top of page

Manual Paulistano de Boas Maneiras

Fotografia antiga em preto e branco de um motorista francês da Belle Époque, usando quepe e casaco formal, sentado na boleia aberta de um automóvel antigo enquanto lê concentrado o jornal de papel L'Auto, em uma rua de Paris por volta de 1900.
Chauffeur lendo o jornal em Paris (c. 1900). Foto: Galerie Roger-Viollet. Qualquer semelhança com a sofisticada escola de boas maneiras dos táxis paulistanos é mero anacronismo literário.

Manual Paulistano de Boas Maneiras


Por Hatsuo Fukuda


Família que viaja unida, permanece unida. Seguindo este sábio preceito, lá foi a família para o convescote anual a São Paulo. Em Congonhas pegamos um táxi para o Blue Tree na Avenida Paulista. Minha mulher ficara felicíssima em saber que o hotel estava fazendo uma promoção para o Dia da Parada Gay, que coincidiu com a nossa viagem. Dessa forma ela não teria que arrumar um hotel nas proximidades do Largo do Arouche, onde prefiro me hospedar.


Adoro o Largo do Arouche e a Praça da República. Ótimos hotéis, fina vizinhança, fabulosa vida noturna – é de embasbacar curitibocas provincianos – tudo o que um caminhante curitibano distraído gosta. Principalmente se ele não tiver celular e carteira, como é o meu caso.


O motorista de táxi, como todo motorista de táxi paulistano, era um homem fino e educado. Vestia-se como um distinto cavalheiro, de terno e gravata. Camisa branca, limpa, brilhante, impecável, como deve ser. Uma barriguinha, natural em quem dirige durante o dia todo e não tem tempo para frequentar as mais finas academias.


Treinado na escola paulistana de bons modos (é mantido pela prefeitura, segundo me dizem), imediatamente estabelece a comunicação. “Somos de Curitiba”, respondo a sua pergunta.


- Ótima cidade. Maravilhosa cidade. Parabéns. O prefeito é o Jaime Lerner, dizem que é muito bom. Pena que seja judeu, mas ninguém é perfeito. Curitiba só tem um defeito, infelizmente. Não tem um Paulo Maluf.”


Distraído, olhando as barraquinhas de homeless debaixo dos viadutos, permaneci em silêncio. Percebi, pelos ouvidos da nuca, minha mulher gargalhando a bandeiras despregadas. Em silêncio e impassível, claro. Ela é curitibana, e como se sabe, curitibano não fala com estranhos. Eu sou um caboclo de Catanduva, e sempre disposto a conversar com meus conterrâneos paulistas. Meu filho, ocupado com o celular, nada ouvia, imerso em sua felicidade Matrix.


Passamos pelo Viaduto do Chá.


- Está vendo este viaduto? Maravilhoso, não acha? Obra de Paulo Maluf. Ele foi um excelente prefeito, como pode ver.


Entramos no Túnel Ayrton Senna. Enorme, mas nós curitibocas, temos o túnel da Galeria Júlio Moreira. Não me fez inveja. O distinto cavalheiro pontuou, treinado como era nas artes da recepção aos turistas:


- Obra de Paulo Maluf.


Eu ouvia, caboclo embasbacado com as maravilhas urbanísticas paulistanas. E me limitava a sorrir como um tolo e entoar expletivos, admirado pela imensidão do gênio empreendedor do prefeito Paulo Maluf. Avenidas, viadutos, túneis, edifícios grandes e pequenos. Obras de Maluf.


- Que homem genial! Não à toa São Paulo é a locomotiva que carrega um comboio de Estados inúteis! Graças a Paulo Maluf. Não é verdade, meu caro senhor?


O motorista, homem sensível e treinado na fina arte de recepção a turistas (dizem que esta escola de boas maneiras é mantida pela Prefeitura de São Paulo), incomodou-se com as minhas respostas lacônicas. Eu, como vim de um cafezal catanduvense, não tive oportunidade de frequentar a escola de boas maneiras de Marcelino de Carvalho (a fina flor da boa sociedade paulista), e quase não falei (curitibano não fala com estranhos, e eu sou curitibano de adoção). Sou um péssimo conversador, infelizmente.


Mas ele persistiu, mudando de assunto.


- O senhor sabe quem é o jovem mais rico do Brasil?


A pergunta me surpreendeu. Desculpei-me pela ignorância.


- Saiba que o jovem mais rico do Brasil é o Lulinha, filho do Lula.


Ele me olhou pelo canto dos olhos, notou meu ar obtuso e arrematou, com um ar de desprezo:


- O senhor precisa ler mais, meu caro.




Caricatura colorida do editor Hatsuo Fukuda, desenhada pelo cartunista Paixão. Ele é representado com a cabeça grande, usando óculos escuros pretos, boné branco e paletó escuro sobre camisa clara. Ele está sentado em uma poltrona clássica de couro marrom, segurando um livro aberto diante de uma grande estante cheia de livros ao fundo.
Hatsuo Fukuda leu seu último livro, O Patinho Feio, no Jardim de Infância do Ginásio Estadual Barão do Rio Branco, que fica na Praça Roosevelt, em Catanduva. Hoje em dia aprende finas maneiras nas redes sociais.

1 comentário


Convidado:
há 5 minutos

Belo texto!

Curtir
bottom of page