O ano que o meu pai casou com a minha mulher
- TITO GUIMARÃES FILHO

- há 7 horas
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O ano em que meu pai casou com minha mulher
Tito Guimarães Filho (*)
Nota do Editor: Tito Guimarães Filho nos conta um causo. Um jornalista mineiro, de Teófilo Otoni, narra um episódio dos anos de chumbo. Um depoimento pessoal. Uma boa história, bem contada. Não será enfadonha, caro leitor. Mas o autor (Tito? O narrador?) nos deixa aqui e ali pistas que nos dão a entender que as fronteiras entre a memória e a ficção, a crônica e a reportagem, o pesadelo da história da qual queremos acordar e a digestiva literatura de resistência foram borradas. Cuidado, caro leitor. Boa leitura.
Encontrei este depoimento no livro “Memórias: Poesia, Verdades e, de quebra, muita luta”, paródia de Goethe, feita pelo jornalista que morou e trabalhou no Norte do Brasil, naquele ano em que “os homens viveram em um tempo sombrio”, de acordo com registros de Hannah Arendt.
“Era 1970 e foi em Macapá, no Amapá. Era o tempo da Copa do Mundo no México. Passagem comprada em um navio que faria várias escalas nas Guianas e seguiria com destino final para a sede da Copa.
Antes de embarcar, ainda em Belém, na Praça da Liberdade, na casa dos estudantes do Amapá, fui preso para cumprir 33 anos de prisão a que estava condenado pela Auditoria Militar da Marinha de Guerra, no Rio de Janeiro. No processo, mais de duas dezenas de condenados. O primeiro nome era o do professor Darcy Ribeiro.
Aquele foi o ano em que li A Divina Comédia, de Dante Alighieri, numa edição em que as muitas notas traziam a história da Itália, com detalhes da rapaziada que Dante, ciceroneado por Virgílio, descreve em sua longa caminhada por aquele Inferno. São os prazeres e benefícios destas férias forçadas por condenações que se querem exemplares. Assim, se conhece também outros infernos.
Ouvi os jogos pelos alto-falantes da Praça Marechal Âncora, no Rio de Janeiro, uma pequena praça ao lado da Praça 15.
Na cela da Polícia Federal fiquei um ano e dois meses por determinação do Cenimar, o centro de inteligência da Marinha, que, segundo o advogado Antônio Evaristo de Moraes Filho, eles precisavam esclarecer alguns pontos do processo em que não fora ouvido, pois era um condenado à revelia. Raros foram os momentos em que saí da cela para ser interrogado, nunca entendi as punições, sempre cortes da única refeição que era servida por dia e de água – a pior para enfrentar o calor do Rio.
Eram três celas, numa permaneci a maior parte do tempo sozinho. Nas outras duas havia intenso movimento.
Fiquei preso nas celas da Polícia Federal, no Rio de Janeiro, na carceragem da Praça Marechal Âncora. O muro em frente à cela número 2 dava para a rua Santa Luzia. A Marechal Âncora é uma pequena praça ao lado da Praça 15. Condenado, ali permaneci para ser interrogado pelo órgão da inteligência da Marinha, o Cenimar. Os interrogatórios, em um ano e dois meses naquela prisão, ocorriam ocasionalmente.
“Por que chamam de ‘órgão da inteligência...’ a área dos profissionais da tortura e do assassinato?”, questionava o assustado caminhoneiro Arquibaldo Mendes de Souza, preso e condenado pela Lei de Segurança Nacional por portar uma pistola calibre 45, arma privativa das Forças Armadas.
Da parte dos militares, havia mais interesse em uma punição extra. Condenado à revelia e, no meio da guerra de rua, guerra pesada, não tinham muito tempo para se preocupar com um caso encerrado, um homem condenado, fugitivo capturado e ali encarcerado.
A não transferência para as celas do Cenimar e as dificuldades opostas a um interrogatório mais violento eram parte da estratégia do advogado Antônio Evaristo de Moraes Filho.
