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Recordar & Refletir: As Memórias e a Contenção Filosófica de Inês Lacerda Araújo

Capa do livro Recordar & Refletir, de Inês Lacerda Araújo, com fotografia de vasos com plantas verdes e pequenas flores amarelas.

Memórias e a Contenção Filosófica de Inês Lacerda Araújo

  

Hatsuo Fukuda

  

Como todos sabem, curitibano não fala com estranhos. A reserva curitibana é lendária, talvez fruto do isolamento das colônias de imigrantes que povoaram a cidade, numa aldeia sem estradas que a ligasse ao resto do mundo. Com isso em mente, a leitura do livro recém-lançado de Inês Lacerda Araújo, Recordar & Refletir, é uma experiência sísmica. A autora, disfarçada de jeunne fille, abre as portas de sua vida, e como uma criança inocente, mostra aos estranhos seu quotidiano e seus segredos. E, com os olhos de criança, nos dá um panorama da província. Nada mais banal.  


Nada menos banal.  


A estratégia de mimetizar inocentes memórias infantis da filha de uma das mais tradicionais famílias paranaenses – a família Lacerda é talvez a mais importante delas, na história do Paraná – inicia na capa do livro, uma foto colorida com flores e plantas. O leitor desavisado pensa: lá vem bomba. Mais um besteirol produzido por uma leitora de Poliana e M. Delly, leituras prediletas – normalmente únicas – das jovens inocentes que viviam nos anos 50 e 60 do século passado, inclusive dela.  


Esta estratégia é muito bem-sucedida. Inês Lacerda Araújo, afinal, é uma jeunne fille da família Lacerda. Ela foi, com certeza, uma filha amada por seu pai, o famoso advogado Francisco Brito de Lacerda, e por sua mãe, Zeni, e foi criada no seio de uma vasta parentela, todos cientes e orgulhosos do patriarca do clã, Coronel Lacerda, cuja valentia, ao lado do General Carneiro, garantiu a existência da nascente República, em 1894.  


Fotografia em tom envelhecido da sala de estar e jantar do Museu Casa Lacerda, na Lapa, destacando mesa de madeira, cadeiras austeras e assoalho colonial.
Interior do Museu Casa Lacerda, na Lapa: raízes, sobriedade e tradição de uma das famílias fundadoras da memória paranaense.

Jeunne fille, sim, mas uma descendente do Coronel Lacerda, cuja casa se transformou em museu, e é um símbolo da Legendária Lapa.  


Por trás da verdade das flores e plantas cultivadas por inocentes mocinhas de antanho, leitoras de M. Delly, há uma outra verdade: a da coragem de ser quem ela é.  


Aquilo que para burocratas incultos não passa de um evento a ser mumificado em ilegíveis placas de bronze – o Monumento aos Heróis da Lapa - era um parque de diversões para a criança que ela era; nas grades do mausoléu, ela se esgueiraria com a agilidade das crianças que vivem nos quintais e ruas lapeanas. Lá está o monumento, lá está a tradição, lá estão os sacrossantos pilares da fechada sociedade paranaense, e por ela penetra, sutil, a mocinha que, afinal, era também uma leitora voraz desde a infância e assim permaneceu durante toda a vida. Sobre isso, ela conta a experiencia de estudar no Colégio Estadual do Paraná e sua biblioteca:  


“Um mundo se abria, de graça, para a descoberta de laureados com o Nobel de Literatura, poesia, a completa coleção da obra de Freud em castelhano, lida do primeiro até o último tomo, os expoentes da literatura mundial, tratados de História, Filosofia, Psicologia e Sociologia. (...) Por vezes, no recreio, preferia sentar-me à poltrona de couro escuro na própria biblioteca, as pernas cruzadas como uma iogue, sorver uma após a outra as páginas, e passar para o livro seguinte.”  

Obras completas de Freud? Nada mal para uma mocinha de dezesseis anos. M. Delly se transforma em uma agradável memória da infância, sempre a ser apreciada, pois como sabem todos os leitores, são camadas de sensações que se acumulam e enriquecem a vida.  


As memórias têm muito a dizer aos que desejam conhecer a velha Lapa, ou aqueles que frequentaram os bancos escolares do Sacre Couer de Jesus, o Colégio Estadual do Paraná, a Faculdade de Filosofia, a Aliança Francesa, territórios por excelência das jovens da sociedade.


Mas mais do que o mergulho nas lembranças da época e de seus personagens, prazeroso quanto possa ser, elas dizem mais naquilo que não diz. Inês nada fala, ou apenas menciona en passant as revoluções porque passou naqueles seus anos de juventude. A revolução sexual e de costumes e as rebeldias políticas dos anos 60 não fazem parte do cardápio de suas memórias. Ela, aparentemente, era uma jovem alienada aos embates políticos e sexuais da época.  


