Quem paga a conta dos juros brasileiros?

Quem paga a conta dos juros brasileiros?
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Por Luís Carlos Silva Eiras
Nota da Redação: A publicação do ensaio “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, de André Lara Resende, detonou uma das mais inflamadas controvérsias econômicas da temporada. Ao questionar os dogmas do Banco Central e propor uma convergência forçada da Selic, o texto provocou uma onda imediata de reações no debate público e nos principais veículos de imprensa do país.A reação do meio financeiro e da ortodoxia foi imediata: mereceu censura no Estadão, além de ácida desqualificação no Brazil Journal, sob a manchete expressiva: “Juros por decreto. Lágrimas a prazo”. O tema desdobrou-se em ampla cobertura analítica nas páginas do Valor Econômico e nos painéis da CNN Brasil e no UOL Economia. A discussão rompeu fronteiras e atraiu também o economista americano John H. Cochrane, da Universidade de Stanford.Para além do embate puramente retórico e das manchetes inflamadas, Luís Carlos Silva Eiras propõe uma saída pelo teste das premissas. No artigo a seguir, ele disseca o confronto analítico entre Resende e Cochrane e introduz um simulador computacional desenvolvido em Python, convidando o leitor a rodar as variáveis e verificar por si mesmo o que sustenta cada argumento antes de tomar partido.
1. André Lara Resende e a heresia de acusar o Banco Central
No artigo “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, publicado em 25 de setembro de 2026, André Lara Resende resolve cometer uma heresia no templo da ortodoxia econômica brasileira: questionar se os juros elevados, apresentados como remédio para a inflação, não seriam justamente um dos principais ingredientes da doença fiscal. Os números que apresenta são suficientemente incômodos para dispensar efeitos especiais: dívida bruta de R$ 10,9 trilhões, equivalente a 82,5% do PIB, custo médio de 12,68% ao ano e uma despesa com juros próxima de R$ 1,4 trilhão, ou 10,5% do PIB. Enquanto isso, o resultado primário permanece relativamente próximo do equilíbrio. Temos, portanto, uma situação curiosa: o Estado pode até gastar mal, distribuir privilégios e alimentar ineficiências, mas a conta dos juros ameaça transformar todos esses problemas em despesas de segunda ordem. O paciente está com febre, o médico aumenta a dose do remédio e a farmácia apresenta a fatura como prova de que o tratamento é indispensável.
A provocação de Lara Resende vai além da aritmética fiscal. Ele questiona os fundamentos da política monetária convencional, especialmente a crença de que juros mais altos necessariamente reduzem a inflação, e recupera a interpretação neofisheriana: no longo prazo, a inflação estaria relacionada positivamente à taxa nominal de juros, descontada a taxa real de crescimento da economia. Sua proposta é criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, com metas conjuntas para inflação, juros e contas públicas, conduzindo a Selic gradualmente para algo próximo de 7,5% ao ano e, posteriormente, para uma faixa entre a meta de inflação de 3% e o crescimento nominal potencial de aproximadamente 5,5%. A ideia é ousada porque inverte a relação de causa e efeito habitualmente aceita e obriga os defensores dos juros elevados a explicar por que um instrumento que deveria combater a inflação também pode alimentar o crescimento da dívida. Ao invocar o caso Dreyfus e seu célebre J'accuse, Lara Resende transforma uma divergência macroeconômica em acusação institucional: talvez o Banco Central esteja defendendo uma teoria que precisa ser preservada a qualquer custo, inclusive o custo do próprio país. Não é pouca coisa, embora a força retórica da acusação não substitua a demonstração de que a nova política funcionaria.
2. John H. Cochrane: o advogado do diabo não absolve ninguém
Em 3 de novembro de 2026, o economista americano John H. Cochrane publicou “Fisher and Resende in Brazil”, uma análise que merece atenção justamente por não oferecer a confortável satisfação de uma adesão ou rejeição integral. Cochrane reconhece que o argumento de Lara Resende é sofisticado e economicamente coerente, e admite que juros elevados, quando não acompanhados de uma política fiscal capaz de absorver seu custo, podem agravar a própria inflação que deveriam combater. Também considera plausível que uma redução dos juros, sem afrouxamento fiscal, produza efeitos desinflacionários. Nesse ponto, a estrutura da dívida brasileira, com mais da metade representada por títulos LFT indexados à Selic, pode favorecer a experiência: ao contrário de uma dívida predominantemente prefixada e de longo prazo, sua redução de juros não provoca o mesmo aumento imediato do valor presente dos títulos. Cochrane, portanto, não chega para defender a ortodoxia de plantão; chega para perguntar se a heterodoxia proposta está preparada para enfrentar a realidade.
E é na realidade que começa a contestação. Sua principal preocupação não está apenas na taxa de juros, mas na credibilidade fiscal: quem garante que a economia obtida com a redução dos juros será usada para estabilizar a dívida, em vez de ser imediatamente distribuída em novas despesas, benefícios e desonerações? Metas e conselhos são instrumentos interessantes, observa Cochrane, mas políticos têm uma notável capacidade de produzir metas pela manhã e esquecê-las depois do almoço. Ele também questiona se o Banco Central brasileiro consegue, de fato, determinar de maneira duradoura o custo de toda a dívida, sobretudo quando entram em cena o risco fiscal, os prêmios de prazo e as expectativas dos investidores; no câmbio, desconfia da tentativa de neutralizar a saída de capitais por meio das reservas internacionais. Sua advertência é especialmente importante: existe uma diferença considerável entre reduzir juros em uma economia com finanças públicas confiáveis e impor juros artificialmente baixos a um governo que continua gastando sem compromisso com a solvência. No primeiro caso, pode haver uma solução; no segundo, apenas repressão financeira, seguida de uma inflação que não precisará de convite para aparecer. Cochrane termina sem condenar a proposta, mas recomenda uma reforma fiscal, monetária e microeconômica coordenada. É uma maneira elegante de dizer que a teoria pode estar certa, mas ainda falta convencer o governo brasileiro a colaborar com ela.
3. O GitHub entra na discussão: menos opinião, mais variáveis

