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Como escrever artigos científicos falsos

há 12 horas
5 min de leitura
Pintura digital de estilo clássico retratando Edgar Allan Poe à esquerda com nariz de Pinóquio segurando o desenho de um balão de ar quente, ao lado de acadêmicos em uma mesa cheia de papéis científicos e, à direita, um robô humanoide pensativo também com nariz comprido diante de monitores digitais.
Ilustração gerada por inteligência artificial concebida pelo autor: de Edgar Allan Poe aos chatbots, a evolução dos artifícios da credulidade.

Como escrever artigos científicos falsos


Luís Carlos Silva Eiras


Os truques, inventados por Edgar Allan Poe no século retrasado, são usados até hoje.

Edgar Allan Poe tinha um problema. Escrever contos de terror era divertido, mas observar a credulidade humana era ainda mais divertido. Em 1838, publicou Como escrever um artigo à maneira da Blackwood, uma sátira aos periódicos sensacionalistas. Sua receita era surpreendentemente simples: escolher um tema absurdo, revesti-lo de erudição, salpicá-lo com termos técnicos e confiar na preguiça intelectual do leitor. Quase duzentos anos depois, o método continua produzindo excelentes resultados.


Poe não ficou apenas na teoria. Em 1844, publicou A fraude do balão, uma reportagem anunciando a travessia do Atlântico por um aeróstato em apenas três dias. O texto era um desfile de detalhes técnicos, descrições convincentes e precisão jornalística. O público acreditou. A notícia espalhou-se rapidamente antes que alguém percebesse o pequeno inconveniente de a história nunca ter acontecido.


Fac-símile da primeira página do jornal nova-iorquino The Sun de 1844 com a manchete sensacionalista da Fraude do Balão escrita por Edgar Allan Poe, exibindo tipografia clássica do século XIX e a ilustração de um aeróstato.
Edição extraordinária do The Sun (1844): a "Fraude do Balão" de Edgar Allan Poe demonstrou o poder do jargão técnico e da embalagem jornalística para ludibriar o público.

Cinco anos depois, em A descoberta de Von Kempelen, Poe apresentou um inventor que havia encontrado a fórmula para fabricar ouro. Mais uma vez, a força do texto não estava na fantasia, mas na aparência de autenticidade. A alquimia fracassara durante séculos; bastou embrulhá-la numa linguagem respeitável para que voltasse a parecer uma possibilidade científica.


O método Poe


O genial escritor havia descoberto uma lei curiosa da natureza humana. À medida que o conhecimento se torna mais complexo, aumenta o número de pessoas incapazes de verificar aquilo que estão lendo. Em compensação, cresce exponencialmente o prestígio da embalagem. O conteúdo pode ser uma obra-prima ou um delírio febril; o importante é que pareça ter sido revisado por alguém usando óculos de aro fino e três lapiseiras no bolso.


“A credibilidade raramente nasce da verdade. Ela nasce da aparência da verdade.”

Essa talvez seja a primeira grande lição da história dos papers falsos. A credibilidade raramente nasce da verdade. Ela nasce da aparência da verdade. Um gráfico bem desenhado costuma derrotar um argumento sólido. Uma nota de rodapé inspira mais confiança do que uma demonstração matemática. E um texto incompreensível é frequentemente confundido com profundidade. Poe estava apenas um século à frente de seu tempo.


O experimento Sokal


Em 1996, o físico Alan Sokal decidiu verificar se aquela velha receita ainda funcionava. Submeteu à revista Social Text um artigo com o título escalafobético: Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica. O texto era uma colagem deliberada de conceitos científicos empregados fora de contexto, jargão filosófico, citações irrelevantes e conclusões sem qualquer sentido lógico.


A genialidade do experimento estava na honestidade intelectual de sua desonestidade. Sokal não pretendia enganar físicos. Queria descobrir se uma revista importante aceitaria um artigo destituído de significado desde que ele confirmasse as convicções ideológicas de seus editores. A resposta foi um sonoro “sim”. O artigo foi publicado sem maiores dificuldades.


Quando revelou a fraude, Sokal provocou uma tempestade acadêmica. Muitos discutiram ética, pós-modernismo e relativismo científico. Poucos perceberam que a principal descoberta havia sido outra: um texto suficientemente obscuro pode atravessar o sistema de revisão por pares se disser exatamente aquilo que seus leitores desejam ouvir.


Da oficina para a fábrica


Durante mais de um século, produzir um paper falso exigia talento. Era preciso escrever bem, dominar o vocabulário especializado e compreender a psicologia do público. Poe conseguia. Sokal também. Ambos eram artesãos da credulidade.

