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VINHO, MULHERES E CANÇÕES


Ouço dizer que os amantes do vinho serão danados no Inferno.

Não há verdades, mas há mentiras evidentes.

Se os que amam o vinho e o amor vão para o Inferno, o Paraíso deve estar vazio.


Imagem de Poder 360.


A manguaça deve ser o mais popular ingrediente da cesta básica. O quê? Não está na cesta básica? Tenho certeza que nosso presidente, que, diz a oposição, é chegado a uma caninha, logo corrigirá este erro sesquipedal. Se não o fizer, os manguaceiros-raiz passarão a fazer oposição sem tréguas ao governo. Governo popular que não respeita os costumes milenares da humanidade? Fora! Às barricadas, cidadãos manguaceiros! Aos tonéis, responderão sedentos.


O manguaceiro-raiz – e me apresso a dizer que não faço parte deste time – sabe que sem o tira-gosto antecedendo a feijoada, a rabada, a dobradinha portuguesa, o virado à paulista (ou mineiro, tanto faz), mais um torresminho, não tem graça nenhuma. Portanto, dá-lhe cachaça e cerveja. Antes, durante e depois.


Antes que as almas puras que me acompanham (meus sete leitores, a mulher do Publisher não conta) me critiquem, pelo desfilar de alimentos politicamente incorretos – pouco saudáveis, num mundo onde contar calorias e ingerir alimentos pode ajudar a salvar o planeta – apresso-me a dizer que sou ciclista de coração, vegano espiritual e adepto da Lei Seca. Embora tenha votado no Primeiro Manguaceiro da República, não deixo de pensar, pelo menos uma vez por ano, durante a Quaresma, que a contenção é algo a ser praticado. É o que farei, depois que completar 99 anos.


Muitos pensam que este país não tem jeito, dado o grande número de adeptos da cachaça, e a quantidade imensa de botequins de alto e baixo coturno que pululam em cada esquina. Jovens bebem cada vez mais, dizem. Como não sou mais jovem, vou deixar passar o argumento. Mulheres bebem como homens, insistem as almas puras, indignadas. Como não sou mulher, também deixo passar.


Enquanto tomo meu chimarrão matinal, penso nos amigos (pobres coitados) dados ao vício milenar. E já que estão no inferno, por que não dar um abraço no diabo? Assim, dá-lhe más companhias, destas que se encontram em respeitáveis casas, que prosseguem a tradição da Otília, uma senhora que nos anos 50 e 60 se especializou em proporcionar conforto aos homens da terra. É uma tradição curitibana, e curitibano-raiz respeita a tradição. Assim, outras senhoras respeitáveis que não a Otília mantém viva a tradição, ainda hoje.


Já contei aqui a história do ator Ary Fontoura, que iniciou sua carreira artística cantando em restaurantes, e, descoberto pela famosa cafetina Otília, passou a se apresentar em suas casas. Acho que ele já era um homem bem-humorado, mas seu, digamos assim, filosófico bom humor, deve ter se aprimorado naqueles concertos noturnos. Tendo cantado Tres Palabras para Getúlio Vargas, que lá esteve na Otília para espairecer dos chatérrimos eventos a que foi obrigado a comparecer (na inauguração da Biblioteca Pública e Praça do Homem Nu), deve ter pensado nas vicissitudes humanas, que atingem igualmente homens ricos e pobres, poderosos e humildes. Getúlio, todo-poderoso, lamentava a perda de seu amor, Aimé, uma das mulheres mais lindas do universo. Dá-lhe manguaça (no caso dele, uísque), charutos e boleros belos e melancólicos. Getúlio Vargas, o estadista, ao contrário de seu afilhado político João Goulart, não era chegado a amores de uma noite. No fundo, era um romântico.


Vamos combinar: sem música, não tem graça. Não há vinho bom, não há mulher bonita. Getúlio sabia.



A epígrafe é de Omar Khayam, no Rubaiyat, na versão de Octávio Tarquinio de Souza. Para os cultos, neste volume há uma erudita crítica de Alceu Amoroso Lima, na forma de uma carta ao tradutor. Cavalheirescamente, ela foi impressa junto com os poemas. Trata-se de uma crítica católica ao poeta ateu e hedonista. Amoroso Lima lembra que tudo o que se encontra em Khaiyam está no Eclesiastes. É verdade. Lá está escrito que não há nada de novo debaixo do sol. Tintim.

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