Darcy Ribeiro: A Última Aula

Nota do Editor: Em diálogo com as reminiscências de Vitório Sorotiuk recentemente publicadas no dialeticos.com por ocasião do comício de Lula em Curitiba, resgatamos este memorial afetivo e político de autoria de Tito Guimarães Filho — diretor de redação do Diário de Minas. No texto, entrecortado pelo ritmo apaixonado da convivência direta, Tito rememora os passos, as polêmicas e a generosidade vulcânica de Darcy Ribeiro, mestre de um Brasil que ainda teima em nascer. O texto encerra-se com o testemunho de Cristovam Buarque sobre as horas derradeiras do educador.
Darcy Ribeiro: A Última Aula
Por Tito Guimarães Filho
Para todos aqueles que lutaram ao lado de Darcy Ribeiro, para aqueles que foram condenados (gloriosamente, justamente, condenados) ao lado de Darcy Ribeiro, os contemporâneos deste brasileiro têm a obrigação (a honra) de confessarem: conheci um brasileiro e tenho o orgulho de fazer parte de um time de derrotados com a coragem de cerrar fileiras na batalha de um mestre-escola a nos ensinar o valor da solidariedade, da amizade e do amor.
Ele nos mostrou nós mesmos. Indicou caminhos? Mais perguntou, a mostrar a raiz (foi exatamente isto, radical) de nossas mazelas, da falta de caráter de nossas elites. Perguntou sempre, exaustivamente, porque queria respostas. Enfim, era sempre a mesma e instigante pergunta:
Por que o Brasil não deu certo?
Até agora.
As primeiras respostas, ele as alcançaria com a consciência histórica da realidade. Enfim, não deu certo por quê?
“O que está aí está mostrado. É a fome, a pobreza, o analfabetismo, a exploração estúpida com o consumo de vidas, de homens e de gentes pelo capitalismo canibal.”
A realidade identificada de olhos bem abertos aponta todas as mazelas que devem, com a urgência do agora, ser extirpadas. É o mestre a dar lições como criador de uma universidade (criou duas) para titular doutores em sabedorias — a dos pajés, por exemplo; a dos mestres seleiros, por exemplo, que levou de Montes Claros para a UnB.*
Criador de uma escola que alimenta, sabedor de que devia defender o básico: ler, escrever, contar e comer. Saber comer tão fundamental quanto as leituras e a matemática.
No Senado desta República, dialogou não apenas com os seus pares (destes, ele puxava as orelhas). “Indisciplinados, corrompidos pelo triste destino de serem políticos construídos pelo barro da corrupção.” Dialogou mais com o seu povo, e o nosso senador escrevia cartas ao povo brasileiro ao mesmo tempo em que concluía O Povo Brasileiro.
Um furacão passou por Minas
O objetivo aqui é registrar a passagem do antropólogo e professor Darcy Ribeiro por Minas Gerais, em um período em que ele foi governo: março a setembro de 1987.
Período em que criou polêmicas:
O caso do Aço x Cimento;
O patriarcado mineiro e a UDN;
Os intelectuais e o eruditismo: o discurso poético de parlamentares e a educação, etc.
— Darcy não é mineiro? Não há certeza.
— Darcy não é brasileiro? Não há certeza.
— Foi apenas um menino. Na realidade, um moleque. Um moleque que quis ser gente, metido a besta e que carregou Montes Claros na cacunda a vida inteira. Ele saiu de Montes Claros, mas Montes Claros nunca saiu dele e o perseguiu por todos os cantos do mundo, seguindo-o nos calcanhares, nos cárceres e nos exílios.
Este flagrante é da passagem política por Belo Horizonte por sete meses. Tempo em que conviveu no poder do Estado de Minas Gerais com Alberto Sena Batista e com Carlos Olavo da Cunha Pereira.
Vulcão não tem em Minas Gerais. Na região de Diamantina, área de intensa pesquisa e exploração mineral, o máximo a que se chega na descrição seria de uma área de fundo de mar. Ali teria sido, outrora, um grande mar oceano. Talvez na região de Araxá se encontre aquilo que seriam marcas de um vulcão extinto.
