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Lapsos, Retalhos e a Régua do Tempo

A régua do tempo de Caio Brandão.
A régua do tempo de Caio Brandão.

Lapsos, Retalhos e a Régua do Tempo


Caio Brandão


“Quando eu não puder pisar mais na avenida, quando as minhas pernas não puderem mais me aguentar”, versos de música que levam os meus sonhos de volta ao tempo de recordar. Vejo passar os dias como anos, levando uns e outros e, com eles, o tempo que vivi. Agora, só me resta recordar. Passos no tempo, lapsos de memória; ficam os retalhos, mais vívidos e sofridos.


Penso no tempo: ele não pede permissão e é sutil. Chega chegando e deixa no espelho as suas marcas; no coração, as lembranças mais caras; e, na razão, aquelas para não recordar.


Ainda vejo rostos, sorrisos e lágrimas. Crianças brincando, jovens se amando, adultos se reafirmando — cada fase um tempo diferente. Mas ele está aí, sempre presente: o tempo.


Implacável o tempo, que mistura passado, presente e futuro, faz correr o sorriso e escorrer as lágrimas. Sofro pelos amigos, mas também por mim. Mas também me alegro, porque cultivo a emoção e as suas nuances.


Da rua Caldas, guardo lembranças da carvoaria e do bonde na transversal. Rua de terra e meninos brincando. Passou. Veio o calçamento, o asfalto, e o bonde desapareceu. Surgiu o trólebus, ônibus amarelo, gigante, que também se foi. Veio outro ônibus, a diesel, que subia pela Grão Mogol, entrava à esquerda na rua Caldas e desaparecia na rua Pium-í.


Tarcísio Esquetino era notável. De madrugada, no seu Fusca, virava à esquerda na rua Caldas e batia no muro da casa do Gustavo Capanema, jurista e desembargador de prestígio. Tarcísio morreu jovem, num desastre de lancha. Era herdeiro dos ônibus e viajou prematuramente. Dona Anita Stefani morava só, numa casa de fundos. Morreu na banheira, do coração, sem socorro. Boanerges foi embora cedo, num acidente de lambreta. Pilotava enlevado pelo som etílico das músicas de que gostava e não deu certo. Bio, adolescente, foi pego fumando maconha e escandalizou os idosos: maconha só nos jornais, algo distante. Luiz Eduardo carregava a tiracolo um revólver gigante. Virou Luiz Cano Longo e frequentava horas dançantes com o trabuco. Paulo Roberto era o galã da rua, sempre bem-vestido e arredio. A mãe, dominadora, o trazia na rédea curta. Mauro e Rogério tocavam violão e eu tinha inveja, mas não me dispunha a aprender. Gostava de escrever e criei um jornal que circulava no bairro, impresso no mimeógrafo a álcool. No Colégio Marista disputava o diploma de honra ao mérito por comportamento, mas punha bomba na lixeira no intervalo das aulas.


A imagem de Nossa Senhora foi parar na nossa sala, em minha casa, antes da procissão da Igreja do Carmo. Não entendi, porque minha mãe era espírita e meu pai, ateu. Mas à santa homenageei com orações e pedidos, nenhum deles atendido. Por lá também passou o Zé Arigó, médium famoso, que atendia clientes na sala da residência e fazia operações de catarata. Na dependência dos fundos, assisti a sessões de materialização, com médiuns expelindo ectoplasma e dando forma a entidades sinistras.


No topo do guarda-roupa, um revólver calibre 32. Tereza, amiga da família, pedira à Nair, minha mãe, para esconder. O marido, um juiz de direito, suspeitava da sua relação com um amante e comprou a arma para matá-la. A arma, envolta em papel vermelho, envelheceu no guarda-roupa e o papel descorou. Não sei que fim levou.


