Mais um dia em que o Brasil passou por dentro de nós

NOTA DO EDITOR: O país foi inundado, após o resultado das eleições, com uma enxurrada de postagens nas redes sociais. Os seguidores do candidato derrotado, pesarosos, em perfil baixo, lamentando o futuro do país, que se avizinha, segundo eles, do desastre. A outra metade – um pouco mais da metade, quatro milhões de eleitores a mais – exultantes. Uma minoria, entre os quais nosso colaborador Hermínio Back, embora aliviada com o resultado, reflete sobre o futuro e cobra mudanças do presidente eleito.
Recebi, do nosso colaborador Gerson Zafalon, por WhatsApp, inúmeras mensagens repercutindo os acontecimentos. Uma delas, pelo tom comovido e pela serenidade reflexiva, em total contraste com o alarido das redes, chamou minha atenção. A mensagem é atribuída a Raul Manhães de Castro, médico (como Zafalon), da Universidade Federal de Pernambuco, professor emérito da UFPE, doutor pela Université Pierre et Marie Curie, de Paris, Cidadão Pernambucano e escritor. (Ele, orgulhosamente, anuncia seu parentesco com Josué de Castro, o famoso autor dos clássicos Geografia da Fome e Geopolítica da Fome, que dispensa apresentações).
Temo cair nas armadilhas das redes sociais, que já atribuíram textos absurdos a tantos autores renomados. Mas este artigo “orna” com a biografia do suposto autor. Não consegui entrar em contato com ele, para confirmar a autoria, e pedir sua autorização para publicar a bela crônica. Ela vem, tal como veio a minhas mãos: como uma mensagem cheia de esperança no futuro.

Mais um dia em que o Brasil passou por dentro de nós
Texto atribuído a Raul Manhães de Castro
Não sabia que tanta gente cabia no meu peito. Vi avós e bisavós atravessando calçadas, vizinhos de porta, amigos de longe, rostos que eu nunca vira e que pareciam conhecidos da mesma casa. Era uma eleição. O Brasil caminhava diante de mim.
Arrepiei-me. Chorei. Nos rostos, o cansaço. Nas mãos, alguém ajudando outro a chegar. Vi uma filha oferecendo o braço à mãe. Um neto acertando o passo ao do avô. Uma vizinha batendo à porta: “Vamos? Eu espero por você.”
Naqueles gestos, o voto começava antes da urna.
Sabiam quem precisava de cadeira, água ou companhia. Guardavam o lugar na fila e voltavam para buscar quem faltava. Havia quem diminuísse o próprio passo, e o corpo de alguém se tornava o ritmo do corpo de outro.
Às vezes, iam à frente. Outras vezes, ficavam para trás. O rumo era comum; o passo, de cada um.
Hoje, senti orgulho de pertencer a esse povo. Conheço suas feridas. Vi algumas atravessarem a calçada.
Mas, à sombra de uma árvore, uma senhora esperava com o título na mão. O braço que a levaria ainda não tinha vindo.
Talvez a esperança comece assim: alguém poderia seguir sozinho, mas espera. Que meu cuidado alcance também quem escolhe diferentemente de mim e quem ainda espera.
Guardo os passos lentos, os abraços, a mão que ajuda outra mão a chegar. E a senhora à sombra, que ainda espera.
Espero com ela.
Sobre a autoria desta publicação:
A crônica acima circulou em redes e aplicativos de mensagens atribuída a Raul Manhães de Castro. Publicamos o texto acompanhado de sua biografia em virtude da profunda afinidade de estilo, sensibilidade e valores com a trajetória do autor, embora a confirmação direta não tenha sido possível até o momento.

Raul Manhães de Castro é médico, neurocientista e professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Doutor pela Université Pierre et Marie Curie (Paris VI), é membro titular da Academia Pernambucana de Ciências, Cidadão Pernambucano e escritor. Parente de Josué de Castro (autor clássico de Geografia da Fome), alia a dedicação à ciência e ao ensino a uma sensibilidade humanista expressa em artigos e crônicas sobre o Brasil real.











Excelente texto, até comovente e vem a calhar. Hoje escutei o choro do meu jardineiro, mais do que isto, quase um paisagista, que falou da desgraça em que se encontra o país. Ele se chama Milton, um trabalhador correto. Tem três camionetes, casa própria e uma dependência que aluga para temporada em Campos do Jordão. Trabalha muito, sim, com o apoio de empregados que colaboram com ele no seu dia a dia. A filha tem curso superior e mora em casa própria em Taubaté. Escutei pacientemente as suas lamúrias sobre o resultado da eleição e, a par de sua vida e sucesso profissional, perguntei-lhe: - Está reclamando do que mesmo ?