É justamente nesse intervalo entre a teoria e a realidade que entra o programa eliminar_juros_absurdos, disponível no GitHub. Desenvolvido em Python com Streamlit, o simulador permite recalcular os números apresentados por Lara Resende e experimentar diferentes hipóteses sobre a evolução da dívida pública, o comportamento da Selic e a inflação. São quatro módulos: conferência das variáveis do artigo, teste da hipótese neofisheriana, simulação de cenários e um comentário crítico opcional produzido por um modelo de inteligência artificial local. O usuário pode comparar o cenário atual com a proposta do Conselho Fiscal e Monetário Nacional e com uma alternativa de ajuste fiscal convencional. Mais interessante ainda, pode modificar parâmetros como participação das LFTs, velocidade de redução dos juros, prazo para eliminação do spread transitório, taxa de rolagem dos títulos e sensibilidade da inflação ao câmbio. Em vez de simplesmente perguntar se Lara Resende está certo ou se Cochrane tem razão, o programa permite formular uma pergunta mais útil: o que acontece com a dívida, o déficit nominal e a inflação quando alteramos cada uma dessas premissas?
O simulador também permite confrontar diferentes hipóteses para a formação da inflação: uma âncora na meta, a relação neofisheriana defendida por Lara Resende, uma versão calibrada pela manutenção do juro real observado e uma hipótese convencional em que a redução dos juros pressiona a inflação. Há, entretanto, uma ressalva fundamental: não se trata de um modelo econométrico capaz de prever o futuro, mas de um exercício de simulação cujos resultados dependem das hipóteses introduzidas. Algumas variáveis são extraídas do artigo; outras são parâmetros assumidos pelo autor do programa, e o próprio modelo simplifica aspectos importantes, como as expectativas, os choques econômicos, a dinâmica cambial e a distinção completa entre dívida bruta e líquida. É exatamente por isso que sua utilidade não está em produzir uma sentença definitiva, mas em tornar visíveis as premissas que frequentemente ficam escondidas atrás de equações, discursos e certezas profissionais. Afinal, economistas podem discordar durante décadas sobre a direção da relação entre juros e inflação, mas uma simulação obriga cada um a mostrar o que colocou dentro da máquina. E isso já seria um avanço considerável num país em que, aparentemente, todos sabem qual é a solução para os juros absurdos, desde que ninguém lhes peça para apresentar a conta.
Referências
O artigo de André Lara Resende: Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos
O artigo de John H. Cochrane: Fisher and Resende in Brazil
Programa simulador das variáveis do artigo de André Lara Resende no GitHub: eliminar_juros_absurdos

Sobre o autor:
Luis Carlos Eiras, nascido em Cambuí, sul de Minas, em 1950. Mestre em Ciência da Informação pela UFMG. Escreve na revista Medium (medium.com) sobre tecnologia. Seus livros O moto contínuo, O Teste de Turing e Viagem ao País de Tropicana estão à venda na Amazon.











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