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DO BATOM DO AMOR ME ESGUEIRO. COISA TRAIÇOEIRA

Uma ilustração detalhada em estilo editorial, com textura de papel envelhecido, mostrando um homem magro e pálido, com óculos grandes e vestindo um terno marrom, sentado em uma poltrona. Ele segura um batom vermelho em uma mão e um caderno intitulado 'CADERNO DE REVELAÇÕES' na outra. Ao lado dele, um pastor alemão com os lábios pintados de rosa pink o olha com devoção, enquanto corações flutuam ao redor da cabeça do cachorro. Atrás deles, uma televisão antiga transmite um comercial para o 'BATOM DO HUMOR'. O ambiente ao redor está repleto de caixas de batom, outros cadernos com anotações, e uma caneca de café. O cabeçalho na parte superior da imagem diz 'DIALÉTICOS.COM' e 'A VERDADE DO BATOM: UMA CRÔNICA DO MEDO E DA ILUSÃO'.

Do batom do amor me esgueiro. Coisa traiçoeira

Por Caio Brandão


Mírocles era um homem de meia-idade, esguio e de uma palidez sutilmente esverdeada, como se tivesse sido esculpido em massa de modelar estragada. Tinha dificuldade crônica para encontrar parceiros — ou parceiras, nunca se soube ao certo. Vestia-se com uma elegância triste e anacrônica: sapatos de amarrar, sempre bem engraxados, e meias de algodão cru que, invariavelmente, acabavam engolidas pelo calcanhar do calçado, que parecia não respeitar limites nem anatomia humana.


No trabalho, Mírocles era o triunfo da mediocridade funcional. Cumpria o horário com precisão britânica e seguia o roteiro da burocracia sem desvios. A chefia adorava.


Destoava radicalmente da colega da mesa ao lado, que levava marmitas cujo odor de mortadela defumada exalava um perfume exótico, misturando faxina de corredor com velório na Santa Casa.


Sua vida afetiva e familiar era um deserto. Os irmãos moravam longe e sequer lhe telefonavam. Os pais haviam falecido há anos e, segundo o próprio Mírocles, graças a Deus. Eram criaturas de uma crueldade metódica, cujo passatempo favorito consistia em envenenar os gatos da vizinhança para depois culpar publicamente os coitados dos lixeiros.

Pura maldade.


Também no quesito cidadania o azar o perseguia. A vizinha de parede-meia, alcoólatra convicta, apanhava do marido em dias alternados. Mírocles, num arroubo de heroísmo desastrado, tentou socorrê-la e apanhou junto.


Não se queixou à polícia por medo de apanhar de novo.


E, no entanto, apanhou mais uma vez, apenas pela suspeita do agressor de que ele tivesse feito o BO.


O nome tampouco ajudava.


Mírocles.


Para completar o quadro de tragédias amorosas, sua única namorada em toda a vida atendia por Marocas, com o cruel apelido de Marô. A dupla tinha tudo para dar errado — e deu.


O namoro durou exatos quinze dias e consumou-se em um único e tímido amasso, apoiado no portão da garagem. Um rangido sepulcral da dobradiça enferrujada intimidou os pombinhos. As mãos de Mírocles eram trêmulas e hesitantes; os recônditos de Marô, áridos e ressecados.

Depois disso, o amor passou a ser, para Mírocles, assunto de terceiros.


Mas eis que a televisão, aquele portal de ilusões, decidiu intervir em seu destino.


Assistindo ao intervalo comercial, viu o anúncio de um batom revolucionário. Não era um cosmético qualquer. Era uma promessa química de atração.


Sem vacilar, abriu o celular, navegou até o site de compras e encomendou logo uma caixa com trinta unidades.


O apelo de marketing era puro delírio mágico dos anos 80: o tal batom do humor prometia que a cor revelada nos lábios estampava, com precisão científica, o estado emocional e o nível de atração que a pessoa sentia no momento.

A caixa trazia até uma tabela explicativa.


O verde que virava rosa-pink denunciava a pessoa apaixonada ou atraída; o azul que virava lilás sinalizava fidelidade; o amarelo que virava alaranjado demonstrava alegria festiva; e o preto — ah, o preto! — que virava vinho profundo apontava para mistério, ciúme e perigo.


