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HANNAH



No horror que vem de Gaza, uma filósofa judia tem algo a dizer.



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Um grande terremoto dividiu a comunidade judaica em Nova Iorque, nos anos 60, quando Hanna Arendt, que havia sido enviada a Israel pela revista New Yorker para cobrir o julgamento de Eichmann, escreveu que o genocídio teria sido menor (bem menor) caso a liderança judaica nos guetos fosse menos passiva com seus algozes. A liderança judaica – dirigentes de guetos, polícia judaica, etc – teve um papel em todo o processo, escreveu Arendt. Seus fatos e argumentos estão no livro Eichmann em Jerusalém, fruto de seus artigos na New Yorker. Não vou discutir a questão num espaço tão restrito como este. Mas eu diria que Arendt, uma judia alemã, no rastro da polêmica, em que teve que se defender das acusações de cúmplice do antissemitismo, escreveu com a autoridade de intelectual – fiel aos dados da realidade por ela coletados – e a autoridade moral de judia e militante durante os anos mais difíceis da dominação nazista na Europa. Não foi uma crítica qualquer e não há como confundi-la com os negacionistas do Holocausto ou antissemitas de várias vertentes.


Trago a questão e me pergunto como Arendt, uma mulher corajosa que nunca, em toda a vida, deixou de se posicionar frente aos desafios da vida, pessoal e mundial, se posicionaria em relação aos acontecimentos de Gaza. Na esteira da pressão exercida pela comunidade judaica, questionada se não era judia – e como tal deveria incondicionalmente se alinhar aos seus – ela respondeu que era uma filósofa alemã, e a esta comunidade devia prestar contas.


Hanna produziu uma vasta e importante bibliografia. Seus livros estão nas bibliotecas de todos os interessados em filosofia e ciências sociais. E, ao contrário daqueles autores que se deliciam com a obscuridade (sinônimo de erudição para alguns), ela não se furtava a escrever para o leitor comum, traduzindo em linguagem acessível temas complexos, como este de Eichmann. Em outro livro (este de ensaios), também traduzido em português, Homens em Tempos Sombrios, sobre personalidades díspares como o Papa João XXIII, Rosa Luxemburgo, Bertolt Brecht e Martin Heidegger, diz que mesmo no tempo mais sombrio temos direito a esperar uma iluminação, e que esta pode vir da luz incerta e bruxuleante que alguns homens e mulheres farão brilhar no tempo que lhes foi dado na terra.


Sua escolha de personagens em Homens em Tempos Sombrios é uma pista.



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Outra sugestão: no livro A Condição Humana, já na primeira página, ela afirma que a pluralidade é a condição de toda a vida política pelo fato de não sermos todos iguais. A ação humana somente é possível pelo fato de sermos diferentes. A pluralidade advém da natalidade. Viver é viver entre homens.


Ainda na Alemanha, ao tempo da dominação nazista, Hanna escreveu: “Se alguém é atacado como judeu, deve defender-se como judeu. Não como alemão, não como cidadão mundial, não como defensor dos Direitos do Homem.


Celso Lafer – que frequentou as aulas de Arendt na Universidade de Cornell – conta (ele ouviu da própria) que logo após sua chegada aos Estados Unidos, em 1941, e não sabendo falar inglês (ela sabia Grego, Latim, Francês, Yiddish e Hebreu, além de Alemão, sua língua mater), sua mãe relembrou, bem humorada, à filha, que ela havia se recusado a seguir a recomendação materna de estudar Inglês, ainda na adolescência, preferindo estudar Latim e Grego. Hannah tinha uma mãe judia, que mesmo no exílio, apátrida e sem recursos, fazia valer a sua condição.


Hannah era uma pensadora de coração ligada à filosofia e cultura germânica. E era judia.



Há um belíssimo filme de Margarethe von Trotta, Hannah Arendt, rolando por aí. Barbara Sukowa interpreta a personagem. O filme foca no julgamento de Eichmann, e as repercussões, mas traz também o fascínio que Heidegger exerceu sobre ela. Os livros citados foram editados em português. Já o filme... Meu DVD há muito sumiu.

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