O Avesso da Luz

Julio Covello fotografa no escuro. Seu enquadramento recusa a concessão de clarear a cena para explicar o espetáculo: prefere ignorar o mundo em volta para que restem apenas luz e sombra. Na montagem de Paixão de Cristo, em 1986, a tempestade deixa de ser imprevisto e vira pura atmosfera cênica sob o contraluz.
O que se vê abaixo não é crônica de celebridades, mas o instante exato em que o som e o gesto se tornam espanto. (Editor)

"O berimbau é a minha voz."
No Rio de Janeiro de 1981, Naná Vasconcelos e a madeira curvada habitam o mesmo silêncio antes do toque.

O transe de Airto Moreira em 1981: o ritmo como emboscada que espreita por trás dos tambores.

A lâmina do sopro partindo a escuridão ao meio: o trombone de Raul de Souza rasga o palco carioca de 1981.

"TV-Glotzer."
A ópera punk de Nina Hagen em 1985 dispensa meios-tons: um corte seco que funciona como choque elétrico.

"Equal rights and justice."
Em São Paulo, 1980, Peter Tosh recusa o entretenimento fácil e ergue o corpo como trincheira esculpida na noite.
No final, não é sobre o pop star que cantava ou tocava, mas sobre a coragem de Julio Covello em deixar o escuro respirar.
O Olhar por Trás da Lente

Julio Covello é repórter fotográfico e documentarista. Sua obra se constrói na película analógica, no testemunho direto e no domínio radical do contraste entre luz e sombra. Nesta foto, o artista em Havana, Cuba.











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