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3 CONTOS SOBRE GOLFE - I


Em três domingos, apenas para quem ama o golfe.


Imagem de Golfe e Turismo.


UMA MANHÃ NO CAMPO DE GOLFE


Não se dorme direito na véspera. Você demora pra pegar no sono, pois em vez de “desligar”, fica pensando em cada detalhe dos dezoito buracos que lhe aguardam. É inevitável, e acabas passando a noite em estado de limbo, nem dormindo, nem acordado. A ansiedade é justificada, sabes que será uma manhã muito gostosa: excelente companhia, caminhada num visual belíssimo, e a ludicidade do esporte mais maravilhoso que já foi inventado. Porém, ao ouvir o despertador às 04:45, tem a sensação de estar dormindo perfeitamente bem. Por um breve momento, se arrepende de ter que sair da cama quentinha e confortável. Uma vez de pé, o arrependimento se dissipa, como que por mágica, apesar dos 5 graus acusados no termômetro. Arruma-se vagarosamente e com muita cautela, para não acordar a esposa e a filha, que dorme angelicalmente em seu bercinho.


Vestido e alimentado, sai à rua na esperança de seu pai e sua irmã chegarem no horário combinado. Como de costume, a esperança se esvai ao longo dos 15 minutos de atraso habituais. Nada que abale o ânimo da empreitada. Nos 40 minutos seguintes, rumo ao campo, a alegria no rosto de cada um é tangente. Tem-se a certeza de estar no carro mais feliz da cidade naquele momento, cerca de cinco e meia da manhã. Durante o trajeto, planos são inocentemente debatidos para que a equipe consiga bater sua melhor marca, e frases de efeito moral são entoadas, desde as mais sinceras até as mais jocosas. São os primeiros goles deste fantástico elixir, que é uma manhã no campo de golfe.


Além de trabalhar as articulações, e soltar a musculatura com leves alongamentos, o ideal seria se aquecer com bola antes de ir direto para o jogo. Não o fazemos, pois o clube sequer está aberto ainda. Entramos no campo por uma abertura na cerca, que sempre esteve lá. Começar o jogo sem o adequado aquecimento não é fácil, pois o movimento ainda não flui em sua máxima eficiência, encontra-se travado. Ainda mais com 5 graus em campo aberto, tomado pela geada. Até a luva roubar calor suficiente para atingir os 36,5 graus do seu corpo, a sensação é que sua mão está congelando. Mal se enxerga a bandeira, que sinaliza onde está o buraco, tamanha espessura da névoa matinal. Por incrível que pareça, a alegria em estar ali só aumenta.


As primeiras tacadas trazem sempre os mesmos comentários. Se foram ruins, é devido ao longo período sem jogar. Caso tenham sido boas, a justificativa é a mesma, mas nesse caso o hiato fora positivo, pois removera alguns velhos vícios, e a tacada saíra mais limpa e natural. No seu íntimo, todos percebem o paradoxo, mas comentá-lo seria uma heresia. Sendo assim, parece haver um acordo velado em exercitar a condescendência mútua nesse momento.


A visibilidade diminuída dificulta acompanhar o voo da bola. Encontrá-la em meio à geada é um desafio. Mas há um fator positivo, e até divertido. É possível aprimorar a leitura das caídas do green depois que a primeira bola deixa uma linha no orvalho. De maneira semelhante, podemos atestar um fato curioso ao olhar para trás: como caminhamos torto. Nossas pegadas comprovam sem dó as sinuosidades de nosso displicente andar. Ansiamos por tacadas cada vez mais precisas, mas não conseguimos sequer andar em linha reta.


O primeiro terço da partida é marcado pelo frio e as peculiaridades que ele traz. O jogo fica ainda mais difícil, pois a densidade do ar faz com que a bolinha voe menos e, ao atingir o solo, role menos também. É preciso, então, aumentar a amplitude do movimento, para compensar a perda de distância, escolhendo tacos maiores do que o habitual. Por si só, já seria um fator dificultador, mas ele nunca vem sozinho, traz consigo um companheiro invisível e perturbador: a pulga atrás da orelha. Nosso subconsciente não acredita na adaptação na relação distância/taco que estás a empreender, e sabota nossa coordenação motora. Inconscientemente, não realizamos o movimento da maneira que pretendemos, prejudicando o resultado. Evidente que isso não acontece sempre, e a gradação do prejuízo também varia, mas é muito raro passar incólume em relação a isso durante toda a partida.


