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A ARTE DE PERSUADIR

Dakota Johnson, de Cinquenta Tons de Cinza, interpreta Anne, que busca uma segunda chance

Imagem promocional do filme


Persuasão, de Jane Austen, está na Netflix. Um grande acontecimento, para os que, como eu, são macacos de auditório da escritora inglesa. Alguns desavisados vêem a grande Austen como uma autora de romances para moças virginais. Ela, realmente, não mostra cenas de sexo explícito, com genitais e bundas e descrições tórridas de sexo selvagem, como costuma acontecer em filmes e romances best sellers. Nada contra, claro. The Godfather, o romance de Mario Puzo, vendeu milhões de exemplares e tornou Puzo rico graças também à sua descrição realista de cenas de sexo e ao famoso membro de Sonny (referido no filme en passant, na cena do casamento, em que a mulher de Sonny, sorridente, descreve em gestos a vastidão do falo). Austen, uma solteirona no final do século XVIII, e levando-se em conta os costumes da época, provavelmente nada sabia das sutilezas e da mecânica do sexo. Seus romances sempre tratam do momento anterior ao casamento. O pós-núpcias era um tema desconhecido em seus romances, o que leva a maioria dos leitores modernos a vê-la como uma Poliana tola e desinteressante.

Ledo engano, rapazes.

Ignorando o sexo em seus romances, provavelmente porque entendia a matéria como privativa da intimidade de seus praticantes, Austen se concentrou em desvendar a alma humana na sua eterna busca pelo parceiro ideal e as artimanhas que se praticam para atingir o coração da pessoa amada, mesmo que estas ainda não saibam disso, como acontece em Orgulho e Preconceito, onde acompanhamos duas pessoas, Elisabeth e Mr. Darcy, que merecem ser felizes uma com a outra, mas que levarão quase um livro para descobrirem este fato reconhecido por todos. E serem felizes para sempre. E quanto ao sexo pós nupcial? Baixem as cortinas. Recorram ao Only Fans para maiores detalhes.

Em Persuasão, o último livro de Austen, a heroína Anne Elliot é uma das filhas de um baronete tolo e vaidoso. Vejam como ele é descrito: “A vaidade constituía a base e a essência do caráter de Sir Walter Elliot; vaidade pessoal e de posição... Considerava o dom da beleza inferior apenas ao dom do baronato, e o Sir Walter Elliot, que resumia estes dons, era o objeto constante de seu mais fervoroso respeito e devoção.

Bom pai, este. Austen é implacável com seus personagens. Ela os desnuda até que restem só pele e ossos.


Implacável? Vejam um exemplo: “Os Musgroves tiveram a triste sina de ter um filho incorrigível, e a sorte de perdê-lo antes de chegar aos vinte anos. Mandaram-no para o mar, pois era parvo e indisciplinado em terra. A família pouco se interessara por ele, embora fosse o que realmente merecia. Raramente se ouvia falar dele e pouco lamentaram quando, dois anos antes chegara a Uppercross a notícia de sua morte no exterior.

Lembra Machado de Assis? Lembra. Um pouco mais sutil, com certeza. O velho bruxo do Cosme Velho era um homem amargurado e cético, ao contrário de Austen.


Persuasão trata das segundas chances, do segundo ato das vidas das pessoas. Não vou dar spoiler. Leia o livro. Leia todos.

Sendo assim atemporal, Austen é sempre matéria prima de filmes e séries de televisão. Filme inesquecível é Orgulho e Preconceito, com Keira Knightley como Elizabeth Bennet, também na Netflix. No afã de atingir platéias jovens, filmou-se um Orgulho e Preconceito Zumbi, com Lily James como uma Elizabeth Bennet caçadora de zumbis e expert em artes marciais. Divertidíssimo.

Agora temos a atriz Dakota Johnson no papel da doce e desiludida Anne Elliot. Johnson, como Phoebe Waller-Bridge de Fleabag, narra a história e faz comentários diretamente à platéia, comentários normalmente retirados do original de Austen. Mas Johnson é de longe a mais bela de todas, ao contrário do personagem Anne, cuja beleza fenecera em razão da desilusão da juventude, e o espírito livre desenhado por Johnson está mais antenado com os dias de hoje do que os do começo do século XIX. A narrativa de Johnson ao espectador assemelha-se a de uma celebridade partilhando seus segredos com a audiência nas redes. Por um momento temi que Johnson modernizasse Austen com cinquenta tons de cinza.

Talvez fosse mais apropriado que os autores e o diretor tivessem feito o salto direto para nosso tempo, como em Diário de Bridget Jones, que recriou livremente Orgulho e Preconceito, mantendo frouxamente os personagens principais (sucesso estrondoso, gerando mais dois filmes, mostrando a atualidade de Austen). Pouco importa. Persuasão, o filme, embora deixe a desejar para os fãs de Austen, não deixa de ser uma abertura ao mundo austeniano.


Persuasão, com Dakota Johnson e Cosmo Jarvis personificando o casal romântico Anne e Frederick, dirigido por Carrie Cracknell. Roteiro por Ron Bass e Alice Victoria Winslow. Na Netflix. As citações do livro são da versão brasileira, por Luiza Lobo (Editorial Bruguera). A comparação com celebridades nas redes é do crítico do New York Times, Teo Bugbee. Em entrevista ao mesmo jornal, Cracknell defende o uso da primeira pessoa (ausente nos livros) e a linguagem contemporânea. Até imagino as polêmicas na equipe durante as filmagens; o respeito ao material sagrado de Austen e as exigências do mercado.

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