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Se Eu Quiser Falar com Deus

Fotografia com tons dessaturados mostrando uma pessoa de costas caminhando descalça por uma estrada de terra sob céu nublado, tendo deixado sapatos e gravata caídos no chão.

Se Eu Quiser Falar com Deus

Por Inês Lacerda Araújo

A inspiradora canção de Gilberto Gil sob o olhar de Inês Lacerda Araújo.



Nota do Editor: Na esteira da crônica “No Bar Anga com Deus”, de Marinho Bastos — publicada ontem no Dialéticos —, resgatamos este ensaio da filósofa Inês Lacerda Araújo, publicado originalmente em outubro de 2021 em seu blog Filosofia de Todo Dia. Se na mesa do bar a divindade se faz prosa e companhia, nos versos de Gilberto Gil comentados por Inês o divino exige o silêncio, o despojamento e o encontro com o essencial.


Ouvir e escolher músicas se tornou corriqueiro e acessível. Costumo cozinhar ao som do que o momento inspira. Dia desses uma surpresa foi a letra da canção cujo título motiva a postagem.



Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz, tenho que encontrar a paz... tenho que me aventurar, ...tenho que subir ao céu sem cordas pra segurar, tenho que dizer adeus, dar as costas, caminhar pela estrada que vai dar em

nada, nada, nada do que eu pensava encontrar.



Deus presente nas mais diversas e corriqueiras atividades humanas, nos mais simples desejos e sentimentos, em despojar-se de riquezas, na raiva, nas injúrias, no silêncio e no recolhimento. Precisamos de silêncio, tão difícil de encontrar... Mas pode ser que se nos abandonarmos ao estar a sós e livres do que nos prende, do que nos corta caminhos, poderíamos alçar voos mesmo sabendo que a nós isso é impossível.


A condição humana pode ser nobre, mas pode igualmente ser essa a condição que requer humilhação, pode ser que exija o reconhecimento da fraqueza, do terrível, do abjeto e mesmo assim precisamos de alívio para ir adiante, tropeçar, levantar, prosseguir.


Finalmente, onde estaria esse nosso Deus, é a pergunta que comanda a letra. Estaria em nossas próprias dificuldades, desejos, sonhos, até mesmo para, sem cordas, subir aos céus.


No final pertencemos à estrada da vida que não vai dar em nada, pois antes de cada um de nós sermos, somos nada. Depois de irmos, somos nada. Afinal, o que pensáramos deter e reter são ilusórios.


As versões para entender a mensagem de Gil devem e podem assumir os pensamentos e projetos de cada um. Dei a minha versão. É possível que a letra inspire nada, nada, nada...



Fotografia em primeiro plano da filósofa e escritora Inês Lacerda Araújo, usando óculos de armação escura, blusa cinza e com uma estante de livros ao fundo em seu ambiente de trabalho.


Inês Lacerda Araújo é lapeana, doutora em Letras/Estudos Linguísticos e graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atuou como professora do Departamento de Filosofia entre 1974 e 1998, lecionando nas áreas de Teoria do Conhecimento, Filosofia da Ciência, Filosofia da Linguagem e História da Filosofia Contemporânea.


De 2000 a 2009, integrou o corpo docente e o Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).


Com sólida trajetória acadêmica voltada à epistemologia, análise do discurso e filosofia contemporânea, é autora de importantes obras disponíveis na Amazon Books, entre as quais: Do Signo ao Discurso: Introdução à Filosofia da Linguagem (Parábola Editorial); Introdução à Filosofia da Ciência (Editora UFPR); Foucault e a Crítica do Sujeito (Editora UFPR); Curso de Teoria do Conhecimento e Epistemologia; 15 Filósofos: Vida e Obra; A Teoria da Ação Comunicativa de J. Habermas.


Mais de Ines Lacerda Araújo no blog filosofiadetododia.

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