O barulho dos mosqueteiros: a Curitiba de 1982 e a Boca Maldita de 2026

Os convictos e os curiosos
Por Vitório Sorotiuk
Um pouco da história dessa foto de 1982: Vitório Sorotiuk, Luis Inácio Lula da Silva, Edésio Passos e Manoel Izaias de Santana à frente. Atrás, Ivo Pugnaloni e outros líderes sindicais e de bairros.
Tínhamos que realizar uma caminhada pela rua XV com o Presidente do PT, Luis Inácio Lula da Silva. Nós implantávamos o PT em Curitiba e no Paraná remando contra a maré. O nosso movimento sindical não tinha pujança de São Paulo, Rio ou Minas. Contávamos mais com o movimento de bairros, grande número das pessoas recém-vindas do interior, e com parte de intelectuais e estudantes.
Se descêssemos a Rua XV sem um fato mais chamativo passaríamos despercebidos, mesmo com Lula, que hoje, onde vai, está rodeado de povo. À época em Curitiba éramos só um punhado de seguidores.
Nos tempos do movimento estudantil, juntamente com Mauro Goulart, havia estudado o livro Mistificação das Massas pela Propaganda Política, de Serge Tchakotine, traduzida do francês por Miguel Arraes e publicado pela Ed. Civilização Brasileira. Obra fundada na teoria dos reflexos condicionados de Pavlov, descrevia a luta pela propaganda contra o nazismo.
Pois utilizamos os ensinamentos e fiz o seguinte: contratei seis jovens da fanfarra do CEFET e colocamos a camiseta do PT neles. Iam à frente com a caixa, corneta e outros instrumentos fazendo o chamado. O povo ia se somando, mesmo os que estavam em ruas secundárias vinham, por curiosidade, ver o que acontecia.
Mas também demos a missão a outro grupo de 6 estudantes. Picaram jornais e subiam nos prédios localizados em nosso trajeto. Quando íamos chegando, com o barulho de nossa banda de seis mosqueteiros, caia do alto o papel picado.
Há que se aprender com a natureza. A galinha bota o ovo e cacareja. Por isso o ovo é tão apreciado: porque a galinha cacareja e o ovo tem altas qualidades nutritivas.
Pela coragem de militantes em todo o país, com um homem de um dom excepcional de agregar pessoas, foi possível construir o PT e chegar à Presidência da República por três mandatos e, inegavelmente, todos se sentem construtores de um novo país: os curiosos e os convictos.
Ensaio Visual: Da Resistência Boêmia às Telas Digitais

O início de tudo: conversa de balcão e cerveja no tradicional Bar Bife Sujo, quartel-general afetivo e político da esquerda curitibana.

A memória nas paredes: a galeria de fotos do Bife Sujo registra os encontros históricos e as figuras que marcaram a oposição paranaense.

Lula e Edésio Passos em comício histórico: a parceria que estruturou as primeiras bases sindicais e jurídicas da esquerda no Paraná.
12 de Setembro: O Encontro com o Tempo

Quatro décadas depois: Vitório Sorotiuk, de boina, logo cedo, acompanha a concentração popular na Boca Maldita em 12 de setembro.

O advogado Wilson Ramos Filho (Xixo), no calçadão da Rua XV: presença e engajamento no comício de Lula em Curitiba.

A Boca Maldita em 2026: onde antes ecoavam apenas seis instrumentos escolares para chamar a atenção, hoje a fala de Lula é enquadrada por milhares de lentes e telas simultâneas.

No palco da Boca Maldita: Lula faz o sinal da vitória ao microfone, acompanhado por Dr. Rosinha e Gleisi Hoffmann.
Quem é quem: os pioneiros e a continuidade
Vitório Sorotiuk: Advogado ambientalista, ex-líder estudantil, ex-preso político e um dos principais fundadores do PT no Paraná. Foi secretário de Estado do Meio Ambiente e é uma das vozes históricas da esquerda e dos direitos humanos no Estado.
Edésio Passos (1939–2016): Advogado trabalhista de projeção nacional, jornalista, escritor e cofundador do PT paranaense. Teve papel central na assessoria jurídica ao movimento sindical durante a redemocratização, foi deputado constituinte e diretor administrativo de Itaipu Binacional.
Manoel Izaias de Santana: Liderança sindical e operária, figura de proa na articulação dos movimentos de base e das pastorais operárias na fundação partidária em Curitiba.
Wilson Ramos Filho (Xixo): Doutor e professor de Direito do Trabalho na UFPR, advogado trabalhista e militante histórico. Foi sócio de Edésio Passos — tornando-se um dos herdeiros e continuadores da sua banca e da sua tradição na advocacia operária — e um dos fundadores, com Mauro Auache e Miriam Gonçalves, do Declatra - escritório de Defesa da Classe Trabalhadora - e teve destacada atuação jurídica nos momentos decisivos da militância paranaense.
Nota do Editor
No último 12 de setembro, a Boca Maldita voltou a ser palco de Luiz Inácio Lula da Silva em mais uma passagem emblemática por Curitiba. Mas quem observava o mar de smartphones disputando cada enquadramento do presidente talvez não medisse a distância histórica percorrida até ali.
Quarenta e quatro anos antes, como rememora com graça e precisão Vitório Sorotiuk, foi preciso recorrer aos reflexos condicionados de Pavlov, a uma fanfarra improvisada do CEFET e a quilos de papel picado para que a cidade percebesse aquele punhado de pioneiros que desciam a Rua XV.
Este fotoensaio celebra essa travessia. Ela está viva nos quadros das paredes do Bar Bife Sujo, na presença serena do próprio Vitório entre o povo e na figura de companheiros de jornada como o advogado Wilson Ramos Filho (Xixo) — um dos herdeiros e continuadores da banca e das lutas sindicais abertas pelo saudoso Edésio Passos.
Entre os curiosos atraídos pelo barulho em 1982 e os milhares de convictos reunidos em 2026, a história paranaense segue sendo escrita no mesmo chão de petit-pavé.
Hatsuo Fukuda
Editor de dialeticos.com










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