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Digressões

há 12 horas
2 min de leitura

Pintura a óleo de inspiração hopperiana com um homem sentado à beira-mar, diante de uma casa de madeira e de um horizonte de tempestade com faixa de luz crepuscular

Digressões


Por Inês Lacerda Araújo



As pessoas


Em cada pessoa ressoa um mundo, em cada um de nós toda a humanidade: o gênio recolhido em seu quarto; o louco desvairando na praça; o motorista no trânsito das seis horas; o varredor de ruas que pousa a vassoura para um breve descanso; o gari que equilibra o lixo pesado; o enfermeiro que de madrugada verifica o estado do doente; a florista que compõe o buquê; a criança que atravessa a rua sozinha; o alpinista que atingiu o cume; o terrorista que carrega explosivos; o político que vocifera promessas; a professora que usa o quadro negro para expor um teorema; o poeta que perdeu a inspiração; o fotógrafo que enquadrou um lance; o jogador no instante do gol.

Em cada alma o espelho da condição humana, inescapável.


Os instantes


O freio que não veio a tempo; o olhar que num segundo diz tudo: raiva, amor, inveja; o ponto de arremate; o ápice do amor; o resgate do salva vidas; o acorde final da orquestra; o salto de paraquedas; o tiro fatal; a palavra que diz tudo; o martelo do leiloeiro; o primeiro beijo; o vagido do bebê; o último suspiro; a página em branco; o bilhete do suicida; o adeus antes das partidas; a mensagem apagada; o ponto final do romance; a fuga inesperada; o ite missa est; a mão que impede a queda; o piscar de olhos que sela o entendimento; o frenar do avião na pista.

Instantes marcam o sem retorno do tempo.


A natureza


Caminhar na relva; o murmúrio do riacho; as andorinhas no fio de luz; os sabiás nos quintais; a passagem das aves migratórias; o salto do peixe; os vales floridos; os cachos de glicínia; as areias do deserto; as geleiras dos cumes; o abismo oceânico; o ar rarefeito; a tempestade que se anuncia; o sol do meio-dia; o horizonte marinho; a foz do rio; a floresta tropical; a praia deserta; os fósseis; o vento que assobia; a brisa que refresca.

E natureza marcada, conspurcada, entremeada por nódoas, avalanches, poeira, lama, fumaça.



Retrato em primeiro plano da escritora e filósofa Inês Lacerda Araújo, com cabelos curtos grisalhos e óculos de armação escura, num ambiente interior com estante de livros ao fundo.

Inês Lacerda Araújo nasceu na Lapa (PR). É filósofa e professora aposentada do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde lecionou disciplinas como Filosofia da Ciência, Filosofia da Linguagem e História da Filosofia Contemporânea. Doutora em Letras pela UFPR, atuou também como professora e pesquisadora no Programa de Mestrado em Filosofia da PUC-PR. É autora de livros fundamentais para o pensamento filosófico paranaense e brasileiro, incluindo Introdução à Filosofia da Ciência, Foucault e a Crítica do Sujeito, Do Signo ao Discurso: Introdução à Filosofia da Linguagem e da obra de memórias Recordar & Refletir. Mantém ensaios e reflexões semanais no blog filosofiadetododia, onde este artigo foi originalmente publicado.

1 comentário


FRANCISCO B. LACERDA JR
há 2 horas

TEXTO MARAVILHOSO

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