Cerca de seis buracos se passaram, e a nostalgia precoce já começa a bater. Mesmo tendo ainda doze buracos pela frente, olhas para trás com certa saudade dos que se foram. Não sabes ao certo quando terás a oportunidade de jogá-los novamente, podendo levar até meses. Fica a vontade de encarar seus desafios e individualidades mais uma vez. Outra abordagem, quem sabe, uma batida diferente, mais carinho e concentração, enfim, a cabeça divaga um pouco.


O Sol, que até então parecia apenas uma lâmpada de geladeira, começa a se fazer mais presente. Juntamente ao fator movimentação, faz com que as primeiras camadas de casacos sejam removidas e estes amarrados às bolsas, sempre de maneira improvisada. Bolachas salgadas são agora um excelente petisco, para dar um up para o próximo terço do jogo. Durante essa pausa, percebes que o bem-estar corporal e espiritual já atinge níveis muito elevados. Faz-se uma olhada panorâmica do campo, respirando fundo, com a sensação de pertencimento. Sabes que é este o seu lugar.


No segundo terço do jogo, o resultado começa a cair, apesar de ninguém estar particularmente jogando muito pior do que no começo. É inexplicável, principalmente porque o buraco que começa a derrocada é tecnicamente o mais fácil do campo. Mesmo assim, ele sempre “nos pega”. Sua irmã começa a velha ladainha de lamentar a atitude da equipe, acusando-nos de displicência. Seu pai repete que o problema não fora concentração, mas execução, um simples erro motor, costumeiro a jogadores do nosso handicap. Você diz entender o posicionamento de ambos, mas acaba concordando com seu pai, e seguem para o próximo buraco ouvindo as lamúrias de sua transtornada irmã caçula.


Mais três buracos se passam. Alguém tem protetor? Pergunta clássica nessa altura da partida, pois o Sol já começa a abandonar sua inclinação saudável, ficando agora alarmante. Todos começam o ritual de proteção da pele, ouvindo comentários sobre os últimos buracos. O tema varia entre elogios a algumas boas tacadas e tentativas de correção de tacas ruins, como se fôssemos especialistas. Estas, raramente funcionam.


Chegando ao “tanquinho”, buraco mais icônico do campo, promessas são feitas para o caso de alguém fazer um hole in one, isto é, embocar na primeira tacada. Geralmente se fala em comemoração à base de pizza, talvez porque a fome comece a se manifestar nessa altura do jogo. Fato é que essa pizza nunca foi saboreada. Comemora-se o simples fato de haver uma das três bolinhas no green. Esse é o buraco em que aquela nostalgia bate mais forte. A vontade é de subir a “barroca” e bater mais 10 bolas, pois seu desafiador green é extremamente simpático e convidativo, um verdadeiro sedutor. Nunca o fizemos. Apesar da tentação, seguimos o curso da partida.


O último terço do jogo começa com uma barrinha de cereal para cada um, pois ninguém é de ferro. O cansaço começa a bater e influenciar negativamente em algumas tacadas. O Sol, agora forte, como uma típica manhã de outono, faz a equipe se arrastar em campo, castigando sem dó. Os greens estão agora secos, e a bola fica mais rápida do que no começo do jogo. Mais adaptações são necessárias. O psicológico da trinca de patetas pende entre a aceitação da derrota e prognósticos superotimistas para os buracos seguintes. Geralmente, começa-se a forçar as tacadas, tentando extrair o resultado “na marra”, o que quase sempre dá errado. As piores tacadas do dia acabam saindo nesse intervalo em que ainda se acredita que é possível.


Quando a esperança esmorece por completo, o jogo volta a ficar bom, e algumas das melhores tacadas do dia acontecem sem muito esforço, ao natural, fato que traz uma enxurrada de lamentações, cobranças e autocríticas. Por que desperdiçamos alguns buracos forçando as tacadas, sendo que jogar leve traz melhores resultados!? Seja qual for a conclusão, jamais é colocada em prática, e, na partida seguinte, os mesmos erros são cometidos. Não à toa, é o esporte mais difícil que existe, pois alia o movimento mais complexo de todos os esportes à questão psicológica mais profunda. A bolinha está sempre parada, ninguém tenta atrapalhar ou impedir sua tacada, não há cronômetro lhe apressando. Seu inimigo é sua própria cabeça, é você contra você mesmo. O corpo sabe executar o movimento, mas a mente atrapalha. Há uma linha tênue entre bater relaxado (para minimizar o efeito psicológico) e bater displicentemente, sem se concentrar na questão motora.


