top of page

O general que releu Ulysses, de James Joyce, em 1967

Fotografia realista do interior de uma cela de prisão antiga e desgastada, com paredes de concreto cinza descascadas e pichadas. No centro, sobre um banco de madeira rústica e comprida, destaca-se um livro grosso com capa azul-celeste onde se lê o título "ULYSSES" de James Joyce. Ao lado e sob o livro, há folhas de papel envelhecidas. Ao fundo, vê-se uma janela pequena com grades de ferro, uma beliche de metal simplória e um vaso sanitário antigo. A iluminação é dramática, vinda da janela.
Em meio ao isolamento dos anos de chumbo, as páginas de Ulysses tornaram-se o ponto de encontro e o campo de batalha intelectual entre um prisioneiro e seu general carcereiro. (Imagem: Ilustração/IA)

Nota do Editor: Tito Guimarães Filho é um conhecido jornalista mineiro, diretor de redação do centenário Diário de Minas. Ele se junta à Armata Brancaleone do blog com uma primorosa crônica (Reportagem? Memória? Discussão literária? À sua escolha, fino leitor). Talvez uma jornada épica. Qualquer que seja a opção, não será tediosa. Acompanhe nosso pequeno Odisseu errante, perdido nos mares tempestuosos da vida, contando apenas com a sagacidade e a memória. Elas o levarão à sonhada Ítaca. Quem sabe?


O general que releu Ulysses,

de James Joyce, em 1967

 

Tito Guimarães Filho (*)


Uma prisão que durou 45 dias, o tempo exato que teve Ubiratan de Matos, o jovem jornalista brasileiro preso no Chuí, na fronteira com o Uruguai e  transferido, primeiro, para Santa Maria, depois para o quartel da Polícia do Exército, em Porto Alegre.


O Exército queria saber informações sobre a presença de Che Guevara, em Montevidéu. Ubiratan teria estado com Guevara, na Avenida 18 de Julho, participado de uma reunião com o Almirante Cândido Aragão e com o coronel Emmanuel Nicoll.


Fato descartado pela CIA, que colocara uma faxineira dentro do apartamento do almirante e pelo Cenimar, órgão de informações da Marinha do Brasil e, na sequência pelo próprio Exército, através do informante da embaixada brasileira no Uruguai.


Definitivamente, ele não esteve com o cubano.


O jornalista não participou naquele domingo do encontro. Atrasara. Estava na praia em Pocitos com a noiva.


Vamos ao que importa. O Ulysses, de James Joyce, na tradução do ano anterior, 1966, feita pelo filólogo e diplomata Antônio Houaiss.


O Pequeno General no comando da Polícia Federal do Rio Grande do Sul, inimigo de Leonel Brizola, queria informações sobre a dissidência do grupo de exilados com a criação da RAN, Resistência Armada Nacionalista, pelo grupo do Aragão e do Nicoll.


De volta ao Uruguai, o jornalista levava uma mala de livros. Talvez entre aqueles livros, haveria alguma mensagem do pessoal do PSB, cujo secretário geral, Bayard de Marie Boiteaux, estava preso em JF, onde respondia a um IPM, Inquérito Policial Militar, sobre a presença e prisão dos militares na Serra do Caparaó, em Minas Gerais.


O general pediu que o preso escolhesse um livro  que poderia levar para a cela.


- Escolha os livros que você queira levar para a cela. Calcule 45 dias de prisão, que será o tempo da prisão preventiva, que será prorrogada, autorizada pela LSN e pelo STM. Seu advogado, doutor Antônio Evaristo de Moraes, já protocolou seu habeas corpus.


Não vacilou, nem mesmo olhou outras obras. Pegou o Ulysses, de James Joyce, um catatau de 846 páginas.


- Vai levar só este?


- General, ainda não fui condenado em nenhum processo pela Justiça Militar, mas eu mesmo já me condeno: Ulysses me acompanhará.