Minas não teve um furacão. Jamais ocorreu algo parecido em Minas. Não há registro nestes mais de três séculos. Tufão, totalmente improvável. Não há registros.
Todos os registros da presença de um vulcão e até mesmo de um furacão, fenômenos da natureza, estão todos apenas associados a um homem: Darcy Ribeiro.
Como um furacão, sua passagem foi rápida, violenta, deixou marcas profundas e não há como apagá-la da memória dos mineiros. Os mineiros quase o resgataram para sua Minas, mas Darcy escapou e, como um furacão, desapareceu, mais uma vez, em nossas almas.
No final da década de 80, Carlos Olavo e Alberto Sena trabalharam com Darcy Ribeiro no edifício do BDMG. Uma época de convivência intensa. Darcy morava na rua Espírito Santo e escrevia, ditando, o Migo, em que resgata os nossos sonhos de “Colosso” e de grandeza numa história de lutas e de muitas derrotas.
Em 1989, com Carlos Olavo na direção de um velho carro, um Passat (ele tem boa memória e este carro fez história também), Darcy, sua secretária Naná — mulher de um jornalista carioca e ela jornalista também — e eu percorremos o Vale do Aço e o Vale do Rio Doce na campanha de Brizola presidente em 1989, contra Collor e Lula.
Este episódio, um farto material para reflexões políticas (e eleitorais), daria para o Carlos Olavo escrever, aos 90 anos, “Na saga dos anos 80”.
Paixão é síntese
Toda a obra de Darcy, toda a sua vida, tem uma palavra-síntese. Esta palavra é paixão.
Grande sempre foi sua alegria e sua imensa paixão.
Se na paixão houve uma que se sobressaiu, esta foi, sem dúvida, a sua paixão pelo Brasil, isto é, pelo povo brasileiro.
Uma paixão cultivada, uma paixão racional, uma paixão extremamente consciente. Ele sabia em que terreno pisava. Nenhuma ilusão.
Para um homem com a sua inteligência e erudição, ele sabia que, entre as muitas razões que davam sustentação à sua “estranha loucura”, estava o Brasil que ele conhecia e que ele odiava — o Brasil falso, o Brasil desigual, o Brasil da elite corrupta e sanguinária —, mas estava também um outro Brasil, o verdadeiro Brasil. Só que ele sabia que este Brasil era um país sonhado, um país imaginado, uma imagem.
Daquele Brasil falso, daquele Brasil desigual, daquele Brasil que era uma farsa, Darcy extraía o povo e apontava para o seu povo alguns caminhos, como o mais aberto de todos: a educação.
E o seu exemplo, a fé inesgotável nas pessoas, o carinho e a alegria, o continuar, o resistir, a luta permanente e contínua, o nunca desistir. Um homem imbatível — ele quer o seu povo assim.
Darcy continuaria a criar este país (a imaginar este país) mesmo quando distante dele, vivendo os dias de exílio, proibido de voltar.
De volta, seria exuberante em sua produção e da sua vida brotariam muitas palavras, muitos livros, escolas e inúmeros exemplos para aqueles que queiram algum dia ser homens públicos e que acreditam que é possível forjar as bases de um verdadeiro país e de uma sociedade que elimine, de uma vez por todas, não apenas a desigualdade, mas a mais sórdida das explorações — sustentada pela imposição de uma linguagem sofisticada e suja, uma linguagem econômica e embrutecedora, uma linguagem de servos e de marionetes.
Ninguém amou mais o Brasil e ninguém revelou mais o Brasil aos brasileiros do que Darcy Ribeiro.
O Brasil que ele amou não existia, existia apenas em sua imaginação — ele amava e muito o seu povo, o povo brasileiro, e odiava a sua elite e todos aqueles que traem, permanentemente, este povo.
O Brasil que ele revelava era o Brasil da injustiça, da desigualdade e da violência, o país real com todos os seus males, o país que não dá certo, que não dará certo e que terá que desaparecer do mapa.