Marci resolveu se suicidar em minha casa. Prima de minha mãe, mulher além do seu tempo, estava perdida e sofrida. Trancou-se no banheiro com formicida, querendo morrer. Paulo, meu pai, chegou para o almoço e pediu a Marci que esperasse ele almoçar e sair para ela consumar o suicídio. Marci desistiu e cortou relações.


Adolescente, fui trabalhar no jornal O Diário, levado pelo jornalista Flávio Ferreira, amigo de meu pai. Flávio era talentoso, mas com ele pouco convivi, porque se suicidou por desencanto amoroso. Flávio Vieira o sucedeu na redação — profissional talentoso, morto por bandidos que invadiram a sua chácara na periferia da cidade.


Em Ubá e Visconde do Rio Branco passei parte da minha juventude, com os primos Majô, Jair Augusto e Ricardo. Majô liderava e, mais velha, apontava para os entretenimentos da época, mas não bebia e nem fumava, que pena. Em Ubá, Ângelo e Rosângela não dançavam no ritmo de então, discretíssimos no comportamento, mas afáveis no trato. Por lá eu passava férias e conhecia os bares e as bebidas da época — sempre as mais baratas.


Rebelde, sofri ameaças. Nair quis me internar no SAM, Serviço de Assistência ao Menor, algo horrível. Propus trocar pelo internato Dom Bosco, em Itabirito, mas fui enrolando até me casar pela primeira vez aos 21 anos,  e partir para um outro destino, com outro tipo de enfrentamentos.


Minha história é incomum e vai merecer outros capítulos. Mas, longevo, em face do meio em que vivi, perco os poucos amigos e inúmeros conhecidos. Dalva, esposa do Márcio Manata, já falecida, dizia que eu era um desajustado. Roberto Gutierrez dizia a mesma coisa, mas era tanto quanto ou até mais do que eu. Formávamos uma bela dupla; ele empresário e eu seu assessor, mas nos permitíamos extravasar. Dentre outras maluquices, invadimos a cozinha do hotel Tororomba, na Bahia, às três da manhã e, depois, inundamos dois apartamentos com a mangueira de incêndio. Na piscina, para o café da manhã, chegávamos com um litro de uísque a tiracolo, para temperar o suco de laranja. Mas Roberto morreu e não me pediu permissão, como também Fernando Telles e Gentil Nascimento, outros dois desajustados queridos e nunca esquecidos.


Que pena que o tempo não tenha ouvidoria. Eu reclamaria da sua régua sem critério. Ontem ele levou Fernando Fraga. Talentoso, trabalhou comigo na Ruralminas. Chegou como chefe de serviço, depois tornou-se meu chefe de gabinete e, mais tarde, o fiz  diretor da entidade. Saí após um confronto político, mas ele permaneceu. Construímos amizade indestrutível e, depois da Ruralminas, Fernando seguiu adiante até consolidar um dos maiores escritórios de advocacia do país. Morreu aos 61 anos, no auge da vida pessoal e profissional. Eu tenho 76, e um vidente do Paraná me disse que partirei aos 78. Estou me preparando, mas não é fácil.


Os amigos mais queridos me surpreendem e não retornam para relatar a experiência. Terei que enfrentar a passagem solo, sem GPS. Espero que, do outro lado, Adriano Silva, Rogério Colombini e Álvaro Resende me mostrem o caminho — e desejo que não seja o do inferno, para o qual ainda não estou pronto. Mas não posso reclamar. Tarcísio Ferreira, pai do Fernando, enterrou a primeira esposa e mais três filhos, e ainda encontrou forças para pontuar palavras  no último velório. Tem 92 anos — um homem de bem, um guerreiro, um exemplo a seguir.


Caio Brandão é jornalista mineiro.

Caio Brandão é jornalista mineiro.

1 comentário


Antonio Bortoletti
há 39 minutos

Sou leitor do Caio Brandão, mas hoje ele superou , adorei o texto, e consegui acompanhar bem o raciocínio, até porque muitos personagens também os conheci.

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