- Não quer levar outros?


- Basta este e será suficiente para uma leitura de 45 dias. Lerei agora, que me dão a oportunidade. Não terei outra chance.


Em sua estante, o Pequeno General localizou o seu exemplar do Ulysses, de James Joyce, um autor da sua passagem pela Embaixada do Brasil em Londres. Começaria a relê-lo também. Apenas teria menos tempo do que o seu prisioneiro.


James Joyce provou, no início do século XX, com seu romance, que a Odisseia de Ulysses, de Homero, também poderia, capítulo por capítulo, ser vivida, em um único dia, por um cidadão comum.


Este o resumo e o roteiro: Leopold Bloom, de Dublin, Irlanda, é o novo Ulysses. Sua Odisseia dura menos do que um dia, em 16 de junho de 1904.


Agora, na segunda década do século XXI, resgatamos a histórica odisseia vivida por um preso, na cela de isolamento da Polícia do Exército, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, nos preparativos para os Anos de Chumbo do final da década de 60 e de toda a década de 1970.


Esta nova Odisseia durou 45 dias.


Nestes 45 dias, ele viveu a aventura de ler o Ulysses de Joyce, que não se lê em um dia. Ciceroneado pelo seu carcereiro, o Pequeno General Ataualpa de Mendonça, o Inimigo Mortal de Leonel Brizola, que se transformaria, no dia da sua libertação, no Grande General.


Naqueles dias, ora na parte da manhã, ora à tarde, encaminhado à sala para ser interrogado pelo general, a nossa conversa, não interrogatório, nenhum, girava em torno de James Joyce.


Na primeira semana, ele trouxe um exemplar das Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.


- Joyce traduziu Machado, não digo que ele plagiou, pode ter sido uma homenagem a um autor, lá da distante América do Sul, desconhecido, então, para o mundo europeu. Leia o encontro de Brás Cubas com Efigênia, capítulo XXXII, “Coxa de nascença”, e leia o encontro de Leopold Bloom, com Gerty MacDowell, na página 417. “Coxa também”.”


A fabulosa maestria e grandeza do escritor James Joyce está na leitura do Capítulo Nausicaa de Ulysses. Joyce parte de Homero e vai muito além.


O episódio "Nausícaa" (Episódio 13) de Ulisses passa-se na praia de Sandymount. Leopold Bloom observa a jovem Gerty MacDowell, que o seduz intencionalmente. O capítulo parodia o estilo de revistas cor-de-rosa e culmina com uma cena de voyeurismo e masturbação, simbolizada por fogos de artifício no céu.


Em Homero, a princesa Nausicaa resgata o náufrago Ulysses, sobrevivente e nu, desmaiado na praia, por quem ela se apaixona. Foi a última etapa da Odisseia, de Homero, antes de Ulysses voltar para Ítaca.


O general ressalta que, ao mostrar a beleza feminina, ambos apontaram o mesmo defeito físico. Machado, irônico, Joyce, direto e de passagem, muito rápido. Ambos realizando aquilo que a Vênus de Milo, a beleza sem os braços, mostra no Louvre. A beleza despreza os defeitos físicos.

Ou seja, uma obra de arte, mesmo com defeitos de linguagem, com experimentos ainda não assimilados, no caso o Ulysses, pode conter a beleza ainda não visualizada e a ser descoberta.

"Mas, dirás tu, como é que podes assim

discernir a verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?

Ah! Indiscreta! Ah! Ignorantona! Mas é isso mesmo

que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado,

para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos

nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante.

Não; é uma errata pensante, isso sim.

Cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior,

e que será corrigida também, até a edição definitiva,

que o editor dá de graça aos vermes”.

(Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis, pg 63, Círculo do Livro)

Com o Ulysses de James Joyce, ele passou os seus 45 dias na cela de isolamento.


