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A Amazônia que funciona: da tradição ribeirinha à bioindústria do açaí

Um trabalhador em primeiro plano carregando um cesto de vime com açai no porto de Belém. Um pouco atrás, um barco com vários cestos de açai aguardando ser descarregado.

A Amazônia que funciona: da tradição ribeirinha à bioindústria do açaí


Por João Capiberibe


NOTA DO EDITOR: João Capiberibe escreveu este artigo ao tempo da COP 30, que se realizou em Belém do Pará, no ano passado. Com a maestria de um contador de causos, João parte de uma prosaica refeição – só faltou a foto para as redes sociais – e passa a discutir as questões do desenvolvimento amazônico (ele é um apaixonado da Amazônia). João traz uma idéia revolucionária: é possível harmonizar a floresta com o desenvolvimento e a tecnologia. É possível ser rico e ecológico. Xiitas da floresta não vão gostar. Nós gostamos. Boa leitura. (Hatsuo Fukuda)


Ver-o-Açaí e Amazônia na Cuia são lugares onde se come muito bem – e, mais do que isso, são exemplos didáticos da economia da floresta em pé. Você acredita?  


Imagem colorida da fachada do restaurante Ver-o-Açai, em Belém do Pará, com a entrada pintada a cores imitando um cocar indígena.
Restaurante Ver-o-Açaí (Belém/PA) — gastronomia amazônica e valorização da cultura local.

Deve haver outros restaurantes tão bons quanto, mas esses eu conheci porque fui jantar em um e almoçar no outro. Neles, o que é servido vem do rio e da floresta, coletado por mãos ribeirinhas. No cardápio, uma sinfonia de iguarias cujos nomes, às vezes, precisam de tradutor – nada que o Google não resolva. São duas casas que, pelos meus cálculos, empregam entre duzentas e trezentas pessoas nascidas nos arredores: gente raiz, que te recebe de bom humor e, quase sempre, com um sorriso nos olhos.  


No Ver-o-Açaí, o tradicional bolinho de bacalhau sai de cena e entra o bolinho de maniçoba – crocante, saboroso, amazônico até o caroço. O Amazônia na Cuia resolveu radicalizar: aposentou a porcelana. Da entrada à sobremesa, tudo é servido na cuia, reafirmando que a floresta não é paisagem, é cultura, trabalho e renda.



Seis cumbucas de comida típica da Amazonia do Restaurante Amazonia na Cuia, em Belém do Pará.
Restaurante Amazônia na Cuia (Belém/PA) — pratos típicos servidos somente em cuias.

Em nossas andanças pelos meandros da COP 30, além da extensa cadeia bioprodutiva do Ver-o-Açaí e do Amazônia na Cuia, visitei um projeto em que tive que me beliscar para acreditar. Trata-se do parque industrial da empresa KAATECH, na grande Belém.  


Conversei com Reinaldo, o empresário que lidera o projeto, que falou com brilho nos olhos sobre seus produtos. Começou pelo AçaiBot, um robô desenvolvido para fazer a colheita do açaí. Em seguida, apresentou o teleférico, um sistema de trilhos que entra floresta adentro, sem causar impacto, para transportar, em basquetas, o açaí colhido pelo AçaiBot. Depois, mostrou a fábrica onde essas basquetas são produzidas.  


Imagem de robôs projetados pela empresa KAATECH para colheita de açai, escalando árvores para proceder à colheiTa.

Tecnologia e inovação na colheita e beneficiamento sustentável do açaí na Amazônia.


Por último, revelou a joia da coroa: o açaí em pó que, dissolvido em água, reproduz consistência, aroma e sabor da polpa natural. Eu provei. Achei muito semelhante ao açaí que consumo em casa, pelo menos duas vezes ao dia. E tem mais: a extração da polpa é feita a frio, sem alterar seus componentes químicos, como as antocianinas, substâncias antioxidantes vendidas a preço de ouro no mercado global.  


Sem dúvida, trata-se de uma inovação tecnológica de impacto positivo e decisivo na cadeia de valor do açaí. Além de gerar milhares de empregos, essa tecnologia impulsiona a busca por mais conhecimento e mais pesquisa para chegar à produção de suplementos alimentares de altíssimo valor agregado, tendo o açaí como protagonista.


É disso que estamos falando quando dizemos "economia da floresta em pé".


Do fruto na palmeira ao prato — ou à cuia — do consumidor, tudo forma um ciclo integral:

· o ribeirinho que coleta o fruto;

· o transporte cuidadoso, por rio ou por cabos aéreos que respeitam a floresta;

· a agroindústria que transforma o açaí em polpa, pó, bebidas e suplementos;

· os restaurantes e empreendimentos turísticos que levam essa riqueza, com identidade amazônica, à mesa de quem consome.  


Quando a cadeia de valor fica nas mãos das comunidades locais – do extrativista ao trabalhador da cozinha, do técnico de laboratório ao garçom –, o açaí deixa de ser apenas matéria-prima barata exportada a granel e se transforma em conhecimento, tecnologia, emprego, renda e dignidade.  


Essa é a Amazônia que vimos brilhar na COP 30: uma Amazônia em que a floresta insiste em continuar de pé, onde seu povo segue em pé, e sua riqueza deixa de sair apenas em navios para circular também na vida de quem nasceu e vive aqui.  


Essa é a economia da floresta em pé que queremos para toda a Amazônia.



Foto colorida de um homem idoso, de óculos, vestido com um terno escuro e gravata com listras. Ao fundo uma bandeira.


João Alberto Rodrigues Capiberibe é zootecnista e político brasileiro. Nascido no Pará e radicado no Amapá, foi prefeito de Macapá, governador do Estado do Amapá por dois mandatos e senador da República, com destacada atuação na defesa socioambiental, dos direitos humanos e na transparência pública (autor da Lei da Transparência). É uma das vozes históricas na defesa do desenvolvimento sustentável da Amazônia. Este artigo foi originalmente publicado no site Congresso em Foco.



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