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“O analfabeto político”, o poema brasileiro do Brecht

há 12 horas
3 min de leitura
Ilustração em estilo charge/expressionista denunciando a farsa do poema apócrifo 'O Analfabeto Político', com referências a Brecht, O Pasquim de 1987 e a Assembleia Constituinte.
Ilustração do autor sobre a atribuição apócrifa do poema a Bertolt Brecht.

“O analfabeto político”, o poema brasileiro do Brecht

Bertolt Brecht, o dramaturgo marxista que passou a vida tentando desmascarar as ilusões do capitalismo, tornou-se, ironicamente, a marca de luxo preferida para o marketing da indignação rasteira.

Por Luís Carlos Silva Eiras


O Triunfo do Fake sobre o Fato


No Brasil, o poema “O Analfabeto Político” goza de uma onipresença quase litúrgica. De sites e cartilhas sindicais a livros didáticos, a peça é declamada com a solenidade de quem descobriu o segredo do universo, e não apenas o preço do leite.

O texto, um manifesto que xinga o leitor de “burro” e “imbecil” com a elegância de um motorista em dia de trânsito caótico, parece ter sido feito sob medida para a militância de botequim, onde a sutileza é vista como uma fraqueza burguesa.


A “origem” dessa obra-prima, contudo, é menos Berlim e mais a redação do jornal O Pasquim nos anos 80. Registros indicam que o poema apareceu nas páginas do semanário satírico pela primeira vez pelo leitor Marcos Silva, de Florianópolis, no número 956, página 2, de 5 de novembro de 1987 – leitor que certamente deveria saber realmente a sua origem. E republicado por Carlos Olavo da Cunha Pereira, também no Pasquim, nº 968, página 12, de 4 de fevereiro de 1988 – três décadas após o coração de Brecht ter parado de bater.


O texto é uma autêntica “construção brasileira”, uma colagem de supostas ideias brechtianas embaladas para o consumo rápido durante a Assembleia Constituinte.


Incoerências e Anacronismos


Para o leitor atento, as costuras da fraude são muito grosseiras. Brecht, mestre da forma e da dialética, dificilmente teria incluído “empresas multinacionais” em seu vocabulário poético de meados do século XX — um anacronismo que grita mais alto que qualquer protesto de rua.

A ausência do texto nas obras completas do autor (Brecht: Grosse kommentierte Berliner und Frankfurter Ausgabe. The Collected Poems of Bertolt Brecht) confirma que a atribuição é meramente uma tentativa de dar “grife” à mensagem.


Este fenômeno não é, de forma alguma, uma jabuticaba isolada. Como bem notou Cora Rónai em sua compilação Caiu na Rede (Agir, 2005), a internet transformou a literatura em um grande baile de máscaras.

De Clarice Lispector a Luís Fernando Verissimo, ninguém está a salvo de ter seus nomes carimbados em correntes de e-mail ou posts motivacionais de qualidade duvidosa.


Alguns ficaram famosos como “Instantes”, atribuído ao Borges, e o elogio do Jabor às calipígias. No caso de Brecht, o “apócrifo” tornou-se tão lucrativo simbolicamente que acabou infiltrado até em antologias oficiais brasileiras, provando que, no Brasil, a lenda não só supera o fato, como o substitui com as bênçãos políticas.


A Versão Final (Para os Fetiches Germânicos)


Para os puristas que ainda desejam a ilusão da autoridade alemã, aqui está a “tradução reversa” do nosso clássico tupiniquim para o idioma de Goethe. Afinal, se está em alemão, deve ser importante:


Der politische Analphabet(Bertolt Brecht, psicografado pela primeira vez em 1987)Der schlimmste Analphabet ist der politische Analphabet.Er hört nicht, er spricht nicht und er nimmt nicht an den politischen Ereignissen teil.Er weiß nicht, dass die Lebenshaltungskosten, der Preis für Bohnen, Fisch, Mehl, Miete, Schuhe und Medikamente von politischen Entscheidungen abhängen.Der politische Analphabet ist so dumm, dass er stolz darauf ist und sich brüstet, indem er sagt, er hasse Politik.Der Idiot weiß não, dass aus der politischen Ignoranz die Prostituierte, das verlassene Kind, der Räuber und der schlimmste aller Verbrecher entstehen: der korrupte Politiker, der Gauner und der Speichellecker der nationalen und multinationalen Unternehmen.


Foto colorida do autor, Luis CArlos Eiras, de cabelos grisalhos, tessta larga, vestindo um casaco escuros sobre uma camiseta branca.

Luis Carlos Eiras, nascido em Cambuí, sul de Minas, em 1950. Mestre em Ciência da Informação pela UFMG. Escreve na revista Medium (medium.com) sobre tecnologia. Seus livros O moto contínuo, O Teste de Turing e Viagem ao País de Tropicana estão à venda na Amazon.

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