam quem ganhou e quem perdeu, no cenário político, com a aprovação da reforma. Bolsonaro perdeu, Lula ganhou. Tarcísio é o novo queridinho do PIB paulista, Haddad foi vitorioso (agora os farialaimers falam bem dele), etc. O jogo miúdo da política brasiliense a todo vapor.


Alguém comentou que o Rei Arthur, agora que aprovou a pauta econômica, virá com tudo para cima do Governo, com uma vasta pauta de emendas e cargos governamentais. Não haverá governo Lula caso Arthur Lira e seus compadres não estejam saciados. Lula, que é um pragmático, naturalmente fará as concessões necessárias. No início do mandato, com seus companheiros famintos, ele os contentou com as melhores vagas governamentais e os orçamentos mais polpudos, mandando às favas o grande acordo nacional prometido na campanha eleitoral. A realidade agora se impõe. O partido do presidente tem apenas 80 cadeiras na Câmara, e os sonhos petistas do País da Cocanha se derretem. O Rei Arthur tem a faca e quer um bom naco do queijo. A aprovação da reforma tributária deu a ele a confiança do PIB nacional. Ele deixou a posição de um chefete político das Alagoas, e ganhou porte de estadista. Uma reorganização ministerial virá, apesar da voracidade companheira. Lula já se comprometeu. Isso não espanta, afinal, Lula vem do sindicalismo do ABC, e sabe como negociar, seja para o bem ou o mal.


Uma foto emblemática do acordo foi publicada pelo próprio Lula em seu Twitter. Ao seu lado, um pouco atrás, está o deputado Arthur Lira, sorridente. Todos sorriem, agora que a política nativa está voltando ao seu estuário natural.


Noves fora as miudezas da política, o que estamos presenciando é a confirmação de um imperativo constitucional que há anos se definiu: alguns chamam de presidencialismo de coalizão, outros de semiparlamentarismo. Qualquer que seja a denominação, não está na Constituição escrita, a famosa Constituição Cidadã, do velho Ulysses Guimarães. Já no governo anterior, havia um premier de facto, Ciro Nogueira, que na Casa Civil controlava o fluxo governamental, deixando o picadeiro para o presidente arruaceiro e suas loucuras. Esta definição constitucional de facto é o que um velho jurista nazistão (Carl Schmitt) chamava de “decisão política fundamental”. Um belo título a justificar a tomada do poder por Hitler e seus camaradas. Deixando de lado as firulas jurídicas, é o que acontece no Brasil hoje. A decisão política fundamental foi tomada pelos senhores da terra. O poder constituído se estabeleceu no Congresso, e na prática retirou do Poder Executivo suas prerrogativas imperiais, tradição brasileira. Já há alguns anos, o presidente só governa se contar com a confiança do Parlamento. Um mestre hábil no manejo desta política, o ex-presidente Temer, conhecedor dos meandros do Parlamento, assim procedeu e fez aprovar todas as políticas que desejava. Dilma, notoriamente avessa ao diálogo parlamentar, sofreu impeachment. Bolsonaro se dedicava a parlapatices a seus seguidores, enquanto os adultos na sala faziam negócios.


Os cachorrões estão preparados para a disputa. Cartas na mesa, agora começa o jogo verdadeiro.



Leio na Wikipedia (brasileira): “A Cocanha é um país mitológico, popularizado durante a Idade Média. Nesta terra a fartura era infinita. (...) Ali chovem pérolas e diamantes, mas podem chover também raviólis. Em direção ao porto, denominado Porto dos Ociosos, navegam embarcações carregadas de especiarias, mortadelas, toda sorte de embutidos e presuntos. Rios de vinho grego são atravessados por pontes de fatias de melão, lagos de molhos soberbos estão coalhados de polpette e fegatelli. Fornadas permanentes de pão de farinha de trigo abastecem os habitantes do lugar. Aves assadas despencam do céu, direto sobre a mesa, enquanto as árvores cobrem-se de frutos nos doze meses do ano.” Bom apetite.

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