No tee de saída do último buraco, a nostalgia parece maior do que quando o jogo termina. Colocamos o “pino” no chão uma última vez. Retiramos o driver da bolsa uma última vez. O paraíso está acabando, e logo voltarás para a rotina do trabalho em busca do dinheiro necessário para sobreviver. Sentes um misto de amargura e gratidão. Pensas em rever sua família no almoço, e agora sorri. A felicidade volta a ser plena em seu coração. Voltando para casa, cansados e famintos, sabem que, novamente, estão no carro mais feliz da cidade.



— Bacana, pai, muito bonito… mas faz cinco minutos que é sua vez. Diz Elena, após ouvir aquela história pela sexta vez.

— Ah, sim, perdão. O que estou jogando, mesmo?

Spitz!

— Hummm, spitz é difícil! Ainda mais sem os valetes vermelhos. Conclui baixinho, como quem não consegue evitar um desabafo.


Elena e Aline se entreolham e sorriem, pensando em se aproveitar da revelação dos valetes, enquanto um Ás cai na mesa. Elena joga um 10, para Aline “cortar” os 21 pontos com um dos valetes vermelhos, já que com ela não estão. Aline vê aquele 10 com espanto, pois esperava ver um valete vermelho, e olha para seu irmão com cara de desdém, enquanto baixa um rei.

— Vocês ainda caem na dele!? Pergunta Flavia, incrédula.


Ele solta uma gargalhada enquanto coleta aqueles 25 pontos, mas não sem engasgar e tossir compulsivamente por quase um minuto, antes de se recompor.

— Desculpem-me. Murmura, com certa dificuldade. — O resto é meu.


Ele junta as cartas enquanto Elena o observa preocupada e aflita, afinal o médico dissera que ele provavelmente não chegará aos 87. Vagarosamente, embaralha uma, duas, três vezes. Durante a quarta, pergunta: — Já te contei quando estava ensinando sua tia a jogar xadrez?


Aline começa um protesto em forma de discurso, alegando que foram apenas algumas dicas e jogos-treino, enquanto Elena hesita por um momento, pois já ouvira a história do xadrez cerca de cinco vezes. — Não, pai, como foi? Pergunta, sem conseguir conter o lacrimejo.


Ele então se esquece que está com o baralho na mão, e começa a contar a história do xadrez. Elena o fita sem nada ouvir, apenas pensando em como o ama, e na falta que vai sentir dele. Quando ele termina, ela põe a mão sobre as dele: — Te amo, pai.


Ele sorri, beija a mão dela e diz: — Também te amo, filha querida.


Elena repara que ele ainda sorri com olhos enquanto diz que a ama, e não consegue evitar que uma lágrima escorra e revele seus pensamentos. Rapidamente, ela tenta disfarçar. Ele coloca o baralho na mesa e agrada o rosto de Elena enquanto diz: — É apenas uma viagem, a qual eu vou na frente, e vocês me encontram lá mais tarde.


Ela acena com a cabeça, colocando a mão sobre a dele, que ainda toca seu rosto. Pegando um copo d’água, tenta se recuperar, enquanto ele volta ao baralho.


Dando as cartas, pergunta: — Vai jogar amanhã?


Ela lembra de seu compromisso, mas responde: — Ainda não sei, por quê?

— Porque se você for, gostaríamos de ir junto. Você sabe que adoramos vê-la jogar.

— E dar palpite furado. Complementa Aline, dando risada.

— Não sei se é uma boa, você não pode fazer muito esforço.

— Bobagem, não iremos a pé. Vamos alugar um carrinho para te acompanhar. Tua tia dirige, lógico. Podemos até levar sua bolsa, aí você pode caminhar mais tranquila.


Mesmo ressabiada com a ideia de seu “véio pai” (como costumava chamar) contrariar orientações médicas, e tendo que adiar uma reunião importante, ela concorda. Nada é mais importante do que aproveitar a companhia dele enquanto ainda pode.


No dia seguinte, no tee do buraco 1, Elena está a se aprontar antes de dar a tacada inicial. Um pouco atrás, no carrinho alugado, estão dois sorridentes velhinhos, ela com 79, ele com 86. Eles suspiram, se olham de canto e sussurram em uníssono: — Mais uma manhã… no campo de golfe!



FIM

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