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MEL DAS ABELHAS SELVAGENS

De mal a olhos humanos, de mal com a Fortuna,

Aqui choro sozinho o meu banido estado


Foto de Hatsuo Fukuda


Zanzando sem rumo, como sempre, paro em frente da lojinha de sonhos na Praça Santos Andrade. Simpática, a vendedora me oferece uns sonhos: três por dez reais. Mais barato e mais gostoso (provavelmente) que o pão seco que ando roendo ultimamente. Mas não são adoçados com mel de abelhas selvagens do Afeganistão. Continuo roendo meus ossinhos saudáveis. Animado, sugiro a ela novas receitas: talvez um recheio de abobrinhas secas ou beringelas (secas, claro) ao molho de frutas da estação? Fica a sugestão. Continuo minha caminhada, pensando em variações que adocem a vida das pessoas (Não a minha. Já tive a minha cota de doçuras.).


Vejo que a confeitaria, que recém abriu na esquina, fechou. Mais uma tragédia pandêmica. Passo. O pipoqueiro na esquina continua oferecendo saudáveis pipocas com bacon. Variação: chocolate. Mas e o mel das abelhas assassinas do Afeganistão? Aquele, colhido há milênios pelas tribos no alto das montanhas, e abençoado pelos velhos das aldeias, em cerimônias ao redor de fogueiras, ao som de cânticos que ecoam antigas rixas que se perdem com a doçura do mel.


No Teatro Guaíra, cartazes anunciam novos shows com velhos artistas. Todos saíram da toca, agora que a pandemia arrefeceu. Penso vagamente em assistir o meu amigo Erasmo Carlos, aquele que ficou à beira do caminho que não tem mais fim. Chico Buarque resolveu dar as caras. E Ney Matogrosso. E outros. Se economizar, talvez assista um deles. Ou devo aguardar um cover do ABBA? Dúvida cruel.

Na frente do teatro, um grupo de abnegados distribui comida e bebida para os famintos. Na esquina, na calçada, um carro da PM observa a cena. Quase ouço a trilha sonora de harpas celestiais. Os carros passam lentamente, realçando a bondade do gesto.

Volto pelo miolo da praça. Sentados em um banco em frente ao chafariz, alguns garotos fumam um baseado, sorridentes, observando os cachorrinhos que passeiam pelo gramado. Uma garotinha pastoreia um cão bem maior do que ela; um street dog manso como Chico, meu retriever. Acompanhando, próximo, uma mãe atenta.

Uma águia tenta alçar voo. Mas suas asas são palavras ocas e não conseguirá sair do chão em que chafurda. Lamento, Ruy Barbosa.

Foto de Hatsuo Fukuda



Não me sento na escadaria imponente da Universidade, onde rapazes e moças tagarelam. Os fantasmas dos velhos mestres da Faculdade de Direito observam atentos: talvez alguma fagulha se detecte no mar de mediocridades? Talvez.

Sigo em frente. Talvez em outra praça alguém me ofereça um sonho adoçado com mel de abelhas selvagens. Por ora, só me resta roer o pão seco de todos os dias.


A abertura são os dois primeiros versos do Soneto XXIX, de Shakespeare, tradução de Vasco da Graça Moura. Editorial Inova/Porto, em 50 Sonetos de Shakespeare. Ele sabia roer com arte o seu pão seco.

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