Mírocles foi ao delírio.


Aquilo era mais que batom.


Era uma janela para a alma.


Assim que a encomenda chegou, transformou-se no apóstolo do pigmento reativo. Distribuiu batons generosamente: no escritório, na padaria da esquina, na farmácia, para as carolas da igreja e até para incautos motoristas de aplicativo.


Que o batom mudava de cor, ah, isso mudava.


Se lia a alma humana, já era outra história.


Mírocles, entretanto, não era homem de deixar a ciência atrapalhar uma boa investigação.


Sacou um caderninho do bolso do paletó e deu início à sua cruzada.


Ficava à espreita, de olho na boca dos agraciados, decifrando intenções e desejos reprimidos.


Descobriu, estarrecido, que o padre usava a bisnaga de tom discreto, mas que a pigmentação recrudescia num vermelho-sangue, carnal e pulsante, toda vez que Mírocles se aproximava do confessionário.

Aquilo lhe pareceu preocupante.


Olhou também para a senhora da quitanda, uma idosa respeitável, passando dos oitenta anos, e vislumbrou nos lábios dela o roxo denso do mistério.


Ficara viúva havia poucos meses.


O marido fora um sujeito de dicção arruinada, que falava por um orifício abaixo da linha do queixo e por entre as costelas — um horror anatômico.

Mírocles juntou os fatos, consultou mentalmente a tabela e concluiu:

A velhinha o havia envenenado.

Não sabia exatamente por quê, mas isso lhe pareceu um detalhe secundário.


Seguiu catalogando emoções alheias até o dia em que seu próprio cachorro, um pastor alemão de olhar trágico, engoliu um bastão inteiro junto com a ração do almoço.


Mírocles ficou apavorado.


Esperou.


O cachorro continuou vivo.


Então aconteceu.


O focinho do animal começou a adquirir um rosa-choque febril e apaixonado.


Mírocles olhou para o cachorro.


O cachorro olhou para Mírocles.


O cachorro abanou o rabo.


Mírocles recuou.


O cachorro aproximou-se.


Mírocles recuou novamente.


O animal sentou-se diante dele, com a língua de fora e os olhos cheios de uma devoção canina absolutamente inequívoca.


Foi demais.


Se o batom dizia a verdade, aquele cachorro estava apaixonado por ele.

E Mírocles não estava preparado para viver num mundo em que até o cachorro lhe declarava amor.


Tomado pelo pânico sociológico e afetivo, recolheu-se ao seu monastério privé.


Trancou-se no quarto e de lá não saiu por longos três meses — tempo suficiente para que o estoque de batons da cidade se exaurisse pelo uso cotidiano e a tempestade de revelações passasse.


Durante aquele período, ninguém conseguiu convencê-lo de que um cachorro não poderia estar apaixonado.


Mírocles já não confiava nem nos animais.


Finda a quarentena voluntária, barbeou-se, vestiu as meias engolidas pelos sapatos e retornou à labuta diária.


Estava prestes a sair de casa quando, ao passar pela sala, a televisão ligada transmitiu um novo anúncio comercial.


Mírocles estancou.


O locutor anunciava, com voz entusiasmada, a chegada da revolucionária espiga de milho mágica para pipocas saltitantes, com garantia absoluta de zero piruá.


Mírocles deu um passo atrás.


Mirou o aparelho.


Por alguns segundos, permaneceu imóvel, como quem acabara de compreender que a humanidade havia ultrapassado uma fronteira perigosa.


Então desligou a tomada da parede com um golpe seco.


Havia limites para a mágica que um homem de meia-idade podia suportar.


Afinal, depois de um cachorro apaixonado, qualquer coisa era possível.


E, ademais, vez por outra, uma espiga pode não ser apenas uma espiga.

O seguro morreu de velho.


Foto do articulista Caio Brandão, de óculos escuros.

Caio Brandão é um jornalista mineiro.

2 comentários


Deusa
há 7 horas

Caio, você é realmente um bom escritor, ético e encantador. Estou encantada com seu vocabulário vasto e poderoso!

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Tarcísio
há 11 horas

Coitado do Mirocles! Dr. Caio, me impressiona a sua capacidade de criar personagens,que a gente, em o lendo, visualiza- o perfeitamente.Essa foi hilária!

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