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REPUBLICANDO CURITIBANICES: PINHÕES, PINCELADAS E MACHADADAS

Província, cárcere, lar, esta Curitiba eu viajo

Marumbi retratado em obra de Lange de Morretes.

Já escrevi aqui sobre a curitibaníssima calçada de petit-pavet e seu pinheiro e pinhão estilizados. Já registrei também meu inconformismo com as depressões, crateras, buracos, interrupções e armadilhas sem fim que espreitam o candidato a flaneur curitibano. O pobre Baudelaire, homem que, ao que dizem as almas puras, seria dado a vícios terríveis, entre os quais o da embriaguez (vício nunca por demais execrado pelos bons), teria cedo encerrado sua carreira em Curitiba, internado com fraturas múltiplas e lesões variadas na Santa Casa ou no Hospital de Clínicas. Mas os flaneurs curitibanos, desde a tenra infância acostumados aos perigos que rondam os caminhantes na cidade, prosseguem impávidos, atentos à sua advertência (de Baudelaire):


Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada

Não bordaram ainda com desenhos finos

A trama vã de nossos míseros destinos,

É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.


Um dos que arriscaram tudo em sua busca incansável foi um dos homens que primeiro pensaram em fazer dessa araucária brasiliensis algo mais do que um mero provedor de repastos curitibanos invernais. Refiro-me a João Ghelfi, pintor curitibano (embora nascido na Argentina). A história é contada por Lange de Morretes, em um livro escrito em 1944 (“Uma árvore bem brasileira”) e, segundo minha fonte, Adalice Araújo, nunca editado. (Mas o texto de Adalice é de 1974). Estavam eles, Ghelfi, Turim e Lange no ateliê de Ghelfi, na Marechal Deodoro, discutindo o pinheiro, quando


Ghelfi, sonhador e entusiasta, tomou de um pedaço de carvão e na parede de seu atelier traçou, no tronco do pinheiro, um fragmento de fuste, sobre o qual compôs um grupo de pinhas como capitel. Turim e eu ficamos com uma semente no peito a germinar. O semeador Ghelfi contentou-se com a semeadura.


Ambos, Turim e Lange, prosseguiram seus trabalhos e pesquisas sobre o tema, e um de seus resultados é aquele em pisamos, fruto do labor germânico de Lange de Morretes. Pois é, caro leitor, quando você pisa nas pedras, distraído, saiba que estas foram, no início, um insight de um argentino-curitibano, estabelecido em um ateliê na Marechal Deodoro. As obras de Lange de Morretes e João Turim estão espalhadas por aí. O amor de Lange de Morretes pela terra, sua paisagem, sua luz, tornaram-se lendários. As obras de Turim estão aqui e ali, lembrando ao caminhante que eventualmente os vê (poucos realmente os vêem) o que já fomos e esquecemos, embrutecidos pela vida inautêntica.



E por anda Ghelfi?


Se você pesquisar no Google, pouco vai encontrar. Feliz ou infelizmente, a Ghelfi estava reservado o destino daqueles que os deuses amam (aqueles que os deuses amam morrem cedo) escapando ao cárcere curitibano (mas que para ele era um lar, cercado por amigos artistas). Ghelfi, um homem dado à boemia, ao que parece, era também dado à infidelidades conjugais, o que provocou a fúria de sua mulher, Carmela. O resultado, clássico, foi um ataque a machadadas, que, aparentemente, vitimaram também suas obras. Carmela foi inocentada pelo juiz, que considerou a falta de indícios veementes de autoria. A Justiça concluiu que Ghelfi teria caído em cima de uma machadinha que ela empunhava, o que teria provocado sua morte. Por cavalheirismo (ou por falta de um pedaço de cérebro), Ghelfi, que não morreu imediatamente, não acusou a mulher do crime. Seu pai defendeu a nora, acusando a incapacidade do filho de cumprir com seus deveres conjugais. Caso encerrado.


A nós resta a lembrança que seus amigos deixaram: um homem brilhante, boêmio, dado a trocadilhos, sociável, crítico de arte, pintor e escultor. Seu atelier, que antes fora de Andersen e do fotógrafo Volk, localizado na Marechal Deodoro, na esquina com a Rua Doutor Murici, foi depois sede da Boate Marrocos e muitos anos depois a Sinuca 21, palcos da vida noturna curitibana. Da Marrocos conta-se que Jesse Valadão, famoso machão da cinematografia nativa, fora expelido escada abaixo – mas esta é uma outra fofoca. O 21, sob a direção de Beto Batata, graças ao seu charme e competência, foi durante alguns anos ponto de encontro de boêmios curitibanos. João Ghelfi, Andersen e Volk lá estão, sorrindo às novas gerações.


Ivan Junqueira assina a versão de Baudelaire, de Flores do Mal. Soube que a Prefeitura de Curitiba está preparando um Museu de Esculturas, onde obras de João Turim serão expostas em um ambiente próprio. Aguardamos ansiosamente. Lange de Morretes desejou ser enterrado de pé, em Morretes, olhando para o Pico Marumbi. Morretes vale uma viagem. A dele valeu. João Ghelfi e Carmela, esposos e amantes, debatem-se em seu labirinto conjugal. Nós pisamos em suas calçadas, distraídos.

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