Todos os dias, na parte da manhã, estando no Rio de Janeiro, o doutor Evaristo passava pela prisão e quando não podia enviava um estagiário do seu escritório — filho de um almirante, uma autoridade para os carcereiros e para os delegados de carreira e, além disso, alta patente militar, sempre citada na apresentação. Intimidava. Era o “filho do almirante Caminha”.
Os interrogatórios, aparentemente, não eram planejados. A punição, definida depois de cada visita ou interrogatório, relacionava-se com as condições da cela, mantida a maior parte do tempo sem nada dentro, sem colchão, cobertas, toalhas e até sem água. O tanque ficava do lado de fora das três celas.
Água era uma vez por dia, no máximo duas vezes, e daquela torneira, daquele tanque. O acesso à água da torneira se dava com a intervenção do carcereiro.
Por que este destaque à água? Basta pensar no Rio de Janeiro e se situar. Pensar em calor, verão, o cara dentro de uma cela de cimento puro e terá uma ideia do que é dormir e acordar em um caldeirão natural.
Isto quando o caldeirão não estava superlotado. Se o carcereiro não aparecia significava que houvera uma proibição (ou uma punição).
Cama e o cobertor, quando permitiam, eram improvisados. Cama e cobertor feitos de jornais. Assim como a madeira para as fogueiras nas noites de inverno – madeira feita de jornais enrolados. Pirulitos, na linguagem da cadeia.
Agora, pense o inverno dentro de uma cela originalmente uma geladeira. As antigas geladeiras do IML, Instituto Médico Legal do Estado do Rio de Janeiro, eram depósito de cadáveres. As geladeiras foram desativadas e adaptadas para aquela prisão transitória de três celas.
Os jornais enrolados transformavam-se em lenha, lenha sempre economizada. A transformação do jornal em lenha era uma arte e um passatempo. Depois de enrolados, os pirulitos de jornais eram dobrados, para que permanecessem enrolados. A dobra era a arte em que surgiam figuras geométricas a partir de triângulos. Aquela lenha tinha uma ponta que permitiria movimentá-la dentro do fogo.
Este período de prisão na Praça Marechal Âncora durou um ano e dois meses, de janeiro/fevereiro de 1970 a março/abril de 1971.
Agora o Miranda, secretário-geral do PCB, em 1935. Conheci o Miranda em 1970. Era o prisioneiro da primeira cela no cárcere da PF na Praça Marechal Âncora. Eu ficava na segunda cela.
Conheci? Nunca o vi. No corredor em L, a primeira cela ficava logo na entrada. As outras duas, na outra perna da letra. Conheci porque os carcereiros falavam sobre aquele homem que tinha pesadelos, gritava muito. Disseram que ele, torturado em 1935, revivia em seus gritos as torturas sofridas.
Naquele momento, em que o Miranda esteve preso, já muito velho, aposentado do DNER, era investigado por suspeita de ter passado informações sobre o transporte de dinheiro no carro-pagador do órgão federal.
Ao contar os detalhes desta expropriação, os carcereiros riam porque teria sido tanto dinheiro que, transportado para uma Brasília utilizada na operação, o carro arriou e rodou até soltar o cano de descarga. Conseguiram escapar com o dinheiro, nunca recuperado, mesmo com a prisão de um bocado de gente envolvida.
Na história política do Miranda e sua ascensão ao comando do PCB como secretário-geral, tiramos uma lição da disputa entre a liderança intelectual e a liderança sindical. Antes da eclosão da tomada dos quartéis no Rio, os intelectuais foram afastados e os operários, a liderança operária, passou a comandar o partido. Saiu Astrojildo (é com jota mesmo) Pereira, intelectual, escritor, fundador do partido. Entraram os operários, os homens de macacão e mãos sujas de óleo.
Miranda ficou em torno de dois meses naquela cela. Isolado, revivia todas as noites as torturas de 1935. Estes pesadelos vinham em golfões, em jatos como vômitos, que o despertavam. Isto se repetia até três vezes por noite. Tínhamos a impressão de que só parava ao desmaiar.
