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O barulho dos mosqueteiros: a Curitiba de 1982 e a Boca Maldita de 2026

há 17 horas
4 min de leitura
Fotografia histórica em preto e branco de 1982 no calçadão da Rua XV em Curitiba, mostrando Vitório Sorotiuk, Luiz Inácio Lula da Silva com camiseta do PT, Edésio Passos e companheiros liderando caminhada com faixas ao fundo.
Curitiba, 1982. Da esquerda para a direita: Vitório Sorotiuk, Luiz Inácio Lula da Silva, Edésio Passos e Manoel Izaias de Santana no calçadão da Rua XV de Novembro. (Foto: arquivo de Vitorio Sorotiuk)

Os convictos e os curiosos


Por Vitório Sorotiuk

  

Um pouco da história dessa foto de 1982: Vitório Sorotiuk, Luis Inácio Lula da Silva, Edésio Passos e Manoel Izaias de Santana à frente. Atrás, Ivo Pugnaloni e outros líderes sindicais e de bairros.  


Tínhamos que realizar uma caminhada pela rua XV com o Presidente do PT, Luis Inácio Lula da Silva. Nós implantávamos o PT em Curitiba e no Paraná remando contra a maré. O nosso movimento sindical não tinha pujança de São Paulo, Rio ou Minas. Contávamos mais com o movimento de bairros, grande número das pessoas recém-vindas do interior, e com parte de intelectuais e estudantes.  


Se descêssemos a Rua XV sem um fato mais chamativo passaríamos despercebidos, mesmo com Lula, que hoje, onde vai, está rodeado de povo. À época em Curitiba éramos só um punhado de seguidores.  


Nos tempos do movimento estudantil, juntamente com Mauro Goulart, havia estudado o livro Mistificação das Massas pela Propaganda Política, de Serge Tchakotine, traduzida do francês por Miguel Arraes e publicado pela Ed. Civilização Brasileira. Obra fundada na teoria dos reflexos condicionados de Pavlov, descrevia a luta pela propaganda contra o nazismo.  


Pois utilizamos os ensinamentos e fiz o seguinte: contratei seis jovens da fanfarra do CEFET e colocamos a camiseta do PT neles. Iam à frente com a caixa, corneta e outros instrumentos fazendo o chamado. O povo ia se somando, mesmo os que estavam em ruas secundárias vinham, por curiosidade, ver o que acontecia.  


Mas também demos a missão a outro grupo de 6 estudantes. Picaram jornais e subiam nos prédios localizados em nosso trajeto. Quando íamos chegando, com o barulho de nossa banda de seis mosqueteiros, caia do alto o papel picado.  


Há que se aprender com a natureza. A galinha bota o ovo e cacareja. Por isso o ovo é tão apreciado: porque a galinha cacareja e o ovo tem altas qualidades nutritivas.  


Pela coragem de militantes em todo o país, com um homem de um dom excepcional de agregar pessoas, foi possível construir o PT e chegar à Presidência da República por três mandatos e, inegavelmente, todos se sentem construtores de um novo país: os curiosos e os convictos.  



Ensaio Visual: Da Resistência Boêmia às Telas Digitais


Foto histórica em preto e branco de Luiz Inácio Lula da Silva jovem no balcão do Bar Bife Sujo em Curitiba, conversando com companheiros ao redor de garrafas de cerveja.
O início de tudo: conversa de balcão e cerveja no tradicional Bar Bife Sujo, quartel-general afetivo e político da esquerda curitibana.

Parede verde com diversos quadros e fotografias históricas emolduradas no Bar Bife Sujo em Curitiba, registrando encontros políticos e culturais do Paraná.

  

A memória nas paredes: a galeria de fotos do Bife Sujo registra os encontros históricos e as figuras que marcaram a oposição paranaense.  
Fotografia de comício antigo com tonalidade sépia mostrando Luiz Inácio Lula da Silva discursando ao lado do advogado e constituinte Edésio Passos e de outras lideranças em palanque ao ar livre.
Lula e Edésio Passos em comício histórico: a parceria que estruturou as primeiras bases sindicais e jurídicas da esquerda no Paraná.


