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CURITIBA É UMA CIDADE TRISTE

Enxergando por trás da fachada...

Imagem de Leroy Skalstad por Pixabay


Se você é um curitibano que mora no Batel ou no Ahú, almoça todo final de semana em Santa Felicidade, frequenta o Clube Curitibano ou o Santa Mônica, não faz ideia de onde ficam o Tatuquara e o Ganchinho, e votou no Greca porque era o único candidato que você conhecia, então você provavelmente desconhece a realidade da capital paranaense.


A região central tem praticamente um gari em cada quadra, mas afaste-se um pouquinho do centro e irá encontrar sim sujeira, lixo, falta de calçadas, mato forçando os pedestres a andarem na rua, e ausência total de acabamento urbano e capricho.


Passe apenas um dia andando no centrão e você verá muitos moradores de rua (Curitiba tem hoje cerca de 2.300 pessoas em situação de rua). Aí você pensa: “Ah, cidade grande é assim, é normal!”. Você mudará rapidamente de ideia frequentando o centro diariamente.


Toda rua você cruza com várias pessoas mendigando, em vários níveis de lucidez e higiene. Cada esquina que você vira tem uma pessoa deitada na rua. Você passa e já não sabe mais se a pessoa está dormindo, desmaiada, ou simplesmente morta. Não faz ideia se ela está ali há uma hora, oito horas, ou desde ontem. Às vezes estão deitadas no molhado, outras vezes sob Sol a pino. Não raro, pombos em volta de seus rostos, disputando as sobras de arroz esparramado de suas últimas marmitas doadas. Todas as praças têm seus bancos e sombras tomadas pelos moradores de rua. Bêbados e drogados te abordam constantemente.


Verás muitas crianças vendendo balas para ganharem uns trocados. Muita gente tentando te vender artesanato de latinha ou de arame retorcido. Outros sentados num banquinho arranhando um violão, pedindo dinheiro pra ração do cachorro que o acompanha. Muitas pessoas em subempregos, passando o dia inteiro nas ruas entregando folhetos, gritando os pratos do dia dos restaurantes, oferecendo-lhe serviços de óticas, engraxates, etc. Pessoas que você sabe que apenas sobrevivem, não têm um pingo de qualidade de vida. Muitos ambulantes tentando ganhar um dinheirinho vendendo máscaras, panos de prato, alho, quiabo, frutas da época, dentre outros itens, enquanto correm dos fiscais da prefeitura.


Carrinheiros, puxando o pesado carrinho rua acima, rua abaixo, faça chuva ou faça sol. Começam muito mais cedo do que o seu horário de entrada no serviço, e terminam muito depois de você já ter ido pra casa. Ganham o suficiente para sobreviver, nada mais. Muitos poderiam ser seu avô. Algumas são mulheres, poderiam ser sua mãe. Muitos calçam apenas chinelos. Outros têm que levar os filhos. Alguns passam o dia inteiro apenas com a companhia de seu cão. Isso é vida?


Você sabe que essas pessoas jamais desfrutarão de um espetáculo no Guaíra. Nunca entrarão na adega da Família Scopel para escolher um bom vinho. Não sentarão para ouvir um álbum do Pink Floyd ou a suíte quebra-nozes, de Tchaikovsky. Sequer sabem do que se trata. Nunca viajarão para conhecer novos e belos lugares mundo afora. Mundo este que, teoricamente, é tão delas quanto de qualquer um.


Enfim, a cidade já não é a mesma que encantava seus ingênuos olhos. Você se condói por todas essas pessoas. Elas lhe entristecem. E você nunca supera, pois a próxima aparece antes de você ter esquecido da anterior. Todo dia, o dia todo.


PS: Se você pensou: “Ah, mas é assim em todo lugar...”, então respondo: Se é assim em todo lugar, não teria algo errado? Por que ninguém faz nada pra mudar essa situação? Cássia Eller é que tinha razão. O mundo está ao contrário e ninguém reparou.

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