Uma semana depois, em interrogatórios que raramente eram compilados pelo escrivão, pela primeira vez, o general voltou a falar do livro.


- O que você já leu do Ulysses?


Perguntou o porquê de alguns nomes, Dedalus, Stephen Dedalus. Bloom, Leopold Bloom.


O Pequeno General acompanhava a leitura do seu prisioneiro.


- É um direito adquirido pela passagem para a reserva.


- General, nesta eu levo a vantagem do isolamento.


- Sempre fui disciplinado. Até onde você leu?


- Vocês são uns loucos – disse o general se referindo à leitura de Ulysses.


Pensou, ele, um general já na reserva e sendo diretor da PF é que era louco no seu desejo de vingança contra Brizola e tudo o que pudesse ter relação com o político. Um exilado e, no exílio, condenado a viver em Atlântida, uma cidade distante da capital uruguaia.


A loucura que ele apontava no prisioneiro correspondia à escolha do livro.


Depois, o general ironizou.


- E vocês nos denunciam por torturá-los.


Talvez, talvez, ele tivesse razão. Não foi assim – um destes talvez correspondesse a uma tendência masoquista de muitos leitores, aqueles que deixam de viver para mergulhar em um mundo aberto pela imaginação das palavras. O general poderia, por aí, ter razão.

Existem leituras que se tornam vícios e que jogam as pessoas para fora da realidade como as leituras de cavalaria que enlouqueceram o dom Quixote e as novas fantasias que puseram a perder Madame Bovary. Afinal, dois personagens geniais porque denunciam, exatamente, aquele tipo de literatura a moldar um caráter e um comportamento.


Passou pela grande cela vazia, naquele momento. Dentro dela duas pequenas celas. Estas não tinham nem água e nem privada. Eram as celas de castigo.


Caso houvesse outros presos na cela maior, nenhuma comunicação física haveria entre os prisioneiros. A cela grande isolava as duas pequenas celas de dois metros por um metro cada. Celas dentro da cela maior.


Não tinha nenhum preso. Soube pelo general que não havia nenhuma acusação contra ele. Mesmo assim, fora decretada a prisão provisória por 30 dias, que seria prorrogada por mais 15 dias. Viria de São Paulo por um oficial para interrogá-lo. O oficial chegaria no dia seguinte.


O que eles queriam saber, eles já sabiam. Fugira de BH, depois de ser libertado da prisão em Juiz de Fora. Sabiam que ele tentara despistá-los em Minas e no caminho até o Rio Grande do Sul. Suspeitavam que tivesse uma missão no Uruguai para onde voltava, com a desculpa de rever a noiva, também exilada com toda a sua família.


Suspeitavam que o professor Bayard de Marie Boiteux , secretário nacional do PSB e líder do MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário), poderia estar usando o jornalista como pombo correio. Bayard fora indiciado como comandante civil da Guerrilha do Caparaó.


O engenheiro Moysés Kupermann, dirigente trotskista, talvez o tivesse incumbido de levar uma mensagem que, eles sabiam, que se existisse, estaria em um daqueles livros.


O general tinha, mais uma vez, a certeza de que eu seria “torturado com aquela insistente leitura”.


(Seria a conclusão dos peritos?)


Ele riu. Um homem pequeno e enfezado, bem humorado.


- Pode rasgá-lo depois. Será a sua vingança contra Joyce.


- Amanhã, você será interrogado pelo capitão Carlos Lamarca.



Retrato fotográfico colorido em plano fechado do jornalista Tito Guimarães Filho. Ele é um homem de cabelos grisalhos, usa óculos de grau com armação fina e olha diretamente em direção à câmera com uma expressão séria, compenetrada e pensativa.

(*) Tito Guimarães Filho é jornalista, diretor de Redação do Diário de Minas e um escritor que insiste, pirraça e, aos poucos, inventa linhas parecidas com letras de páginas já lidas — pelo menos por ele.



Comentários


bottom of page