Em 1935, tivemos em Natal, no RN, o primeiro governo comandado por um operário. Curta duração, desfeito pelos bombardeios.
Naquela ocasião, no Rio, identificaram a mulher de Miranda, uma moça de 16 anos, como a pessoa que teria participado das prisões de dezenas de lideranças do PCB assassinadas. Ela foi morta e há uma carta atribuída a Prestes com a ordem de sua execução.
Prestes estava preso, ficou mais de 9 anos, quase sempre em solitária. Minha dúvida é sobre a autoria da carta. Principalmente, não há na sua trajetória de guerreiro, que percorreu o Brasil no comando da Coluna Prestes, registro que não seja de um comandante militar, em guerra, profundamente humano.
Muito tempo depois, vi um documentário em que mostram Luiz Carlos Prestes, o líder, o político e o homem. Neste documentário, aparece um pequeno trecho com a história do Miranda, o secretário-geral do PCB, como uma história trágica. Este mesmo Miranda aparecerá nas Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos.
Um corredor movimentado
“Sou um cowboy. Saco rápido e meu tiro é certeiro”, dizia o coronel Barbosa.
Este talvez tenha sido um dos momentos mais difíceis para todos nós. O coronel Barbosa, oficial da Aeronáutica, assumira o combate aos traficantes. No primeiro momento, por uma vingança pessoal. Na sequência dizia combater o terrorismo político. Pelas suas características e ações era um homem extremamente violento.
Contam que ele, ainda na ativa, teria surpreendido a filha aplicando droga na coxa, dentro do banheiro. Suspeitara de que o noivo repassara a droga. A filha confirmou e ele trucidou o rapaz. Até localizar e acabar com o noivo e o chefe do tráfico, ele comandou uma feroz perseguição às quadrilhas de traficantes nos morros do Rio. Capturou o noivo numa emboscada na Ilha do Governador, que teve um saldo trágico de mais de dez mortos de lado a lado. Uma operação de guerra, em que ele usou de recursos da própria corporação. Este crime determinou seu afastamento da Aeronáutica.
Com Médici no comando da República, voltou para combater, com a mesma selvageria, “o terrorismo político”. Construiu uma estrutura dentro da Aeronáutica em que a tortura se dividia em três níveis, nas imediações do Aeroporto do Galeão. No primeiro nível ficavam os que eram torturados na “Biblioteca”. No segundo nível, os que ainda eram recolhidos e remendados no “Hospital”. A “Alemanha Esburacada” era o terceiro nível, formado por um conjunto de celas subterrâneas nas imediações da pista de pouso. Poucos saíram vivos da “Alemanha Esburacada”. Diziam que todos os corpos e sobreviventes do terceiro nível eram lançados ao Atlântico.
No comando destas operações, o coronel Barbosa invadia os espaços aéreos e territoriais de todos os países da América do Sul, principalmente Bolívia, Paraguai e Chile, onde ele recolhia prisioneiros políticos.
Contam ainda que, na época do primeiro afastamento, ele perdera a filha, morta por uma overdose no banheiro da sua casa. Perdera também a mulher, que desapareceu com um recruta, e o filho fugira para São Paulo, onde vivia em endereço ignorado pelo pai.
O coronel passara a viver com uma amante, informante e drogada, sua ex-prisioneira, mulher sequestrada por ele e que passara a manter “prisioneira” em casa. De prisioneira e dedo-duro, ela se tornara uma “fornecedora”. Alice, Dora Alice, era a dona do pedaço e, sem medo, conseguiu se tornar a parceira ideal do coronel Barbosa.
Baixo, pouco mais de um metro e 50, o coronel Barbosa usava um uniforme, segundo ele mesmo, “incrementado” para a guerra, e na cintura um revólver com o coldre amarrado em torno da coxa direita. Um cowboy. “Sou um cowboy, saco rápido e meu tiro é certeiro”.
