Crônicas Paulistanas: LOURENÇO DIAFÉRIA, UM HERÓI IMPROVÁVEL

LOURENÇO DIAFÉRIA, UM HERÓI IMPROVÁVEL
NOTA DO EDITOR – O blog dialéticos traz uma das maiores crônicas já escritas no Brasil, de Lourenço Diaféria, publicada no dia 1.º de setembro de 1977, na Folha de São Paulo. O site Rubem – Revista da Crônica, editada por Henrique Fendrich, coloca-a na lista das grandes crônicas brasileiras, inscrevendo seu nome entre Rubem Braga, Clarice Lispector, Stanislaw Ponte Preta, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino. Paulistano do Brás, Lourenço Diaféria era um homem simples. O jornalista Boris Casoy o classificou como um “cronista ingênuo” (um elogio, não uma crítica), sem viés político. Mas as elucubrações ingênuas (será?) desta crônica provocaram uma crise política e militar e levaram o autor à prisão. Boa leitura.
Herói. Morto. Nós.
Por Lourenço Diaféria
Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.
O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.
Que nome devo dar a esse homem?
Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói – como o santo – é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.
O herói redime a humanidade à deriva.
Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.
Está morto.
Um belíssimo sargento morto.
E todavia.
Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao Duque de Caxias.
O Duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua.
Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel – onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer – oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.
O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.
No instante em que o sargento – apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher – salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.
Esse sargento não é do grupo do cambalacho.
Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.
É apenas um homem que – como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem – não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.
O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.
Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.
É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.
Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas – como você tirou o menino de catorze anos – mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.
Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.
E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis – tarde demais.

A crônica integra a antologia "Mesmo a noite sem luar tem lua – Crônicas de Lourenço Diaféria", publicada pela Boitempo Editorial. O livro reúne textos emblemáticos que retratam as transformações urbanas e os dilemas políticos e humanos do Brasil dos anos 1970. A obra pode ser adquirida diretamente pelo site da Editora Boitempo, em livrarias virtuais como a Amazon, ou em sebos via Estante Virtual.
Lourenço Diaféria (1933 – 2008) nasceu no bairro do Brás, em São Paulo. Notabilizou-se como um dos maiores cronistas da imprensa brasileira, destacando-se por sua capacidade de observar o cotidiano, as sutilezas da gente comum e os contrastes da cidade com delicadeza, ironia e sensibilidade popular.
Em setembro de 1977, ao publicar na Folha de S.Paulo a crônica em homenagem ao sargento Sílvio Delmar Hollenbach e compará-lo à estátua de Duque de Caxias, foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional e detido na sede da Polícia Federal. Posteriormente absolvido pela Justiça Militar, Diaféria continuou escrevendo para jornais e publicando literatura infantil, crônicas e ensaios afetivos sobre São Paulo e o futebol.
Livros Publicados:
Um Gato na Terra do Tamborim (1976)
Circo dos Cavalões (1978)
A Morte sem Colete (1983)
O Empinador de Estrela (1984)
O Invisível Cavalo Voador (1990)
Coração Corinthiano: Os Grandes Momentos da Fiel (1992)
O Imitador de Gato e Outras Crônicas (2000)
Mesmo a Noite Sem Luar Tem Lua (Boitempo Editorial)
Onde encontrar:
Por se tratarem de obras clássicas da crônica e literatura brasileira, a maior parte de sua bibliografia pode ser encontrada na Estante Virtual (com acervos de sebos do país inteiro), além de edições disponíveis na Amazon e no catálogo da Boitempo.











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