No início do século XXI, alguém resolveu industrializar o processo. Em 2005, três pesquisadores do MIT criaram o SCIgen, um programa capaz de gerar automaticamente artigos científicos completos sobre computação. Bastava apertar um botão. Em segundos surgiam um título pomposo, um resumo convincente, gráficos aleatórios, diagramas indecifráveis e dezenas de referências cruzadas.


Gráfico técnico e abstrato gerado aleatoriamente pelo software SCIgen do MIT, simulando um artigo acadêmico com curvas de desempenho, eixos sem escala empírica e linguagem pseudocientífica em inglês.
Diagrama característico produzido pelo SCIgen: curvas elegantes, legendas técnicas plausíveis e ausência total de sentido empírico.

O SCIgen nasceu como uma piada. A piada terminou quando diversos desses artigos foram aceitos em congressos internacionais. Não porque fossem brilhantes, mas porque ninguém os havia lido com atenção. A revisão por pares, um dos pilares da ciência moderna, pressupõe que os pareceristas leiam os artigos que recomendam publicar.


A partir daí abriu-se uma caixa de Pandora editorial. Congressos predatórios se multiplicaram. Revistas descobriram que publicar rende mais do que rejeitar. Empresas passaram a vender autoria científica sob encomenda. A fraude deixou de ser uma travessura intelectual e transformou-se em modelo de negócios.


“Se Poe precisou de semanas para inventar um balão transatlântico, um chatbot produz cinquenta antes do café da manhã.”

Hoje, uma inteligência artificial produz em poucos minutos um artigo com aparência impecável, metodologia convincente, referências plausíveis e conclusões escritas exatamente no tom esperado por um periódico. Se Poe precisou de semanas para inventar um balão transatlântico, um chatbot produz cinquenta antes do café da manhã.


AI 2040: prevendo o passado


Naturalmente, a internet levou esse processo a uma nova escala. Assim, a fronteira entre previsão científica, ficção especulativa e planejamento estratégico tornou-se quase invisível. Um dos exemplos mais curiosos é o recente projeto AI 2040.

Ao entrar no site, o visitante tem a impressão de estar lendo um livro de História publicado no futuro recente. Os autores narram, em detalhes, como o mundo teria administrado a chegada da inteligência artificial geral, descrevendo decisões de governos, acordos internacionais, crises diplomáticas, avanços tecnológicos e mudanças econômicas como se todos esses acontecimentos já tivessem ocorrido. A narrativa é acompanhada por cronologias, documentos, gráficos e explicações cuidadosamente organizadas, reforçando a sensação de autenticidade.


O aspecto mais interessante é que o próprio projeto deixa claro que nada daquilo constitui uma previsão. Trata-se de uma reconstrução imaginária de cinco futuros — um otimista — concebidos para estimular o debate sobre governança da inteligência artificial. É uma obra de ficção política apresentada com o rigor visual de um relatório produzido após os acontecimentos.


É justamente aí que Poe voltaria a sorrir. Em A fraude do balão, ele descreveu uma viagem inexistente como se fosse uma reportagem recém-chegada da Europa. O AI 2040 utiliza a mesma estratégia narrativa, mas com objetivos opostos. Poe pretendia enganar seus leitores por alguns dias; os autores do AI 2040 procuram convencê-los a refletir sobre um futuro possível. Ainda assim, ambos exploram um velho recurso literário: contar uma história imaginária empregando todos os sinais exteriores da verdade.


Assim, a história dos papers falsos não é apenas a história de autores engenhosos. Durante dois séculos aperfeiçoamos essa técnica com admirável eficiência: primeiro vieram escritores talentosos, depois programas capazes de gerar artigos automaticamente e, finalmente, inteligências artificiais, que produzem textos, gráficos, referências e imagens, gerando uma nova forma de ficção interativa. Edgar Allan Poe talvez apenas sorrisse. Afinal, ele havia escrito o manual de instruções em 1838.


Referências

  1. Edgar Allan Poe: Ficção Completa, Editora Nova Aguilar, 1986. Contos de ficção científica, Aleph, 2025. (Como escrever um artigo à maneira da Blackwood tem uma continuação: Atrapalhada).

  2. Alan Sokal e Jean Bricmont: Imposturas Intelectuais, Record, 1999.

  3. SCIgen – An Automatic CS Paper Generator

  4. O site AI 2040 é mais otimista do que o anterior, o AI 2027.



Foto colorida de Luis CArlos Eiras, de cabelos grisalhos.

Luis Carlos Eiras, nascido em Cambuí, sul de Minas, em 1950. Mestre em Ciência da Informação pela UFMG. Escreve na revista Medium (medium.com) sobre tecnologia. Seus livros O moto contínuo, O Teste de Turing e Viagem ao País de Tropicana estão à venda na Amazon.

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