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Brincadeira tem hora

há 10 minutos
4 min de leitura
Ilustração em estilo animação de um estudante sentado na carteira escolar diante de uma folha de redação com o tema "O Viver", cercado por fórmulas no quadro-negro, devaneios e a dinâmica da sala de aula.

 Entre o rigor das equações e a urgência dos hormônios, Prudêncio descobre que certas matérias do existir dispensam dissertação.


Por Caio Brandão


Tal como a mariposa, que baila em torno da luz numa coreografia de fascínio e vertigem — contornando-a, afastando-se para logo retornar —, Prudêncio não se dava conta de que, nessa dança, também se entregava. Entre o arrebatamento e o recuo, entre a esperança e o desassossego, oferecia-se ao brilho dos próprios impulsos, sem saber ao certo se ali encontraria repouso ou contradição.


Lá estava ele, na carteira escolar, em plena aula de redação, sob a vigilância de um professor esmerado no trato com as letras e exigente tanto no conteúdo quanto na caligrafia. O tema proposto era uma dissertação livre, tendo como sugestão o viver, sobre o qual cada aluno poderia discorrer da forma que melhor entendesse, desde que respeitadas as cautelas de estilo e os limites impostos pelos bons costumes.


Prudêncio organizou mentalmente sua planilha de vivência, não muito extensa, haja vista a pouca idade e os sonhos que ainda lhe sobrepujavam a experiência. Começou pelo despertar: acordar cedo, mendigar alguns minutos a mais sob o cobertor e, vencida a resistência, saltar da cama num ímpeto desesperado, para não perder a hora. Uma façanha cotidiana, dessas que ninguém inclui nos grandes tratados sobre a existência.


O professor caminhava entre as fileiras, passos ritmados, enquanto o giz estalava no apagador, compondo uma espécie de metrônomo da disciplina. Diante de Prudêncio, a folha pautada parecia uma planície de possibilidades perigosas. O tema soava amplo demais para quem acabara de sair da cama sob a ditadura do relógio e o frio da manhã. Como discorrer sobre o viver se mal conseguia administrar o próprio despertar?


Ao empunhar a caneta, porém, a lembrança de uma luz faiscante — o brilho secreto de seus impulsos e devaneios — começou a atraí-lo para longe do rigor exigido, ameaçando desviar sua escrita do caminho seguro.


Sem noção, concluiu Prudêncio a respeito do mestre, que mandava os alunos dissertar sobre algo que trazia mais temores do que certezas a um adolescente que sequer sabia distinguir, no cardápio de um restaurante, a escolha mais compatível com seu paladar. No currículo escolar, pesavam os rigores da matemática, as possibilidades da química, a crueza da física e os labirintos do idioma pátrio, cheio de armadilhas em seus inúmeros atalhos gramaticais.


Prudêncio não via saída. Melhor estaria pedalando a bicicleta, com Pedro Rogério na garupa, e parada obrigatória na Sorveteria Domingos. Os currículos escolares estão equivocados, pensava. Tantos vazios a preencher, tantas dúvidas a esclarecer, e lhe pediam a fórmula do Teorema de Pitágoras para calcular os lados de um triângulo retângulo. Como se a vida, em algum momento, fosse lhe apresentar um triângulo acompanhado das respectivas instruções de uso.


A escola parecia obcecada em ensinar o funcionamento do átomo e a fórmula da bomba de hidrogênio a quem mal sabia escovar os dentes sem engolir a pasta ou encharcar a camisa. Ninguém ousava gizar no quadro-negro as lições fundamentais do existir: a higiene pessoal diária, o discernimento nas escolhas alimentares, o mínimo de etiqueta social para não desgraçar o convívio ou, ainda, a leveza necessária à escolha de um hobby. Queriam iniciá-lo nos mistérios do universo quando o rapaz ainda buscava o norte das coisas mais simples.


E havia mais. Ninguém lhe ensinara a lidar com as próprias inquietações, a reconhecer os arroubos que lhe sacudiam o corpo, a distinguir a curiosidade do desejo ou a compreender por que certas imagens, sem aviso prévio, se instalavam na cabeça e se recusavam a sair. Para essas matérias, não havia professor, apostila ou prova de recuperação. Cada qual que se virasse com o seu próprio laboratório.


Cadeiras à frente, uma colega, sentada numa postura pouco cerimoniosa, deixava à mostra parte das coxas musculosas, cobertas por uma fina penugem aloirada. Prudêncio perdeu o fio do raciocínio. A folha em branco, antes uma planície de possibilidades perigosas, tornou-se um território inteiramente esquecido. Por alguns minutos, concluiu que o viver, diante daqueles contornos, realmente valia a pena.


A luz, afinal, não precisava estar no fim do túnel, no alto de uma montanha ou na revelação de algum filósofo. Às vezes, encontrava-se ali mesmo, a poucas carteiras de distância, ao alcance dos olhos e muito além das cogitações escolares.


Retomou a caneta com vigor, embora sem desviar o olhar da moldura que lhe sequestrava a atenção. O professor percebeu a distração e quis saber se havia algum problema. Prudêncio assentiu, pediu licença para ir ao banheiro e recebeu a autorização com um gesto austero do indicador. Tomou o rumo da porta em passo apressado, como quem finalmente encontrara uma solução para o tema proposto.


No banheiro, longe dos olhos do mestre e das exigências da gramática, deu asas à imaginação. A adolescência, com sua testosterona em alvoroço e suas urgências pouco afeitas à reflexão, assumiu o comando. Prudêncio entregou-se a uma breve sessão de intimidade, em gestos rápidos e ritmados, sem constrangimento nem necessidade de maiores explicações.


Há problemas que a razão não resolve, pensou talvez, embora não exatamente nesses termos. E há urgências que dispensam dissertações, bibliografia e consulta ao professor.


De volta à sala, acomodou-se na carteira. O mestre olhou-o por cima dos óculos, examinou a folha ainda em branco e perguntou:


— Tudo bem com você?


Prudêncio ergueu a cabeça, sereno, como quem acabara de alcançar uma verdade elementar, dessas que escapam aos compêndios e não cabem nos programas escolares.


— Melhor, impossível.


O professor voltou a caminhar entre as fileiras. A folha continuou em branco, mas Prudêncio, por alguns instantes, já não tinha dúvidas sobre o viver. Ao menos até a próxima aula.


Fotografia de CAio Brandão, de oculos escuros.

Caio Brandão, sábio mineiro, disserta sobre o viver.

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