12 de Setembro: O Encontro com o Tempo


Vitório Sorotiuk sorrindo em primeiro plano, usando boina escura e jaqueta, diante de multidão reunida no calçadão da Boca Maldita em Curitiba.

  

Quatro décadas depois: Vitório Sorotiuk, de boina, logo cedo, acompanha a concentração popular na Boca Maldita em 12 de setembro.  
O advogado Wilson Ramos Filho (Xixo) sorrindo na Rua XV de Novembro em Curitiba, vestindo camisa vermelha de linho e fazendo o gesto do L com a mão direita.
O advogado Wilson Ramos Filho (Xixo), no calçadão da Rua XV: presença e engajamento no comício de Lula em Curitiba.  

Visão da plateia na Boca Maldita em Curitiba, com diversas mãos erguendo celulares para filmar e fotografar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursando ao microfone.

A Boca Maldita em 2026: onde antes ecoavam apenas seis instrumentos escolares para chamar a atenção, hoje a fala de Lula é enquadrada por milhares de lentes e telas simultâneas.
Luiz Inácio Lula da Silva no palanque da Boca Maldita fazendo o sinal de vitória com os dedos ao microfone, acompanhado por Dr. Rosinha e Gleisi Hoffmann ao lado.
No palco da Boca Maldita: Lula faz o sinal da vitória ao microfone, acompanhado por Dr. Rosinha e Gleisi Hoffmann.


Quem é quem: os pioneiros e a continuidade

  • Vitório Sorotiuk: Advogado ambientalista, ex-líder estudantil, ex-preso político e um dos principais fundadores do PT no Paraná. Foi secretário de Estado do Meio Ambiente e é uma das vozes históricas da esquerda e dos direitos humanos no Estado.

  • Edésio Passos (1939–2016): Advogado trabalhista de projeção nacional, jornalista, escritor e cofundador do PT paranaense. Teve papel central na assessoria jurídica ao movimento sindical durante a redemocratização, foi deputado constituinte e diretor administrativo de Itaipu Binacional.

  • Manoel Izaias de Santana: Liderança sindical e operária, figura de proa na articulação dos movimentos de base e das pastorais operárias na fundação partidária em Curitiba.

  • Wilson Ramos Filho (Xixo): Doutor e professor de Direito do Trabalho na UFPR, advogado trabalhista e militante histórico. Foi sócio de Edésio Passos — tornando-se um dos herdeiros e continuadores da sua banca e da sua tradição na advocacia operária — e um dos fundadores, com Mauro Auache e Miriam Gonçalves, do Declatra - escritório de Defesa da Classe Trabalhadora - e teve destacada atuação jurídica nos momentos decisivos da militância paranaense.



Nota do Editor


No último 12 de setembro, a Boca Maldita voltou a ser palco de Luiz Inácio Lula da Silva em mais uma passagem emblemática por Curitiba. Mas quem observava o mar de smartphones disputando cada enquadramento do presidente talvez não medisse a distância histórica percorrida até ali.  

Quarenta e quatro anos antes, como rememora com graça e precisão Vitório Sorotiuk, foi preciso recorrer aos reflexos condicionados de Pavlov, a uma fanfarra improvisada do CEFET e a quilos de papel picado para que a cidade percebesse aquele punhado de pioneiros que desciam a Rua XV.  

Este fotoensaio celebra essa travessia. Ela está viva nos quadros das paredes do Bar Bife Sujo, na presença serena do próprio Vitório entre o povo e na figura de companheiros de jornada como o advogado Wilson Ramos Filho (Xixo) — um dos herdeiros e continuadores da banca e das lutas sindicais abertas pelo saudoso Edésio Passos.


Entre os curiosos atraídos pelo barulho em 1982 e os milhares de convictos reunidos em 2026, a história paranaense segue sendo escrita no mesmo chão de petit-pavé.

Hatsuo Fukuda

Editor de dialeticos.com

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