Há um país a ser derrotado e há um país a ser construído.
O que “existe” não vale nada, não vale um tostão furado.
O irreverente e o irônico Darcy Ribeiro
Da Prudente de Morais, pegamos a Donato da Fonseca. Darcy Ribeiro iria gravar um programa eleitoral para a campanha de prefeito de Belo Horizonte em apoio ao candidato do Partido Socialista. Darcy já não era mais secretário de Estado de Minas e voltava para cumprir um compromisso com os seus companheiros, que queriam a sua candidatura a prefeito como criação de uma base para a campanha presidencial de Leonel Brizola em 1989. Era 1988.
No primeiro quarteirão da Donato da Fonseca, Darcy perguntou para um menino de 11 anos se ele sabia quem era Donato da Fonseca.
A partir daí, Darcy discorreu sobre o político e, conquistada a atenção do menino, desenvolveu uma história sobre as opções de todos os cidadãos que se preocupavam com a vida da cidade e com a vida dos nossos índios.
Ele e o menino caminharam até a porta da produtora. Continuaram conversando. Os dois ficaram na porta e nós entramos. Quando chegou, alguém perguntou:
— Darcy, quem foi Donato da Fonseca?
— Não sei. Um bom diálogo começa com uma pergunta e com a nossa ignorância. Donato da Fonseca foi o gancho para a conversa. Só. Funcionou. Falei para ele sobre a importância da pergunta; despertada a curiosidade, ele escarafunchou minha vida com os índios.
— Donato da Fonseca foi um dos fundadores da Faculdade Livre de Direito, em 1892 — disse Celso Araújo, proprietário da produtora.

A última aula
Em tributo a Darcy Ribeiro no Senado Federal, Cristovam Buarque resgatou as horas derradeiras do mestre:
“Darcy Ribeiro lutou até o fim. Essa luta tem um dado que talvez poucos conheçam. Creio que tenha sido numa sexta-feira. Telefonei ao Hospital Sarah Kubitschek, onde ele estava, e marcamos para conversar na segunda-feira, na casa dele, de tão otimista que ele estava.
Naquele dia, uma sexta-feira, Darcy Ribeiro disse a uma grande profissional do Hospital Sarah Kubitschek, a Dra. Lúcia — Lucinha, como ele a chamava:
‘Eu preciso desesperadamente dar uma aula, mas eu quero dar aula a uma criança, me arranja uma criança’.
E a doutora Lucinha levou o seu filho Felipe, que tinha 10 anos. Darcy Ribeiro deu uma aula de Antropologia para o menino.
E, nessa aula — ela lembra e o menino nunca vai esquecer —, entre as coisas para mostrar o que é uma sociedade, ele explicou por que é preciso fazer uma universidade e um sambódromo, porque um é a cultura da elite e o outro é a cultura do povo.
E esse casamento, ele dizia a um menino de 10 anos, é aquilo que precisamos fazer no Brasil.
Ele terminou a aula, tomou banho, barbeou-se, como me disseram, colocou perfume — porque era vaidoso, como Vera Brant deve saber —, deitou-se, entrou em coma e morreu poucas horas depois.
O homem que fez tanta coisa morreu como professor, por opção dele. Morreu como professor de crianças, por opção dele. E o que parece um rebaixamento — professor de criança —, na verdade, é a elevação máxima que ele percebeu, certamente inconsciente, a elevação máxima de quem está na véspera de entrar para a História, porque ele foi um político da História, não do poder.”
* Nota sobre os seleiros de Montes Claros: José Paraíso (casado com Belormes) e João Par ou Ímpar (croupier) foram os dois seleiros levados por Darcy de Montes Claros para a UnB. Foram também eles que resgataram Darcy Ribeiro e Waldir Pires do esconderijo em Brasília e os levaram ao aeroporto rumo ao exílio no Uruguai, a bordo do avião do deputado Rubens Paiva.

Tito Guimarães Filho é jornalista e diretor de redação do Diário de Minas.











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