Estava em sala de aula quando os estudantes invadiram a Reitoria da Universidade, em 1968, e arrastaram o busto do Reitor Flávio Suplicy de Lacerda – aliás seu parente - pelas ruas, em protesto contra a ditadura, e ela confessa que não participou do furdunço e se limitou a se retirar do local.  


Fotografia histórica em preto e branco de 1968 mostrando estudante correndo enquanto arrasta com cordas o busto de bronze do reitor Flávio Suplicy de Lacerda pelo calçadão em Curitiba.

Foto da autora (final do post):
Curitiba, 1968: estudantes arrastam pelas ruas o busto do reitor Flávio Suplicy de Lacerda durante a invasão da Reitoria da UFPR.

Mas, como? Seu pai, que presidiu a OAB/PR, nos anos 75/77, era um liberal de carteirinha, filiado ao MDB, e foi um dos principais artífices da vinda à Curitiba da Conferência Nacional da OAB, em 1978, que marcou a guinada da classe dos advogados à oposição ao regime e sua incorporação ao campo democrático. Impossível Inês desconhecer o assunto, mormente sabendo-se que ela mantinha um ativo diálogo com o pai, e frequentava sua biblioteca liberal. A não participação dela na derrubada do busto do Reitor grita aos leitores.  


A revolução sexual e de costumes em curso é outro tema candente sobre o qual a autora silencia. Mas também aqui o silencio é obsequioso. Já no curso Clássico, no Colégio Estadual, uma das suas amigas era a depois famosa dramaturga Denise Stoklos, um personagem em tudo anticonvencional, mesmo na adolescência. Inês deve ter acompanhado sua primeira peça, ainda estudante, uma ode juvenil a um rebelde barbudo- aquele mesmo, que se tornou ícone pop – a cena final foram slides tirados nos fundos do Colégio Estadual – e, frequentando a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, sua cantina e, principalmente, o Bar do Quim, na Rua General Carneiro, ela, recém-saída da adolescência, estaria no centro do fervor revolucionário.


E naturalmente a leitora afrancesada deve ter lido Simone de Beauvoir e seu Segundo Sexo, sem falar em Dalton Trevisan, amigo de seu pai, frequentador da casa, com suas histórias desvendando o submundo sexual curitibano.  


Hoje, tantos anos passados, visto à distância, estas omissões fazem sentido. O protesto dos jovens contra o regime militar embutia a futura degradação da democracia. A derrubada do busto, simbólica da repulsa ao regime, e portanto compreensível e aplaudível – na época – era reveladora da compulsão orweliana de reescrever a história. A revolução sexual tornou-se licença para a degradação das relações humanas. A abertura das portas da percepção proporcionada pelas drogas tornou-se um flagelo sanitário e de segurança pública no Brasil e no mundo.  


A verdade é que havia muita leviandade naqueles anos dourados da nossa juventude, e a contenção lacerdiana refletia um amadurecimento que só uma estudante de filosofia, envolta nas eternas questões do ser, poderia ter. Ela seguiu a antiga lição que vem desde Platão: não foi a Siracusa. Sartre e Heidegger foram, e deram com os burros n'água. Inês Lacerda Araújo preferiu a ágora filosófica, reflexiva e infensa às multidões ansiosas para condenar à cicuta o inimigo público de ocasião. Hoje, mais do que nunca, esta lição se faz atual: Inês, com um livro de memórias, com sutileza, faz lembrar a permanência da história e do ser.  



SERVIÇO AO LEITOR: O livro Recordar & Refletir, da professora Inês Lacerda Araújo, encontra-se disponível, on line, grátis, aos interessados. A autora está nos devendo o livro impresso.



Retrato da filósofa e escritora Inês Lacerda Araújo, autora do livro de memórias Recordar & Refletir.

Inês Lacerda Araújo é lapeana, doutora em Letras/Estudos Linguísticos e graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atuou como professora do Departamento de Filosofia entre 1974 e 1998, lecionando nas áreas de Teoria do Conhecimento, Filosofia da Ciência, Filosofia da Linguagem e História da Filosofia Contemporânea.


De 2000 a 2009, integrou o corpo docente e o Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).


Com sólida trajetória acadêmica voltada à epistemologia, análise do discurso e filosofia contemporânea, é autora de importantes obras disponíveis na Amazon Books, entre as quais: Do Signo ao Discurso: Introdução à Filosofia da Linguagem (Parábola Editorial); Introdução à Filosofia da Ciência (Editora UFPR); Foucault e a Crítica do Sujeito (Editora UFPR); Curso de Teoria do Conhecimento e Epistemologia; 15 Filósofos: Vida e Obra; A Teoria da Ação Comunicativa de J. Habermas.


Mais de Ines Lacerda Araújo no blog filosofiadetododia.



Hatsuo Fukuda é Procurador do Estado do Paraná, aposentado, articulista e editor do dialeticos.com



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