Um belo dia de sol e muito calor, chega o irmão do ministro da Justiça da ditadura de Médici. Fora preso por engano e passara uma temporada na “Alemanha Esburacada”. Entraria para a história como seu único sobrevivente e que não mergulhara no Oceano. Com mais de 100 quilos, chegara na Marechal Âncora com pouco mais de 60. Restos de homem. Um homem destruído e a falar coisa com coisa.
Em seguida, soubemos que no “Hospital” um médico protestara, por escrito, em um comunicado interno. Depois de operar e recuperar o braço de um prisioneiro e de recebê-lo, de novo, com os mesmos traumas, dias depois, o médico, além do comunicado, para a segurança do preso, quis obrigar a escolta a transferi-lo para outra unidade da Aeronáutica. Em casa, no dia seguinte, a surpresa do médico: o corpo do prisioneiro do braço quebrado estava no porta-malas do carro.
Desta vez, ao invés de um ofício ao Ministério, o médico comunicou o fato, além de outros relatos de atrocidades, a brigadeiros e oficiais superiores da reserva, que, comandados pelo brigadeiro Eduardo Gomes, assumiram o comando da Força e criaram um “fato político e militar” cujas consequências eram imprevisíveis. Os militares no comando do País decidiram afastar o ministro e desativar aquelas unidades de tortura da Força Aérea. Ditadura a ferro e fogo, torturas e assassinatos. Era o governo Médici.
Com os dois episódios, a notícia era de que fora reaberto o inquérito sobre as mortes no conflito da Ilha do Governador, em que morrera o noivo da filha do coronel Barbosa.
Uma história contada pelos presos, com um personagem real, o coronel, que transitava pelos corredores da prisão da Praça, carregando sua pistola dependurada na cintura.
Uma outra noite, trouxera, carregado pelas pernas e pelos braços, um prisioneiro desmaiado. Ele tinha a calça jeans toda ensanguentada. Um rapaz magrelo, pequeno. Dava para ver que o sangue coagulara e transformara sua calça num papelão grosso.
Jogaram-no na Cela 3, a última do corredor. Tentamos um contato. A impressão era de que nem mesmo respirava mais. Na outra madrugada, o coronel Barbosa voltou e, mais uma vez, dois policiais da Aeronáutica carregaram aquele corpo pelos pés e pelos braços. Saiu dali desmaiado ou morto...
Direto para o Atlântico?
Com certeza.
Enfim, terminamos.
Ah! Falta concluir 1970, ano da Copa do Mundo, e falar do casamento do meu pai com a minha mulher.
Enquanto estive em Belém, no Pará, à espera da transferência para o Rio, soube que minha mulher, em Macapá, estava grávida. E solteira. Eu não permitiria que esta situação continuasse. Ela tinha direito (eu também) de ter aquele filho se quisesse. O que fazer? Não podia deixar uma moça nova, solteira e grávida, em Macapá. Eu não conhecia aquela sociedade, mas conhecia a minha Teófilo Otoni, em Minas Gerais.
A solução era um casamento por procuração. Foi aí que entrou a solução. Pai seria meu procurador e me representaria. Ele casaria com a minha mulher por mim.
Assim foi feito, e o nosso filho nasceu naquele ano em que o Brasil ganhou o tricampeonato mundial de futebol.
Ah! Ainda. Não cumpri os 33 anos de prisão. Eu tive um advogado.
O doutor Antônio Evaristo de Moraes Filho obteve, no Superior Tribunal Militar (STM), a redução para 3 anos. Mesmo preso, fui condenado, em Belém, a mais 5 anos, também reduzidos a dois. Ele fez a defesa a pedido do Partidão, o PCB, mesmo tendo integrado o grupo da ALN, com Carlos Marighella.
Anos depois, perguntei ao meu pai quanto foi que pagou ao dr. Antônio Evaristo.
— Ele não cobrou nada.”

(*) Tito Guimarães Filho é jornalista, diretor de Redação do Diário de Minas, e um escritor ardiloso.










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